Determinação para o mal e para o bem e um país dividido

Angela Merkel é um fenómeno. Surpreendeu-nos com o abandono da energia nuclear na sequência de Fukushima. Indignou-nos – e indigna-nos!!! – pela sua posição quanto à dívida pública. E agora é essa mesma figura que se revela uma humanista intransigente, tudo arriscando e tudo fazendo em nome e em prol da defesa da universalidade da dignidade humana. Na sua política para os refugiados, Merkel não se cansa de repetir que estamos perante um desafio histórico, uma tarefa imensa, mas obrigatória. Tanto a nível europeu como a nível nacional, vem travando uma luta incansável e firme. Não é possível solucionar de imediato problemas que foram sendo criados ao longo de décadas e cujas causas são múltiplas e profundas (até Blair acabou de “apresentar as suas desculpas” admitindo que “os erros” na invasão do Iraque podem ter contribuído para o surgimento do grupo terrorista Estado Islâmico). De momento, resta gerir o imenso desafio de prestar assistência a milhões de refugiados.

Assumindo a política de refugiados como tarefa prioritária da Chancelaria Federal, Merkel nomeou Peter Altmaier, chefe da mesma, como coordenador geral da política de refugiados e redefiniu as responsabilidades específicas de cada Ministério. A nível da EU, apela e pressiona – sem grande sucesso – os estados membros, para que aceitem o desafio histórico em conjunto e para uma distribuição justa dos refugiados.

Dentro como fora de portas, repete continuamente o aviso: “Se pensarmos pequenino, se pensamos demasiado em nós, esta tornar-se-á uma nova e enorme ameaça para a Europa”.

De acordo com a sua estratégia nas várias frentes, Merkel viajou para a Turquia, para prometer ao incontornável mas duvidoso e autoritário Erdogan maior ajuda financeira da UE; Erdogan exige agora pelo menos três mil milhões de EUR para implementar o plano de acção, além de facilidades na concessão de vistos e de uma nova dinâmica nas negociações de adesão da Turquia à UE. Tudo em troca da promessa de melhoria das condições dos refugiados – na Turquia encontram-se dois milhões de refugiados sírios -, da sua manutenção no país e da garantia de segurança das fronteiras, além da readmissão de refugiados entrados ilegalmente na UE.

A nível interno, a maior oposição que Merkel enfrenta não provem de outros partidos, mas sim do próprio CSU, o partido “irmão”, que substitui o CDU de Merkel na Baviera. O seu polémico e populista presidente, Horst Seehofer, furibundo pelas repetidas declarações de Merkel, de que todos os refugiados de guerra serão auxiliados e que não haverá um limite de entradas, encabeçou uma verdadeira guerra contra a chanceler, arremessando críticas violentas desde há semanas, ameaçando com um recurso por inconstitucionalidade e exigindo – até por ultimato – uma actuação enérgica e a instalação de zonas de trânsito – em vez dos centros de entrada também defendidos pelo parceiro de coligação SPD -, bem como a redução dos processos de asilo e de prestações. Impassível e mantendo o seu habitus afável e simples, Merkel não reagiu a nenhuma das investidas e voilà!, conseguiu ontem um compromisso nesta matéria. Porém, não é certo que Merkel consiga aguentar o barco. Nas últimas sondagens, o seu partido desceu para 36%, o pior resultado dos últimos anos.

A situação é frágil. Embora uma grande parte da população continue a apoiar a política de refugiados de Merkel e inúmeras iniciativas de apoio tenham sido criadas, vêm crescendo as vozes xenófobas e os ataques violentos aos refugiados, inspirados pelos anti-islamistas e nacionalistas do PEGIDA (Europeus Patrióticos contra a Islamização do Ocidente). Na última “concentração das segundas-feiras” em Dresden, o líder do PEGIDA comparou o ministro da Justiça, Heiko Maas – o qual declarou que a violência contra os refugiados constitui uma ameaça para a segurança interna da Alemanha – ao nazi Goebbels, enquanto os cerca de oito mil manifestantes gritavam “Fora Merkel!” e “traidora!”. Paralelamente à manifestação do PEGIDA, várias centenas de pessoas protestaram em Dresden contra o ódio e a xenofobia. Um dos grupos da contra-manifestação autodenomina-se GEPIDA, num acrónimo que pode ser traduzido como “moradores incomodados protestam contra a intolerância de marginais de Dresden”. Entre ambos os grupos, mais de 400 polícias mantinham-nos à distância.

Entretanto, o parlamento aprovou um pacote de medidas para tentar reduzir o número de refugiados que inclui maior rapidez na recondução de refugiados não reconhecidos, o alargamento da lista de países de origem considerados seguros, restrições na lei de asilo e aceleração dos respectivos processos.

De facto, a intensidade da afluência de refugiados – de até 10.000 por dia, chegando aos 181.200 só no mês de Outubro – coloca desafios gigantescos. Apesar do grande número de voluntários, mesmo as organizações de apoio, como a Cruz Vermelha Alemã, afirmam que é incomportável o afluxo descontrolado de refugiados, tornando impossível a criação de condições mínimas de acolhimento. Os custos imediatos são astronómicos. Entre alojamento, alimentação, assistência e cuidados médicos até professores de alemão e lugares em creches, prevêem-se custos de ca. de dez mil milhões de EUR para assistência e integração dos cerca de um milhão de refugiados que chegam este ano ao país. Custos a suportar pelo governo, pelos estados federados e pelos municípios. A chanceler, que não se cansa de repetir “vamos conseguir, disso estou plenamente convencida” e que insiste em que sejam encontradas soluções pragmáticas, já excluiu que o financiamento destes custos ocorra através de um aumento dos impostos. Se conseguirmos, acrescenta o presidente da Federação da Indústria Alemã, o aumento populacional poderá ser uma oportunidade e vantagem para a economia alemã.

Mas até lá, muita água há-de correr e os desafios não são, de todo, apenas de carácter económico.

Comments

  1. joão lopes says:

    o Blair pediu desculpas,o Bush senior critica duramente os “falcões” do bush filho e o proprio junior não sai ileso do julgamento do proprio paí.e agora? o caso é muito grave e todas estas consequencias foram sobejamente faladas e discutidas,mas …a Merkel pode sempre pedir responsabilidades aos acima citados,ou a outros,como por exemplo o…mega apoiante do paf sr.fernandes(isto esta tudo ligado,por exemplo a industria de armamento alemã,francesa ou americana tem culpas no cartório,sim ou não?,o grande Obama quer acabar com o negocio das armas,sim ou não? ou o Obama é igual aos “falcões”?)

    • Ana Moreno says:

      Claro que a indústria de armamento alemã e as outras têm montanhas de culpas no cartório, sem dúvida; sobre as causas haveria muito mais que escrever…

    • JgMenos says:

      A industria russo de armamento está sob controlo, oh, pacifistas!

      • martinhopm says:

        Não me diga que foram os russos que provocaram o caos que se vive no Afeganistão e sobretudo no Iraque, Líbia e Síria. O seu a seu dono. Quem ‘criou’ o ISIS? Quem os treinou, armou e sustenta? Os russos?!

  2. Nightwish says:

    Está a assumir que o abandono da construção de novas centrais nucleares é positivo, o que não é verdade.
    E quanto à xenofobia, foi ela própria que a ajudou a criar contra os países do sul.


  3. A dirigente da UE com a melhor postura politica tinha que ser alemâ? Mas na verdade é que é. A sua atitude na Ucrania e agora nos refugiados, mostra quem tem visão e trava as incríveis e traiçoeiras atitudes de ingleses e americanos a deitar gasolina para o fogo .

    • Nightwish says:

      Ao fazer um golpe de estado e a pôr um neonazi no poder esteve bem? Muito me conta.