O estranho caso do ambientador


Conta-me o A. que leva dias convencido de que foi ele a estragar a sonda Schiaparelli. É preciso que vos diga que o meu amigo A. é um neurótico que cede com frequência à paranóia, mas a quem efectivamente acontecem coisas invulgares.

Levava dias enfiado em casa a experimentar um brinquedo novo, uma coluna de som pequenina e discreta, com aspecto de perfume ambientador, à qual ele ditava ordens e que respondia apagando as luzes do corredor ou ligando a máquina de lavar roupa, conforme o que ele mandasse. A coluna, explicou-me ele, precisa de ser calibrada, coisa que só acontece falando muito com ela e deixando que ela se vá enganando, ligando agora a máquina do café em vez da secadora, fazendo tocar o alarme de casa em vez de ligar o rádio. Explicou-me tudo com paciência, como se também eu precisasse desse tempo para calibrar-me e ser capaz de perceber o que aí vinha. Perguntei-lhe se a coluna estava ligada. Estava. Tinha de estar. Quanto mais nos ouvisse melhor seria capaz de perceber as distintas modulações da voz humana.

A ideia gelou-me. Enquanto falávamos, o ambientador registava tudo o que dizíamos à espera de reconhecer uma ordem. Talvez tudo ficasse armazenado em supercomputadores de memória zilionesca, em corredores mantidos à luz e temperatura ideais, à espera do momento em que uma polícia do futuro nos confrontaria com todas as declarações passadas e tudo soasse, décadas depois e descontextualizado, perigosamente conspirador. Aquela conversa que fora inócua sobre a multiplicação de hamburguerias, os disparates acerca do cavaleiro sem braços nem pernas dos Monty Python, as teorias sobre os anti-inflamatórios e a indústria farmacêutica? Tudo contribuiria para a nossa condenação.

– Não sejas paranóica – cortou-me o A.

– Então e a Schiaparelli? – atirei, só para mudar de conversa e tranquilizar-me.

Então o A. respirou fundo e começou a contar-me que em pouco tempo se aborrecera de estar sempre a dizer à coluna para acender e apagar as luzes e que resolveu experimentar outras coisas.

– Acende as luzes do farol de Leça. Pára o teleférico de Gaia. Liga a sirena dos bombeiros da Constituição.

Claro que ele não acreditava que nada daquilo pudesse estar a acontecer, mas achava graça a imaginá-lo e pronto. E animou-se.

– Apaga as luzes da torre Eiffel. Explode os leds da Estátua da Liberdade. Espatifa a Schiaparelli no chão.

E por aí fora.

Mais tarde, e para seu horror, leu no jornal que a Agência Espacial Europeia tinha perdido contacto com a sonda e temia que esta se tivesse despenhado no solo marciano. Pouco depois, a suspeita veio a confirmar-se e o meu amigo sentia-se muito culpado.

– Oh, pá, é muita coincidência. Eu digo aquilo e a sonda, pumba. Fui eu, fui eu!

O caso não era para rir. Peguei no copo que ele me tinha servido e recostei-me no sofá.

– Sabes, o pior disto tudo nem é a sonda ter-se espatifado…

– Não é? – perguntou ele, com genuína surpresa.

– Não. O pior é saber quem te ouviu – e aproximei-me para que ele pudesse escutar o meu sussurro – Foi o ambientador… ou foram os marcianos?

Desde então, o pobre A. já não dorme.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / aportaestreita.com

Comments

  1. Emílio Ferreiro says:

    Muito bom, Cláudia. Um bom supositório de malagueta para estimular o Sr. Smith.

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