O irrevogável e o esbofeteador


Retrato_oficial_João_SoaresAmeaçar críticos com umas bofetadas não fica bem a um ministro e não me escandaliza que seja causa para a sua demissão, porque, apesar de tudo, é bom distinguir uma conversa entre amigos de uma proclamação. Ora a promessa de umas estaladas no facebook não é uma conversa entre amigos, ao contrário do que se pensa, especialmente num mundo em que os jornais e as televisões escrutinam, ao milímetro, o que se escreve nas redes sociais.

Confesso que também não me escandalizaria que João Soares ficasse no governo, após um pedido de desculpas, mesmo que não fosse sincero, até porque isso da sinceridade, no fundo, só pode ser verdadeiramente medido por quem fala. Nas nossas relações sociais, passamos a vida a representar papéis, o que nos obriga, muitas vezes, ao exercício de uma saudável hipocrisia, patente em mentiras piedosas ou prudentes. Aproveito, a propósito, para recomendar o filme A Invenção da Mentira, passado num mundo em que todos diziam a verdade.200px-Retrato_oficial_Paulo_Portas

Mesmo sabendo que um erro de um lado não desculpa um erro do lado contrário, não consigo, contudo, deixar de pensar que a ameaça boçal de agredir dois críticos é muito menos grave do que a apresentação de uma demissão considerada “irrevogável” com efeitos directos sobre a estabilidade política e sobre a economia do país.

Alguns poderão dizer que não são situações comparáveis. Têm razão: Paulo Portas não teve sequer a dignidade de manter a sua decisão e colaborou, despudoradamente, no empobrecimento de milhares de portugueses; João Soares foi só pateta.

Comments

  1. Afonso Valverde says:

    É. Há sempre uma situação pior do que a outra. Sem ironia, compreende-se.
    Mas são diferentes as situações. O JS demitiu-se e bem.
    O outro da PaF não teve vergonha na cara. Deveria ter mesmo saído do Governo que implicaria a queda de todo o Governo.
    O Sr. P Portas é um sem vergonha.

  2. em Portugal só bofetadas na mulher e nos filhos é que não escandalizam ninguém.

    um par de estalos nas caras de dois bêbedos mundanos que destilam prosa a soldo à revelia da deontologia e do respeito pela honra de cada um, são manifestações de “violência”, “indigna dum ministro”.
    Porquê ? queriam que mandasse os lacaios como no tempo da Monarquia ?

    Por mim, se o João Soares quiser eu dou-lhe uma ajuda.
    se bem que eu seja mais adepto do pau de marmeleiro.

    • Então indigne-se com o Costa – que pediu desculpa.

    • Nascimento says:

      Nem diga isso homem!O Vasquinho está muito cotado na “praça”…um “intelectual” de primeira,segunda,terceira etc.Muita putefia no ramo adora a pitonisia.Ela também se adora .Estalos?Não se anuncia.Básico.

      • Martinhopm says:

        Nascimento, estalos não se anunciam, dão-se! Também tinha como opção, umas valentes bengaladas. Sempre faziam mais mossa. E como o Vasquinho anda a precisar.

  3. Soares, ministro, ameaçou dois articulistas da imprensa com a prática de uma crime de ofensas corporais.
    Deve ser difícil de encontrar num país europeu.
    Portas desdisse-se.
    Não há comparação possível.

    • Nascimento says:

      Nem mais.Um f. o país o outro quis f. as trombas a uns bêbados que o perseguem ha anos.Escolhes o que mais te interessa e embrulhas!Tá bem?

  4. Ana Moreno says:

    Que tristeza. Nem na mesa do café, nem em casa, nem em lado nenhum se promete pancada a NINGUÉM. E muito menos se dá. E muito menos gente que tem obrigação de ser exemplar. Felizmente, neste caso, as consequências mostram que isto foi levado à letra, haja esperança!

  5. Mais um excelente dia para a Democracia.
    E não, não estou a ser irónico.

    Um ministro demitiu-se por ter dito o indizível e um militar demitiu-se por deixar um seu subordinado dizer o que não pode.

    Gosto desta esquerda. Mesmo estando a “ocupar” os lugares antes ocupados pelos laranjinhas, e sim eu sei que no centrão governativo as diferenças não são de classe, também já vi que não, não são todos iguais.

    Assim se vê a enorme diferença entre uma direita que manteve o cadáver de um Dias Loureiro no conselho de estado até a coisa cheirar a podre por todos os lados ou um (de facto!) falso licenciado no governo até lhe caírem as últimas pingas de tinta do diploma e que agora quer manter na direcção do maior partido da oposição uma (ainda?) deputada-recém-ex-ministra das finanças empregada numa financeira.

    Desta vez não vou versar as diferenças entre o pafismo que me roubou uma data de salário e os xuxialistas que me devolveram uma pequena parte do que os pafistas me roubaram, desta vez vou relembrar alguns factos que fazem uma democracia:

    1. Pela 1ª vez desde que me lembro de haver eleições em Portugal o Orçamento de Estado foi negociado NO Parlamento, discutido NO Parlamento e aprovado NO Parlamento. À vista de toda a gente em vez de ser “trabalhado” numas caves esconsas e apresentado aos deputados para ser aprovado pela maioria que tinha “martelado” as contas na cave esconsa.
    Esquerda 1 Centrão 0.

    2. Um “m”inistro tece, à mesa do café da nossa globalidade, uns comentários vergonhosos que envolvem aspectos físicos de um comentador e o Primeiro Ministro desautoriza completamente o “m”inistro que, ao contrário do que os último quatro anos nos habituaram … se demite. Será que já descemos tanto que tenho de bater palmas a quem se limita a fazer o que tinha de fazer … não. Mas por comparação a Esquerda marca outro e faz o Dois Zero.

    3. Um militar que manda numa escola(*) e nunca leu a Constituição do País que lhe paga o ordenado(**) diz que não quer ali homossexuais. O Ministro da tutela chama a atenção ao chefe do militar que manda na escola e o chefe demite-se. Tout court.
    Esquerda 3 Centrão 0.
    Fico por aqui porque me recuso a bater em velhinhos

    (*) Eu sei que é um contra senso, eu sei, mas a democracia tem destas coisas e pelos vistos até podem aparecer militares a mandar em escolas.
    (**) Ignoro se o militar é analfabeto, não quis ler o livro, ignora que quando jura bandeira ou lá que é, está a jurar defender o País cuja lei fundamental ele passa a ter de defender ou se aquelas coisa deles das honras e juramentos e braços no ar e não sei o quê são só da boca PAFora em noites de bebedeira.

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