Crónicas do Penedo III – The West Wing vs The House of Cards e a vida são dois dias…

bartlett-underwood

De “Os Homens do Presidente” a “House of Cards” passando pela comunicação política sem esquecer a tal entrevista à Visão.

Está quase a chegar mais uma temporada  da série “House of Cards”. Enquanto esperava o regresso de Frank underwood aproveitei para rever a compilação da série “Os Homens do Presidente” (“The West Wing” no original) e reflectir sobre as suas diferenças e a realidade actual.

É um engano julgar que estas duas séries são mera ficção. Só o são para quem nunca teve de lidar com a comunicação política, mesma a mais pequenina ou básica. Existem muitos pontos comuns, muitos momentos/actos/factos cuja correspondência com o real é de tal forma que até assusta, mesmo à distância de um oceano.

Vamos por partes.

As duas séries são muito diferentes. É verdade. Mesmo que o seja por diferente motivo do que aquele que à primeira vista possa parecer. A mais antiga, “Os Homens do Presidente” é menos sombria, violenta ou até cínica que a mais recente, “The House of Cards”. O Presidente Bartlet é bem mais moderado/honesto/simpático do que Frank Underwood, absolutamente cínico/demolidor/implacável. A questão está em saber o porquê destas diferenças num tema que é comum. Em meu entender é fruto da realidade de cada momento histórico e da evolução que teve a política e consequentemente a comunicação política. Sempre tendo bem presente, seja a quem escreve como a quem está a ler que sendo obras de ficção o exagero é natural.

Hoje os valores são diferentes. Para o bem e para o mal. Os métodos e técnicas de Frank Underwood estão mais próximas dos actuais políticos assim como os de Bartlet estavam em linha com os da sua época. Por isso mesmo, hoje este não faria grande sentido assim como o outro, Underwood, não o faria nos anos noventa. O problema reside no facto de agora, mais ainda do que no passado, o cinismo e a falta de competência serem características fundamentais para o exercício da política. Estou a exagerar? Penso que não. Nunca seria possível, nos anos oitenta ou nos anos noventa figuras como Trump serem putativos candidatos do partido Republicano (ou de qualquer outro) com um mínimo de hipóteses. A questão é saber o que mudou? O grau de cinismo. As máquinas partidárias foram tomadas, literalmente, de assalto por aqueles cuja política nunca foi um ideal de serviço mas sim algo ao serviço dos seus interesses, da chamada “vidinha”. Existem excepções? Claro. O problema é que na hora da verdade são engolidas e/ou trucidadas. Ora, com a ascensão da mediocridade ao poder, a comunicação política mudou. Teve de mudar. Obviamente, na mesma linha. É por isso que ao longo dos últimos anos vi alguns arremedos de “Underwood” e poucos “Bartlet” – o que não significa que não existam, só não sei é se são uma espécie em vias de extinção ou se antes pelo contrário.

O cinismo domina a “polis” e um bom exemplo tive-o eu no rescaldo à entrevista que dei em 2013 à Visão. Desde profundos conhecedores das técnicas a mostrarem publicamente o seu espanto pela sua existência até ao grau máximo de cinismo que foi, alguns, propositadamente, “treslerem” ao sabor das suas conveniências falando sobre aquilo que não estava nem escrito nem dito como se o tivesse sido. O rescaldo da peça da Visão feita por uma pequena parte dos profissionais do meio e por alguns dos “interessados” foi mais um momento “underwoodiano” da comunicação política destes tempos. Um bom exemplo é o ataque através de algo que só o tempo pode desmentir e que por isso mancha o adversário no momento sabendo que o tempo é inimigo do acusado e aliado do acusador. Lembro-me de muitos terem afirmado que a minha entrevista mais não era do que um acto de um ressabiado que estava a caminho de sair do seu partido para servir um outro “senhor”. Como se desmente isto? Só com o passar do tempo. Dois anos depois continuo onde estava. É tarde, o mal está feito. E é muito bem feito, colhi o que semeei e senti na pele os efeitos das técnicas que também usei. E como este exemplo, vários outros do mesmo género. São estas as técnicas que hoje se usam e que todos usam ou usaram em determinados momentos para determinados fins. E quando afirmo “todos” estou, obviamente, a incluir-me. É fruto da época. A questão é saber se existe consciência do caminho que se trilhou (ou que, nalguns casos, ainda se trilha).

Para Frank Underwood existe total consciência, o que é natural naqueles que se julgam percursores de algo ou seguidores de uma tradição que no seu entender é real. Para a maioria, na minha opinião, não existe consciência. E só com uma ampla discussão pública, sem complexos e sem filtros, algo pode ser alterado. Se é que existe interesse em alterar. Como comecei muito cedo a seguir e a agir politicamente passei por várias experiências e participei, umas vezes de forma activa e outras de forma passiva, pelos dois momentos que, de alguma forma, as duas séries retratam. Da mesma forma que fui precoce na chegada, precoce fui na saída.

Com as devidas distâncias e diferenças típicas de países e sistemas políticos que são muito diferentes. Tive o privilégio de conhecer um ou outro político cuja filosofia de vida coincidia com características sublinhadas em Bartlet e que, como este, como todos nós, não eram nem foram perfeitos. Mas tentaram. Cujas decisões eram tomadas na fé de se estar a servir, acima de tudo, o interesse público. Será que hoje conseguiriam “sobreviver”? Tenho muitas dúvidas e se me permitem vou dar um exemplo recente e de alguém que não conheço pessoalmente e com quem nunca, infelizmente, trabalhei: Marcelo Rebelo de Sousa.

Entendeu fazer uma campanha eleitoral totalmente diferente da habitual sem recorrer aos meios tradicionais. Como foi interpretada esta sua decisão? Como um aproveitamento cínico do facto de ser conhecido de todos os eleitores por ter sido durante anos comentador político na televisão. Vamos ser francos: acreditam mesmo nesta teoria ou preferem acreditar? O seu comentário político tinha uma audiência média na ordem do milhão e duzentos mil espectadores. Ou seja, mais coisa menos coisa, nem 10% do número de eleitores. Quantos outros candidatos em diferentes eleições e com presença assídua nas televisões, rádios e jornais se candidataram a diferentes cargos políticos neste país e fizeram o mesmo que Marcelo? Nenhum. Zero. Vamos a nomes: Mário Soares, Cavaco Silva, José Sócrates, Pedro Santana Lopes, Paulo Portas. Só para citar os exemplos mais óbvios de políticos que sempre tiveram presença muito forte na comunicação social e que quando se candidataram a cargos políticos tinham a mesma hipótese de fazer o que fez Marcelo e não se atreveram. Já para não falar que acusar Marcelo de cinismo nesta matéria é passar um atestado de burrice ao eleitorado. Depois das eleições decidiu não ficar com o montante a que tinha direito em termos de subvenção, um valor acima de um milhão de euros. Novamente assistimos às técnicas “underwoodianas” dos tempos que correm: “é de um populismo atroz”, atiram uns; “pois, vê-se logo que é rico” e mais qualquer coisa sobre os Espirito Santo e a sua amizade. A sério, também acreditam nestas merdas? Será que custa muito acreditar que o homem é mesmo assim, foi assim que foi educado e é essa a sua filosofia de vida, de servir a causa pública?

Não era mais lógico discutir porque raio o dinheiro dos nossos impostos deve financiar uma campanha eleitoral acima daquilo que ela mesma declarou ter gasto? Não era mais útil discutir o financiamento público das campanhas? Não era bem mais interessante colocar na ordem do dia o tema que o próprio Marcelo (propositadamente ou não) lançou em termos de financiamento privado de campanhas políticas desde o momento em que o recusou liminarmente? Não, o que importa é denegrir, desgastar e colocar tudo e todos no mesmo saco. Até porque sabem que ninguém é perfeito e é só uma questão de tempo. É neste ponto que as coisas estão e por isso, salvo raras, muito raras excepções, os “Bartlet” destes tempos querem é distância de tudo o que seja actividade política activa.

De igual forma, conheci muitos aspirantes a “Underwood”. Na maioria dos casos só lhes faltava em inteligência o que sobrava em esperteza. No resto, pouco ficavam a dever aos métodos usados em “House of Cards”. Alguns deles são os primeiros, por actos e omissões, a “surfar” a onda das críticas atrás referidas. A criticar, queimar e assassinar o carácter de qualquer “Bartlet”, mesmo que putativo, que tente colocar a cabeça de fora ou limitar-se a colocar o dedo no ar. Estou convencido que conheci um que era uma fotocópia de Frank Underwood. De um cinismo e inteligência absolutamente fora de série e que só não foi longe porque Portugal ainda não era como o é hoje. E não o estou a ver a matar mais do que uma mosca. De resto, pouco ficava a dever à personagem superiormente interpretada por Kevin Spacey. Já arremedos conheci vários, um ou outro ainda andam por aí, a fazer pela vidinha mas não passam de meros sobreviventes sem direito nem a rodapé na história da sua terra. Mas existem. Como existe quem lhes faça a comunicação e quem, inocentemente ou não, pense que é normal. Não é uma crítica nem tão pouco um sacudir a água do capote. É, por um lado, a constatação de um facto e o assumir, nas devidas medidas e proporções os meus próprios erros. Quem nunca os cometeu que atire a primeira pedra. O problema é que “a coisa” se está a tornar assustadora. Pelo menos para quem, como eu, hoje, é mero espectador. Assustador na medida em que os partidos são essenciais para a democracia mas estão numa espiral de destruição de que não há memória nos últimos 30/40 anos e com isso se está a criar um verdadeiro “caldinho” para o surgimento, melhor dito, ressurgimento dos mais temíveis radicais políticos. Daqueles que tornariam impossível que espaços de livre opinião como este, o Aventar, existissem. Daqueles que fazendo-se passar por um “Bartlet” são, na realidade, bem piores que um qualquer Frank Underwood.

Considerar que chegamos aqui por causa ou por via das redes sociais e da comunicação digital ou dos responsáveis de comunicação política é como confundir a obra prima do mestre com a prima do mestre de obras. A realidade actual é fruto do nosso desleixo, do eterno “deixa andar” sem esquecer o “isso da política não me interessa para nada nem interessa para nada”. A que se junta a fobia dos “nossos melhores” aos métodos e técnicas do “aparelhês” deixando-o completamente à solta. Tudo isto realidades anteriores e independentes da existência das redes sociais. Estas são apenas mais um meio, como outros. E já nem são novidade. E até são bem mais democráticas na forma como possibilitam a participação de todos.

A prosa já vai longa e o Aventar não acaba hoje, por isso vou abreviar. Nada como olhar para “Frank Underwood” e para o “Presidente Bartlet” procurando perceber a evolução da política e da comunicação a ela associada. São duas séries bastante interessantes para quem gosta destas coisas. É que a vida são dois dias…

(a foto foi gentilmente palmada em www.patheos.com)

Comments

  1. Afonso Valverde says:

    Parabéns pelo texto. Fixei, sobretudo, o penúltimo parágrafo.

  2. Afonso Valverde says:

    Convém, parece-me, a propósito do que escreveu que estas poucas mais sábias palavras devem merecer reflexão:

    http://www.abrupto.blogspot.pt/


  3. Excelente visão actual. tambem costumo fazer esse tipo de comparações.

  4. Ferpin says:

    Discordo do seu artigo.

    Westwing (fui confirmar) existiu entre 99 e 2006. Apanhou a era Bush filho (um perfeito underwood sem escrúpulos)

    House of cards aparece em plena era obama.

    Ou seja as séries talvez correspondam a um contraponto em relação ao tipo de governação que existe nos usa.

    Quando o presidente é um bartlet a TV faz um underwood. Quando o presidente era um underwood a TV deu-nos um bartlet.

    House of cards até é uma adaptação de uma antiga série inglesa, excelente, e que passou na RTP2 há muitos anos.

    Quanto a Marcelo, julgava que um candidato só podia ir buscar verbas orçamentadas. Ele orçamentou 150.000€. Logo a menos que eu esteja enganado nem sequer poderia ir buscar mais do que esta verba (corrijam-me se estiver enganado). No entanto, mesmo que pudesse legalmente ir buscar a verba toda da subvenção, não passaria pela cabeça de ninguém com dois dedos de testa fazê-lo nestas circunstâncias, pelo que… Não posso elogiar um feito que consistiria basicamente em não fazer uma tremenda burrice.

    • Maria Vieira says:

      Está enganado, claro. A lei atribui um x por cada voto, para quem os tem acima de 5%. Se ele não foi buscar foi porque não quis.

      • ferpin says:

        Estarei enganado, segundo diz você, no entanto os media (alguns) dizem o contrário.
        de
        http://economico.sapo.pt/noticias/apenas-tres-candidatos-presidenciais-tem-direito-a-subvencao-estatal_240694.html

        Cito este parágrafo:
        De acordo com as recomendações emitidas pela Entidade das Contas para estas eleições presidenciais, o limite máximo admissível de despesas para a campanha eleitoral foi fixado em 3.408.000 euros. Por sua vez, a subvenção não pode, em qualquer caso, ultrapassar o valor das despesas efetivamente realizadas.
        (nota minha: 150.000€ no caso do Marcelo)

        Portanto, ou sabe algo que escapa aos jornais e nesse caso gostaria que esclarecesse onde posso ir confirmar a veracidade do que afirmou tão convictamente, ou tal como me acontece muitas vezes, há mais saber nas minhas dúvidas que nas suas certezas.

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