A morte assistida e a carta de Lincoln

Marquis_Warren_Samuel Jackson

Laura Santos

Quando não aguentar mais, vão dizer-me que não reflecti o suficiente?

O último filme de Tarantino, Os oito odiados, situado uns anos após a Guerra Civil americana, começa com uma cena em que, numa tempestade de neve assustadora, um caçador de recompensas negro, Major Marquis Warren (Samuel Jackson) [foto], pede “boleia” a uma diligência, de modo a poder levar no tejadilho os cadáveres de três criminosos à cidade de Red Rock. Dentro da diligência está outro conhecido caçador de recompensas, O. B. (James Parks), algemado a uma mulher que vai levar para a forca na mesma cidade
O.B. identifica o Major como sendo aquele negro envolvido na Guerra a quem o próprio Lincoln teria escrito uma carta de amizade. Devido a esta fama, dá-lhe de facto boleia, pergunta-lhe se leva consigo a carta e lê-a em silêncio.
Muitas cenas passadas, acabámos por saber que a carta fora forjada pelo Major, de modo a tentar proteger-se dos brancos esclavagistas. Mas, nessa altura de carnificina, revelar a verdade já não lhe traz más consequências.
No final do filme, só restam dois homens vivos, a caminharem rapidamente para a morte: o Major e quem seria o próximo xerife de Red Rock. E é nesse contexto que, tendo os espectadores já esquecido a carta de Lincoln, Tarantino, no que me pareceu um golpe de génio, põe o xerife a perguntar ao Major se pode ler a carta, mesmo sabendo-a falsa. Pela primeira vez, ouvimos o seu conteúdo, um rasgado e bem escrito elogio ao Major em tom de amizade. Há até nela uma nota de intimidade, quando é atribuído a Lincoln o facto de a sua Mary Todd ter acabado de chamar por ele, o que queria dizer que eram horas de se deitar. O futuro e agonizante xerife elogia a subtileza desse pormenor, amassando depois a carta e deitando-a ao chão.

Pouco tempo depois do final do filme, fiz uma associação curiosa: aquela carta falsa de Lincoln fazia-me lembrar todos os argumentos geralmente usados contra a morte assistida, como se fossem os mais verdadeiros deste mundo: nos países despenalizadores, muitíssimas mortes não são realizadas a pedido, tratando-se portanto de homicídios, facto cristalino que, dizem os delatores, vem até em fontes oficiais, fontes não mostradas por eles; na Bélgica é possível eutanasiar-se crianças de qualquer idade, a pedido dos pais ou por decisão médica (mentira que desmontei neste Jornal), “mata-se” (claro que os opositores queriam dizer “assassina-se”) quem quer que não se sinta de bem com a vida, afirma-se sem pudor que quem é a favor da despenalização se assemelha a alguém que empurra um desesperado pela ponte abaixo, classifica-se de “vítima inocente” quem lúcida e reiteradamente pede para morrer de modo a não sofrer de doença que torna a sua vida num inferno.

Como é público, sou uma doente oncológica. Escrevi 700 páginas – julgo que de qualidade – em dois livros a favor da morte assistida, vários textos neste Jornal. Quando não aguentar mais, vão dizer-me que não reflecti o suficiente? Ou os cuidados paliativos vão querer-me basicamente sedada durante inúmeros anos, contra a minha vontade e a do marido, mas com a cumplicidade ditatorial do Estado? Haja respeito pelas minhas convicções, pela minha dor e sofrimento e a de tantos outros. Se essa altura chegar, acham que será fácil separar-me de quem mais gosto? Continuarão a querer que me suicide sozinha, como parece advogar o Bastonário da OM?

Há histórias terríveis nos cuidados paliativos. Que não nos são contadas. Faça-se tudo contra a dor, mas respeitem a minha dignidade até ao fim respeitando as minhas convicções mais íntimas e reflectidas sobre o sentido da vida e da morte. Respeitem a minha vida privada, como o reclama a Convenção Europeia dos Direitos Humanos (art.º 8), vida privada não sujeita a referendos.

E, afinal, o que os detractores da morte assistida afirmam nem sequer consegue ter a bela retórica da suposta carta de Lincoln. As minhas desculpas a Tarantino.

Professora aposentada da UMinho, autora de “A morte assistida e outras questões de fim-de-vida” (Almedina, 2015) (laura.laura@mail.telepac.pt) in Público, 25-02-2016

Comments

  1. Ana Moreno says:

    Toda a minha solidariedade, que lamento de nada servir. É uma hipocrisia, em nome do respeito pela vida desrespeitar o livre arbítrio e impor o sofrimento. É desumano.

  2. Numa altura em que nos vão tirando tudo, deixem-nos ao menos a possibilidade de sermos nós a escolher o nosso próprio e pessoal futuro. A religião, seja ela qual for não deve interferir. Que cada um por si possa decidir sobre si próprio.

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading