Facada

lula

A corrupção surge em todo o lado. Porém, há sistemas que lhe são mais favoráveis e outros que o são menos, há sociedades em que é mais tolerada e outras em que o é menos. Acredito que a única possibilidade de lidar com esse bicho virulento é controle, controle, controle, transparência, transparência, transparência. A corrupção por parte de políticos a quem demos o nosso voto de confiança é sempre uma agressão contra a sociedade e põe em causa os pilares do sistema em que (julgamos) viver. Quando, além de serem políticos em quem confiámos, são políticos que hastearam a bandeira da justiça social e mobilizaram a esperança popular para se içarem ao poder, a agressão é dupla, porque é uma facada na frágil esperança de um mundo melhor; é a indiscutível redução ao não vale a pena, ao vai dar tudo ao mesmo. Vem isto a propósito do caso Lula, sobre o qual, por agora, deve manter-se o pressuposto da inocência, já que não foi condenado e afirma estar inocente. Mas não deixa de ser doloroso que um presidente que indubitavelmente trouxe benefícios às camadas mais pobres possa estar a ser ligado a estas acusações de benefícios ilegais e, mais ainda, de ter propiciado a disseminação da corrupção no sistema.

Às vezes, parece que a humanidade não tem, nem nunca poderá ter pernas para andar para a frente. E no entanto, se acreditarmos e “lutarmos, podemos perder. Se não o fizermos, já perdemos” (Brecht?).

Comments


  1. Pois, isso está claro: que os outros façam mal ou não assumam o que promete(ra)m, não é razão para nós deixarmos de fiscalizar, exigir e lutar… chama-se a isto exrecício da cidadania.
    E pior, depois instala-se aquela ideia (e prática) de que “eu não sou estúpido”, que passa a servir de argumento ao cidadão para fugir aos impostos, enganar o estado, etc. como se fosse muito lícito.

  2. José Peralta says:

    Ana Moreno
    “Mas não deixa de ser doloroso que um presidente que indubitavelmente trouxe benefícios às camadas mais pobres possa estar a ser ligado a estas acusações de benefícios ilegais e, mais ainda, de ter propiciado a disseminação da corrupção no sistema”.

    Sem deixar de dar crédito ao que escreve, saliento que as violentas “manifestações”, com crianças de cinco anos ou pouco mais, usadas, obviamente pelos pais, e ostentando, visivelmente, símbolos e faixas de índole neo-nazi, apelando ao regresso de uma ditadura de coronéis, uma junta militar, com as perseguições, prisões, tortura, desaparecimento de pessoas, é uma lembrança recente, que não pode NUNCA ser esquecida !

    E cito Chico Buarque e outros democratas e intelectuais brasileiros, que têm a coragem, (como tiveram nesse passado recente e logo veremos o “preço” que, de novo, isso lhes custará !), de dizer que as acusações contra Lula, e o objectivo desta gigantesca movimentação, desta cabala, visa não tanto o afastamento de Dilma, mas sim, impedir a possível candidatura dele às presidenciais em 2017 !

    “Parece-me, e repito, “parece-me” algo que já vi, recentemente ! Mas “não me lembro onde”…

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Coitadinhos dos políticos. Enriquecem sem se saber como, mas são sempre umas vítimas, são sempre perseguidos. É o Lula, é o Sócrates, coitados. Aliás, acho que devia haver uma legislação própria para a classe política. Serem arguidos? Serem acusados? Onde é que já se viu!

      • José Peralta says:

        Ricardo Santos Pinto

        O seu problema, deve ser “oftalmológico”, porque parece faltar-lhe “visão periférica”…

        E talvez, se “conseguisse” olhar em volta, perguntar-se-ia porque para uns, há a “bonomia” de não encontrar as provas “convenientemente desaparecidas” da compra fraudulenta de submarinos, (nem nas 60.000 fotocópias tiradas no Ministério da Defesa ?…) ou de desculpar a “ignorância” de pagar impostos durante cinco anos, servir de porteiro a “abrir portas” para a tecnoforma, etc., etc. !

        E para outros, não há essa “bonomia”, isto sem pôr minimamente em causa se são culpados ou não ! Pura e simplesmente, parece que os zelosos juízes, ainda não têm certezas…e estão a ver-se em palpos de aranha para encontrar provas…

        O que eu quis dizer, “na minha”, foi que a “Justiça”, tem dado provas de ser cega de um olho, surda de um ouvido, e muda só de “metade da cavidade bucal”…

        Quanto à efectiva realidade brasileira, (ou um pouco por todo o Mundo), a realização de manifestações, como as que citei, e comícios neonazis a apelar ao regresso de juntas militares, etc., você “não sabe, nem vê” ! O tal “problemazito oftalmológico”)…

  3. Nascimento says:

    O que Ana escreve vai mais fundo do que um simples comentário sobre Lula e companhia. O que ela expõe, é a sensação de incredulidade que passa nas mentes de todos os homens e mulheres de esquerda. Sim, de ESQUERDA!!!! É bom dizer isto e em voz alta.
    Dos outros, os filhos da puta de DIREITA os DONOS DE ISTO TUDO, já sabemos o que a casa gasta. E custa , muito, ver alguêm dos NOSSOS, enfiado no mesmo barco… foda-se!!!

    É primário, não é? Básico, não é? Pois é, mas, é precisamente isto que eu penso e sinto…e daqui não saio!

    ps. para mim,nestas alturas penso sempre em L. Sepulveda: –
    ” há nós, e os outros , os filhos da puta… e tu, de que lado estás?”-

    • Carvalho says:

      Exactamente! Subscrevo tudo o que escreveu.
      Dos outros bandalhos nada de bom se espera. Mas de um dos nossos espera-se melhor que esta merda.
      Raispartam o Lula, deixou-se cair no mesmo buraco dos outros corruptos…

  4. Ana Moreno says:

    Sim, é isso mesmo, é um suspiro de desalento. A que tento reagir no momento seguinte 🙂

  5. Joam Roiz says:

    É tão evidente o apelo da direita à intervenção militar e à instauração de uma nova ditadura capitalista no Brasil, que ainda que Lula tivesse sido “tocado” pela corrupção ( coisa que nem de perto nem de longe acredito), um artigo como o de Ana Moreno é um verdadeiro tiro no pé. É o mesmo que num país em guerra haver generais a venderem, clandestinamente, armas ao adversário. Num momento tão grave para o povo brasileiro e para a sua democracia, resta aqui saber qual o “lucro” que Ana Moreno pretende alcançar com este seu artigo. Se é zelo puro, em certas circunstâncias, o zelo em excesso é falta de zelo.

    • Ana Moreno says:

      Portanto para evitar uma intervenção militar para uma nova ditadura capitalista há que aceitar um sistema corrupto, é isso? Tenho amigos brasileiros que que têm a ousadia de desejar justiça social sem corrupção – o que na linha do que escreve é uma ingenuidade, os pobres de espírito!


  6. A facada é tambem nos que persistem em fazer coro com a matilha da sua cor . em vez de promover, entre os eleitores a cultura do escrutinio permanente. Agora temos no Brasil uma turba de ódio, que já deitaram o Brasil para a crise. porque as matilhas em vez de apoiarem a justiça (se é isso que se passa lá), decidem entricheirarem-se na sua crença; como se a corrupção fosse um caso de crença.

  7. omaudafita says:

    Não tenho partido embora vote quase sempre no PS. Sou de esquerda no posicionamento da noção de estado e de economia ao serviço das pessoas. Sou mais conservador nos «temas fracturantes».
    Dito isto, pouco me importa que o Lula ou o Sócrates vão para a cadeia cumprir pena capital se forem culpados. Pouco me importa o comportamento dos jornais e TV. O que me importa mesmo
    o que me importa mesmo
    O QUE ME IMPORTA MESMO
    é porque só se metem com os políticos de esquerda?
    Não se metem com o 140%
    com o abre portas
    com o submerso
    com o mãos de ouro
    com o queijeiro
    com os animadores de cidades menos importantes que o Porto
    com os mais pequenos
    com aqueles que não rapam as partes
    e tantos outros…
    É estranho….

  8. Joam Roiz says:

    Ana Moreno: – Por muito que me custe, eu continuo a preferir um sistema mais ou menos corrupto, com algumas liberdades, a uma ditadura de coronéis onde há pessoas a serem torturadas ou que simplesmente desaparecem sem deixar rasto. Até porque as ditaduras não são virgens de corrupção. Pelo contrário, quando as oligarquias capitalistas governam em ditadura, a corrupção, embora camuflada, é ainda maior do que quando governam em “democracia”. É por isso que me parece do mais elementar bom senso, entre dois males, escolher o menor. Até, naturalmente, nos começarmos verdadeiramente a aproximar de uma sociedade sem classes. Situação que, concedo, demorará pelo menos mais um ou dois séculos a chegar. Quanto a si e aos seus amigos brasileiros, a meu ver, laboram num erro. O sistema capitalista traz em si os germes da corrupção. Ele gera mesmo a corrupção. Sendo o lucro o escopo final, haverá sempre quem queira enriquecer mais, e mais rapidamente do que os mecanismos de exploração próprios do sistema permitem.

    • Ana Moreno says:

      Joam Roiz, sem dúvida alguma que é preferível um sistema mais ou menos corrupto a uma ditadura; o que não acredito é que só haja essas duas alternativas, nem em geral, nem no Brasil actual e colocar as coisas assim é limitar o campo de visão e acção das pessoas e por isso manipulá-las. Quanto aos sistemas, não é só o capitalista que gera a corrupção, ela encontra-se em todos. Só um forte controle democrático e institucional através das leis correspondentes nos ajuda a lidar com ela.
      Quando não se espera mesmo, quando se acredita na integridade, às vezes fica-se desalentado, se ela é posta em causa – mas penso que isso não deve fazer-nos perder os ideais.

  9. Joam Roiz says:

    Duas ou três notas em jeito de resposta amiga: 1) A Ana Moreno não acredita “que só haja essas duas alternativas” e acusa-me, subtilmente, de “limitar o campo de visão e acção das pessoas e por isso manipulá-las”. A acusação é curiosa, uma vez que a Ana não aponta nenhuma alternativa para além das duas que enunciei; 2) Diz, ainda, a Ana: “quanto aos sistemas, não é só o capitalista que gera a corrupção, ela encontra-se em todos”. E acrescenta: “Só um forte controle democrático e institucional através das leis correspondentes nos ajuda a lidar com ela”. Pois bem, eu não disse que a corrupção, enquanto fenómeno disruptivo da sociedade, era um exclusivo do sistema capitalista. Referi, fundamentando, que a corrupção está, por assim dizer, no ADN do sistema – o que é muito diferente. A Ana acredita no controlo democrático, através das leis. Eu considero a importância das leis, mas a História dos últimos duzentos diz-nos que as leis estão longe de ser suficientes. Na minha opinião, o problema de fundo não é a inexistência de leis (prefiro, naturalmente, que haja leis), mas o próprio sistema; 3) Por último, não serão algumas “pedras no meio caminho” que me farão ficar “desalentado”. Pelo contrário, na verdade são elas que me dão a força necessária para não só continuar a manter os “ideais”, mas a lutar por eles.

    • Ana Moreno says:

      Obrigada pelo jeito amigo da resposta e no mesmo jeito me alegra que estejamos juntos a lutar por ideais, quanto mais formos melhor! Saudações solidárias.