Tiques e decisões: a propósito da prova final de quarto ano

critériosComecemos por algumas declarações de interesses: estou contente por ver Passos e Portas despedidos, estou muito contente por ver Cavaco com cara de quem teve uma paragem de digestão, estou satisfeitíssimo por ver Nuno Crato apeado e não estou contente por ver regressar ao governo gente sinistra como Santos Silva, membro da clique socrática que se dedicou a demolir a Educação. O meu coração de esquerda deseja, ainda assim, que se possa compensar o mais possível os desmandos de quatro anos de pressão sobre os mais fracos e sobre a administração pública, quatro anos da mais absoluta cobardia política, quatro anos em que uma maioria absoluta pisou demasiado e demasiados cidadãos, em nome de valores desumanos.

No que respeita à Educação, o meu coração de esquerda, no entanto, acaba, muitas vezes, por  sangrar. Na verdade, e graças a eventuais boas intenções (que, como se sabe, enchem o Inferno), há tiques de esquerda que levam a que se tomem decisões com base em reacções ideológicas e não numa reflexão aprofundada e abrangente. Foi o que aconteceu com a revogação das provas finais de quarto ano, medida que parece basear-se mais numa reacção alérgica às parecenças entre esta prova e os exames do tempo da outra senhora.

É verdade que a direita tem outros tiques igualmente censuráveis. Nuno Crato acreditava, sem perder tempo a pensar no assunto, que bastava inundar o sistema de exames para que pudesse clamar que tinha passado a haver exigência, quando, na realidade, os exames, tal como eram aplicados, só serviram para aprofundar a interpretação pervertida dos rankings e a consequente transformação das aulas em mero treino. Ao mesmo tempo, tomou decisões altamente lesivas, como, por exemplo, o aumento do número de alunos por turma e o despedimento de milhares de professores, o que, entre outros factores, impedia a detecção e, sobretudo, o acompanhamento de alunos com dificuldades. Duarte Marques e Paulo Rangel, com a ignorância típica das conversas de café (Marques quer escrever sobre Educação em 2015 e ainda se refere à “quarta classe”, mas Marques nunca desiludirá), fazem depender a exigência do ensino da existência de exames, o que é, no mínimo, simplista.

Entretanto, aconselho a leitura de um texto do Paulo Guinote.

Seja como for, esta questão, como muitas outras no âmbito da Educação, não pode continuar a depender de tiques ideológicos, porque, caso contrário, andaremos sempre ao sabor das marés eleitorais, com reflexos para o mexilhão. Ainda assim, agora que a revogação é um dado adquirido, faz sentido pensar noutras medidas: a diminuição do número de alunos por turma é bom princípio, mas não chega.

Comments

  1. Sonia Cruz says:

    Não parece haver países na Europa com exame no 4.º ano de escolaridade. Os meus filhos andaram na secção portuguesa da Escola Europeia do Luxemburgo e só começaram a ter exames no 9°ano e a partir daí faziam exames todos os anos (duas vezes por ano!!!) até ao 12° ano. Apesar de na altura ter achado exames a mais, confesso que agora reconheço que ficaram bem preparados para os exames das universidades, dos empregos, etc. No meu tempo havia menos exames e eu nunca me senti à vontade com exames. Eles não …Habituaram-se a tantos exames que agora nem tremem… 😉 Exames sim, mas muito cedo também não.


  2. “Foi o que aconteceu com a revogação das provas finais de quarto ano, medida que parece basear-se mais numa reacção alérgica às parecenças entre esta prova e os exames do tempo da outra senhora.”

    Não tem nada a ver com isso, com uma reacção alérgica às antigas provas da 4ª classe.

    Tem a ver com tanta coisa diferente.

    Mas fez bem em mencionar o texto de opinião de Paulo Guinote. A sua tese fundamental a favor destes exames era / (é?) a do “trauma”. E repetiu esta ideia à exaustão – a de que a esquerda estava traumatizada e a de que os alunos do 4º ano deviam passar por este exame porque sim, para mostrarem aos mais velhos que isto não causa trauma nem stress nenhum.

    Ou seja, e repito, defender ou deixar de defender estes exames baseados em traumas ou não traumas é um argumentário tão fraco, tão fraco que me causa perplexidade.


  3. Esta choraminguice acerca do fim dos exames de 4º ano já está a ser demais. Exames no 4º ano são duas coisas: inúteis na sua forma actual e “massacradores” para crianças em idade escolar em pleno desenvolvimento cognitivo pouco adequado a uma prova deste tipo. Se querem métricas, façam-nas internamente. Provas globais a nivel de escola ou agrupamento. Para satisfazer egos docentes entre pares.
    Agora a sério: querem exames? Que tal exames nacionais no final do 9º Ano a TODAS as disciplinas com peso de 30-50% na nota final de Ciclo? Os exames devem ser considerados a parte final da aferição das aprendizagens(reparem que eu não disse ensino ou educação) e devem ser feitos no final do único ciclo adequado para se ter uma escolaridade obrigatória que abranja toda a população. Para alem de uma idade em que o desenvolvimento cognitivo já permite que o exame seja encarado a sério e que seja realmente aferidor.
    Exames no 4º ano e 6º ano são redundantes, ineficazes e despropositados. Get over it and deal with it.

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  1. […] a aplicação de exames ou provas ou o diabo a quatro não podem, no entanto, estar sujeitas a tiques, modas ou alternâncias políticas entre caranguejolas, geringonças ou outros veículos. Importa, […]

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