Manifestação pela escola pública: a estranha cobertura do Público


O Público, numa reportagem de Clara Viana, anunciou que a manifestação a favor da escola pública começou com duas mil pessoas. Nada mau, se tivermos em conta que uma manifestação pode começar com uma pessoa. No entanto, espera-se que a reportagem seja objectiva, pelo que o artigo é algo estranho, como se pode constatar, por exemplo, pela necessidade de corrigir o título da notícia. Com efeito, o título inicial “Manifestação pela escola pública começa em Lisboa com cerca de duas mil pessoas” foi entretanto mudado para “Manifestação pela escola pública junta alguns milhares de pessoas em Lisboa”.

O título inicial da notícia pode ser encontrado no Twitter e no Facebook, já que estas redes não actualizam as suas publicações quando a origem muda.


Clara Viana optou por incluir no artigo o número de participantes avançado pela FENPROF (80 mil) ao lado do número apresentado por um polícia (15 mil), o qual, pela pena da autora, passou a ser atribuído à PSP.

O secretário-geral da Federação Nacional de Professores, Mário Nogueira, é um dos oradores. Dirá mais tarde que participaram mais de 80 mil pessoas. “Esta foi a maior manifestação de sempre em defesa da escola pública”, declarou. Já a PSP aponta para cerca de 15 mil, segundo indicou ao PÚBLICO um responsável da polícia.

Estes escrúpulos em usar os números da organização não a impediram, no entanto, de usar a contagem avançada pela organização da anterior manifestação a favor dos colégios privados, mesmo quando se demonstrou que o número era fictício (terão sido uns 12 mil a 16 mil).

O desfile [de hoje] foi convocado no mesmo dia, 29 de Maio, em que os colégios privados conseguiram reunir cerca de 40 mil pessoas em Lisboa, em protesto contra a decisão do ME, que foi agora concretizada por via de um novo concurso público.

O próprio destaque do artigo desvaloriza os números da organização e tomam a declaração de um polícia não identificado como sendo a PSP.

Secretário-geral da Fenprof diz que estiveram mais de 80 mil na rua, mas segundo a PSP participaram na manifestação cerca de 15 mil pessoas.

Outras passagens reforçam a ideia de o artigo ser menos reportagem, tal como classificado pelo jornal, aproximando-se mais de uma crónica de opinião. Por exemplo, a passagem seguinte é factual ou é uma suposição da jornalista?

O recado é dirigido aos que, no palco, montado por detrás da estátua do Marquês, se vão sucedendo em discursos em defesa da escola pública. Esta é também a razão pela qual aquele grupo de estudantes também marcou presença no centro de Lisboa, mas com os discursos a alongarem-se já por mais de uma hora, começa a ser difícil continuarem ali parados a ouvir.

Ou ainda, referir que é uma manifestação a favor do Governo, quando os organizadores (FENPROF) a anunciaram como de defesa da escola pública. Nesta linha de ideias, seria correcto adjectivar a manifestação dos amarelos como de apoio à oposição?

Ao contrário do habitual, esta é uma manifestação a favor do Governo, mais concretamente da decisão do Ministério da Educação em reduzir o financiamento do Estado aos colégios com contrato de associação.

Clara Viana é a mesma jornalista que escreveu o artigo “Tribunal de Contas dá razão aos colégios na guerra contra o ministério“, o qual foi publicado online em 27/05/2016, às 20:45 e acabou até por ser capa do Público no dia seguinte, 28 de Maio. Na tarde do dia 28, pelas 17:00 horas, o TdC desmentiu a notícia, mas foi preciso esperar até ao fim do dia para, às 23:55, o Público finalmente corrigir a notícia, tal como referido no próprio jornal: “Notícia corrigida às 23h55 de sábado: inclusão no título das palavras “Relatório técnico” e da reacção do TdC à divulgação do próprio relatório.”

Sendo uma autora de muitos artigos sobre educação num jornal de referência e atendendo ao extenso currículo, esperava-se mais atenção a estes detalhes.

2016-06-18 publico manif escola todas as cores - twitter

Imagem do tweet acima referido

Comments

  1. MJoão says:

    O Público, infelizmente, FOI um jornal e referência, hoje está mais próximo de um pasquim. Tenho imensa pena, foi o “meu” jornal desde a primeira edição, mas há bastante tempo que não o reconheço.

  2. Ricardo Almeida says:

    Nem que fossem 13 pessoas a comer sandes de rissol na sombra da estátua da rotunda. Basta ver uma foto da pseudo manifestação dos amarelinhos com esta ao lado para ver para que lado o povo português pende. Meia dúzia de tias de Sintra chateadas porque os catraios ficaram sem aulas de equitação ao lado de centenas de alunos e ex alunos de secundário preocupados com o que se passa nas escolas? Mas andamos a brincar ao Estado Novo ou quê? Está na altura de Público decidir se quer ser mais um pasquim do “saudoso” regime ou um jornal a sério, como poucos infelizmente. Fica a direita assim tão aziada porque os portugueses estão fartos de contribuir para os lanches de caviar? Porque, apesar de toda a demagogia barata, parece que os privados afinal são bem piores que o público? Só lhes faz bem um boa bofetada de objectividade nas trombas. Algo me diz que a madame Cristas, apesar de toda a manipulação (ou omissão) mediática não vai ter um boa noite de sono hoje… Temos muita pena..

    • Nuno Lopes says:

      Isso. Os jornais devem procurar informação acerca de manifestações junto dos organizadores, não junto da PSP. Essa agora. E se a informação vier da Fenprof, ou de qualquer zona da esquerda temos a garantia de verdade.

  3. Vítor Dias em otempodascerejas2.blogspot.pt mostra as primeiras páginas do Público, mas pior ainda a do Diário de Notícias – sem qualquer referência à coisa.

  4. Thief says:

    Será que estes jornaleiros acreditam mesmo que a estratégia de manipulação vai resultar? As pessoas não são assim tão burras.

  5. Essa é a versão editada e que o publico não faz referencia a isso a primeira versão dizia que a manifestação pela escola publica junta alguns milhares de pessoas em Lisboa.

  6. José calçada says:

    Jornal de merda, com jornalista de merda que nem informar sabem. Já nem para limpar o cu serve

  7. Helena Gonçalves says:

    Esperava-se, essencialmente, a imparcialidade necessária ao bom jornalismo. Isto é mau jornalismo e desinformação. Não é por acaso que têm sido tantas as críticas negativas em relação a este jornal….

  8. azurara says:

    A polícia estimou em 15 mil. Muito longe da enormidade do Nogueira.

    • j. manuel cordeiro says:

      A polícia ou um polícia?

      • Nuno Lopes says:

        Pois, de facto não é a mesma coisa. Falaram com a entidade abstrata policia, ou falaram com um policia concreto?

        • Nuno Lopes says:

          É que se tiver sido um policia em concreto não tem grande credibilidade. Melhor falar com o Sr. Nogueira.

          • Nascimento says:

            Conheces a Av da Liberdade? Estives-te lá? Não? Atão vai l ,ler a Helena ou o J.M.Fernandes ou o teu primo Camelo L., ou o raio que te parta e aproveita leva o jornal Publico! pode-te dar uma caganeira e aposto que te dá um jeitão…

          • Nuno Lopes says:

            Hoje foi a primeira vez que aqui vim. Fiz comentários e já tive respostas. Espero que esta resposta do Srº Nascimento não seja representativa do nível dos comentários por aqui, ou é?

          • Nascimento says:

            É a primeira vez? Virgem? A sério? Ui, tão bom…olha ,habitua-te ! Pergunta ao Ruizinho dos bolinhos que ele explica-te. Tá bem ? Pois…

    • Falso. A Polícia não fez nenhuma estimativa — nem agora nem aquando da enormidade dos 40 mil “minions” naquele larguinho em frente à Assembleia da República

      O “diz que disse” como técnica de apuramento de factos diz muito da credibilidade jornalística dos autores (ou da autora) da notícia.

  9. Merece credibilidade? É piada?

  10. Paulo says:

    O Aventar está de parabéns já tem o seu José DOs “Ladroões ” a Cãosoar Bravo!!! isto só quer dizer que subiram de divisão

  11. E o Público é, segundo a nossa direita, o grande jornal de referência da esquerda. Imagina se fosse da direita…

  12. O Público é um orgão de informação (?) que só diz o que agrada ao patrão Belmiro de Azevedo. É assim a Democracia.

  13. Martinhopm says:

    O que é que interessa, o que contribui para a nossa felicidade, esta guerra de números? Para mim, o assunto está mais do que encerrado, ponto. Turmas em início de ciclo em colégios de meninos bem, desde que haja oferta pública, foi chão que já deu uvas, ponto. Tudo o resto não passa de larachas. Acabou-se a mama para estes, poderei dizer’, mercenários? Gente ilustre do chamado ‘arco da governação’ + Igreja, pois claro. Se quiserem saber nomes dos ‘ilustres’ é favor ver as reportagens que a Ana Leal fez para a TVI. Esta história a mim já me vai cheirando mal. Coloquemos uma lousa sobre a mesma. RIP! Agora é haver coragem, ia a dizer tomates, para atacar esquema idêntico que se verifica no SNS!

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  1. […] jornal cita o Aventar a propósito de um tweet da deputada Canavilhas, inspirado, porventura, no artigo do autor. O contrário, como  referido no artigo do jornal, é que seria impossível, atendendo às datas […]

  2. […] de apoio à escola pública é um exemplo de jornalismo errado por vários motivos. Alguns já foram apontados aqui no Aventar. Um outro, o facto de os líderes do BE e do PCP não terem estado em palco a discursar, conforme […]

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