Carta do Canadá: Fujões, passarões e confusões

Quarenta anos na vida dum país, são para levar a sério porque esse tempo passou, inteirinho, por cima de cada um dos seus cidadãos.  Quarenta anos em cima duma pessoa, pesam, às vezes de forma dramática.  Por isso não é de aceitar que fujões e passarões, que os há sempre numa grande geração, apareçam como se não fosse nada com eles, todos airados, a gozar com o povo. Principalmente quando é público e notório que governaram a vidinha comendo regaladamente do que é de todos e nunca tendo levantado um dedo para denunciarem quem corrompe, antes frequentando muito a alta roda dos corruptos.

Entretanto, muitos portugueses tiveram de emigrar e é preciso que se saiba que emigrar, expatriar-se, não é um piquenique nem uma passeata. É, muitas vezes, comer o pão que o diabo amassou para garantir uma côdea na velhice e, pelo caminho, dar aos filhos ferramentas de conhecimento que lhes garantam melhor vida.  Muitos outros, perdidas as casas em favor dos bancos, arrastam-se hoje com subsídios miseráveis e vão buscar a comida aos lugares onde voluntários salvam vidas. São poucos os que conseguiram emprego e refazer a vida mas, em contrapartida, há hoje muitos mais milionários. Agricultores, pescadores, operários, professores, artistas, candidatos a cientistas, desesperam.

A austeridade imposta por Berlim pelo viés de Bruxelas, desgraçou dezenas de países e milhões de pessoas. Por essa  Europa fora, povos desesperados vão atrás de políticos populistas.  A Europa entrou na tentação autoritária, o que causa calafrios por já todos termos visto este filme. Compreender-se-à que esquerda de todos esses países esteja disposta a mudar as peças do tabuleiro.

Não votar é errado, porque é uma fuga que não resolve nada. Mas também é errado votar, por medo ou preconceito, em candidatos que também são culpados desta situação. Há horas, na vida dum país e na vida duma pessoa, em que se deve ter a inteligência, a lucidez e a coragem de escolher o novo e experimentar.  Porque escolher o velho é contribuir para que o país se afunde, irremediavelmente, neste mar estagnado de podridão.  Os que vêm depois de nós não merecem isso.

Comments

  1. Atento says:

    Excelente artigo, vou tomar a liberdade de o fazer publicar…

  2. Afonso Valverde says:

    Excelente artigo.
    Já estava inclinado a escolher “fora do sistema” alguém de novo.
    Saúde.

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