Os invejosos e a ambição nacional

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Em artigo indignado, publicado no Correio da Manhã, o director da revista Sábado, Rui Hortelão, presenteou-nos com um daqueles clichés que não raras vezes é usado na defesa dos privilégios das nossas santas e imaculadas elites. Não há volta a dar: quem critica obscenidades salariais fá-lo por inveja, por hipocrisia e por falta de ambição nacional. Cambada de bandalhos.

A indignação de Hortelão surge na sequência de uma entrevista dada por António Mexia à Sábado, na qual o entrevistado falou sobre o seu salário de 6800€/dia. E, claro, num país à rasca, vários foram os que se indignaram com os valores, e isso aborreceu o director da Sábado, que fez questão de recordar a plebe que o senhor Mexia está à frente do maior pagador de impostos em Portugal. Porque, como todos sabemos, se uma empresa paga muitos impostos, os seus gestores devem ter um salário estratosférico a condizer. Não concordar com isto é ser invejoso, hipócrita e pouco ambicioso quanto à grandeza de um país que, obviamente, se mede também pelos salários dos gestores das suas maiores empresas.

É então que surge a grande comparação: a malta não se indigna com os salários do Cristiano Ronaldo ou do Mourinho. Só palmas. Excelente comparação. É claro que a malta não se indigna com os salários do futebol. E isso acontece porque neste país o futebol é sagrado mas, convém frisá-lo, não há registo de um jogador ou treinador que atinga o topo da carreira pela via do compadrio. Se chegam lá é porque são mesmo bons. Se os salários praticados no sector são obscenos, e eu até entendo que são, é outra história. Mas importa salientar que não são os nossos impostos que pagam os salários auferidos por Ronaldo ou Mourinho. Já no caso de Mexia foram-no pelo menos até à privatização levada a cabo pelo anterior governo.

O problema não é ser-se português ou viver do futebol caro Rui Hortelão. O problema não é sequer inveja, hipocrisia ou falta de ambição nacional. O problema é mesmo o jogo de cadeiras que se pratica neste país, com transferências milionárias e por regra pouco transparentes de ex-governantes para as maiores empresas nacionais. E a EDP tem um longo historial de generosidade com as mais variadas figuras do bloco central. Se algum deles governasse ou gerisse tão bem quanto o Ronaldo joga ou o Mourinho treina, estou certo que as reacções seriam um pouco diferentes. Porque António Mexia e Horta-Osório até podem ser muito bons naquilo que fazem e merecedores de um ordenado chorudo, mas aqueles que acusa de “demagógicos do costume” são uma parte muito significativa da população portuguesa cujo pecado é estar farta dos privilégios da boylândia. E não é inveja nem hipocrisia quando alguém lá chega por ser amigo de A, do partido B ou da maçonaria C. É revolta e é legítima. Quanto à ambição nacional, ignorante que sou, desconhecia que a mesma se medisse através dos salários de topo das grandes empresas. Fosse ela medida pelo nível salarial dos comuns mortais e estaria pelas ruas da amargura. Mas isso não dá matéria para bons artigos de opinião no Correio da Manhã, pois não? Isso é conversa de malta que vive ou quer viver acima das suas possibilidades. Invejosos.

Comments

  1. adeus passos says:

    ah, a sábado, poiso desse e de outros como o skinhead liberal. do grupo cofina, nao é? pois… esta semana tem sido uma alegria no ataque à CGD.


  2. “não há registo de um jogador ou treinador que atinga o topo da carreira”.
    Tens a certeza? Absoluta?
    Queres exemplos?

    • Vítor Cruz says:

      Através do compadrio, das influências partidárias ou da maçonaria, não, não se conhece nenhum jogador ou treinador que tenha chegado ao topo por essa via, e o caso de Renato Sanches (por força dos media) não pode ser evocado porque ainda não chegou ao topo…

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