Descongelamentos, aumentos, feira de Beja, olho do cu

No Público de hoje, está esta nota, que faz parte da rubrica “Orçamento de 2018 explicado em dois minutos”.

Vejamos: primeiro, o Público diz-nos que os funcionários públicos “terão direito a ser colocados no correspondente patamar remuneratório”. Convém lembrar que os funcionários públicos, há vários anos, tiveram direito a congelamentos de carreiras e a cortes salariais. Na realidade, graças a engenharias várias, foi possível fazer com que os mesmos funcionários públicos ficassem mais longe do topo da carreira e passassem a ganhar menos.

Vamos lá a uma parábola: o menino Joãozinho comia, todos os dias, quatro batatas. Um dia, os pais passaram dar-lhe só duas batatas. Passados dez anos, os pais anunciaram ao menino que iria ser aumentado, porque passaria a comer três batatas por dia. Estranhamente, o senhor João (Senhor João? Pois, passaram dez anos!), protestou:

– Chamam aumento a uma reposição? E as batatas todas que eu não comi durante estes dez anos e que vocês andaram a meter ao bolso, que aquilo está cheio de moscas? Nem sequer voltei às quatro batatas… Aumento?! Vocês andam mas é a confundir a feira de Beja com o olho do cu, pá!

Os pais, ofendidos com a linguagem, embatucaram. Realmente, o senhor João deveria ter muito mais cuidado com a linguagem: é que passar a ganhar mais do que se ganhava é, evidentemente, um aumento. Até os jornais de referência, como o Público, dizem que sim.

 

Saiba quanto ganha o seu presidente de câmara

seguindo este link. Luvas, “presentes” e sacos azuis não incluídos.

É por isso que gosto de futebol

O único sector em que os operários ganham mais do que os administradores

O fosso salarial

fosso

Segundo dados revelados ontem pelo Eurostat, referentes a 2014, Portugal é o país da União Europeia onde o fosso entre os salários mais altos e a média é maior. Em sentido inverso, ocupamos o topo da lista no que diz respeito à diferença entre a média e os salários mais baixos, a par dos países escandinavos e de potencias como Itália e França. [Read more…]

Políticas de esquerda, salários de direita

meme

Se o critério que norteia o enquadramento dos salários dos gestores da CGD não permite reduzir a factura – ou pelo menos não a aumentar – do custo que o seu conselho de administração tem para o erário público, existe, a meu ver, uma solução: alterar o critério. Existem, inclusive, propostas do PCP e do BE para limitar os salários dos gestores públicos ao salário do primeiro-ministro ou do presidente da República. Se existem, aqui vai uma lapalissada: é porque pode ser mudado. [Read more…]

Festival Eurovisão da Sanção

100589474-Jeroen-Dijsselbloem-dumbfounded-gettyp.1910x1000Não faltará quem diga que o título é um trocadilho engraçadinho e que o autor tem a mania que tem piada. É tudo verdade e outras coisas piores que queiram pensar.

Contudo, a realidade também tem alguma culpa nesta facilidade em descobrir frases que parecem apenas louras burras, mas que, no fundo, são relativamente inteligentes e algumas nem sequer são louras, como se sabe.

Na distante Bruxelas, capital de um Árctico sentimental, há um coro que canta “sanções” e, pelo mundo fora, outros existem que vão na cantiga. Passos Coelho é, além de barítono de créditos firmados, autor (in)voluntário de sanções que ficam no ouvido dos mais distraídos. Curiosamente, ao contrário de outros compositores, Passos Coelho recusa a autoria, mesmo quando se sabe que foi ele que esteve sentado quatro anos a compor, ao lado de Maria Luís, grande artista do pimba financeiro (Maria Luís tem, aliás, uma versão do sucesso de Emanuel, em que o refrão é “E se eles querem um salário ou um direito, nós pimba, nós pimba!”). [Read more…]

Os invejosos e a ambição nacional

D

Em artigo indignado, publicado no Correio da Manhã, o director da revista Sábado, Rui Hortelão, presenteou-nos com um daqueles clichés que não raras vezes é usado na defesa dos privilégios das nossas santas e imaculadas elites. Não há volta a dar: quem critica obscenidades salariais fá-lo por inveja, por hipocrisia e por falta de ambição nacional. Cambada de bandalhos.

A indignação de Hortelão surge na sequência de uma entrevista dada por António Mexia à Sábado, na qual o entrevistado falou sobre o seu salário de 6800€/dia. E, claro, num país à rasca, vários foram os que se indignaram com os valores, e isso aborreceu o director da Sábado, que fez questão de recordar a plebe que o senhor Mexia está à frente do maior pagador de impostos em Portugal. Porque, como todos sabemos, se uma empresa paga muitos impostos, os seus gestores devem ter um salário estratosférico a condizer. Não concordar com isto é ser invejoso, hipócrita e pouco ambicioso quanto à grandeza de um país que, obviamente, se mede também pelos salários dos gestores das suas maiores empresas. [Read more…]