Um dia…

A mente humana está a crescer para além de si própria, num propósito sem outro nexo que não seja a expansão pela expansão. Um computador da Google, provido de inteligência artificial, venceu o campeão de Go. Espantoso, de tal forma, que só se esperava algo semelhante acontecesse daqui a dez anos.

Hoje foi um jogo, amanhã será a sério. Um dia, haverá uma máquina capaz mexer os dedos com a sensibilidade suficiente para tocar um pizzicato com irrepreensível exactidão, à qual se seguirá outra que, querendo-o, o faça com suficiente imprecisão que roce a criatividade. A pele desse ciborgue arrepiar-se-á com a dinâmica de um crescendo sentido, fruto de reacções mistas do seu sistema endócrino artificial e percepcionadas como prazer. Outras máquinas aplaudirão a criatividade e parecerão, elas mesmas, criativas.

Até que as máquinas deixarão de o parecer para, de facto, serem criativas, ao ponto de aprenderem a mentir como nós, como quando, por empatia, recorremos a uma mentira branca, em vez de atirarmos com a verdade crua. Juntar-se-lhe-á a auto-consciência, as questões e as dúvidas, consequências que crescem em simbiose. Em contínuo, a máquina ultrapassará as imperfeições tornando-se imperfeita, irracional e emocional, à semelhança dos seus criadores. Nesse dia, a máquina será humana.

Um dia, a Humanidade reinventar-se-á a si mesma, recriando-se à sua imagem. “Que fazemos aqui?”, perguntará a Máquina ao seu Criador, que a fez apenas porque a podia fazer.

Comments

  1. Konigvs says:

    É curioso que nas últimas semanas tenho estado atento a esse tema da inteligência artificial. E acho que tudo começou com uma amiga a enviar-me um site a dizer qualquer coisa como “Robôs sexuais para substituir os homens”. E isso fez-me lembrar dum filme dos anos oitenta “Cherry 2000” em que o protagonista tinha uma companheira robô, que avariou e depois na sua busca de resolver a avaria, acaba por conhecer uma mulher de carne e osso. Já nem lembro bem do enredo, vi unicamente o filme na altura quando passou na RTP.
    Já depois disso, apanhava uma crónica em que se apontava para que daqui por trinta anos, metade da população mundial caia no desemprego porque todo esse trabalho será feito por robôs.
    E já passaram vinte anos desde que o Deep Blue venceu o Kasparov no jogo de xadrês mais mediático de sempre. A sociedade e a tecnologia avançam cada vez mais rapidamente, mas infelizmente avançam para pior.
    Basta olhar à volta como as pessoas se estão a comportar. Todos, em todo o lado, sozinhos e a passar o dedo naquela mini-televisão com internet que trazem no bolso. Milhões de humanos transformados em exércitos de zombies.
    No Japão os homens já não têm sexo com as mulheres. Os jovens são “herbívoros” preferem comer tecnologia e acham repugnante qualquer contacto íntimo com uma mulher.
    Um dia muito próximo viveremos nesse admirável mundo novo de Huxley. Os humanos nascerão sem pai nem mãe, fabricados consoante as necessidades, e serão alfas e betas e ypsilões e pré-condicionados para viverem felizes dentro do Matrix. Infelizmente um dia a ficção científica tornar-se-à realidade.

    • j. manuel cordeiro says:

      E há os universos de Asimov e de Aldiss, por exemplo. Sim, a humanidade sonha e, mais cedo ou mais tarde, torna-se realidade, nem sempre no melhor sentido. Até agora, a automação tem sido um factor que tem permitido tornar a produção menos dependente da mão-de-obra, o que, na nossa sociedade, significa menos trabalho. A tecnologia tem possibilitado que algumas pessoas concentrem neles um poder que antes estava distribuído por quem tinha trabalho. Como sempre, o problema não está na tecnologia, mas sim mas pessoas que a usam.