Nobel da Literatura não atende o telefone

Endossou a Letra a Pedro Homem de Mello.

CETA: Ponto da situação

Primeiro, os tops da UE anunciaram que os governos europeus se tinham MESMO que pôr de acordo sobre a assinatura do CETA durante a cimeira da UE na sexta-feira passada; como a pressão não funcionou, Chrystia Freeland declarou o abandono das conversações pelo Canadá; como mais uma vez não funcionou, atiraram com um ultimíssimo ultimato dirigido a Magnette, que terminaria hoje à noite. Acontece que Magnette não se deixa nem intimidar (as interpretações acusatórias sobre os seus motivos raiam o foro psicanalítico) nem comprar (já lhe ofereceram muitos bombons para a sua região assolada pelo desemprego e cujos habitantes sabem muito bem que terim a perder com o CETA), mas hoje à noite Donald Tusk, presidente do concelho europeu, anuncia via Twitter:

tuskO suspence continua.

Casa do Rei

© Bruno Santos
© Bruno Santos

A minha última viagem ao Trindade

Fui ver a Última viagem de Lenine ao teatro Trindade, posta em cena pelo grupo, Não Matem o Mensageiro. No fim, na sessão de perguntas e respostas com o escritor da peça, o actor único (um brilhante André Levy) e membros da companhia acima referida, foi dito que todo o teatro é político mas esta companhia, ao menos, assume-se. Gostei desta abordagem precisamente pela honestidade. O debate do que pode ou não ser político, quais as formas de arte mais ou menos politizadas, qual a definição de política em si, é extenso e não muito importante para este texto em particular.

O teatro, contudo, é sem dúvida uma das formas de arte mais verdadeiramente políticas que existem. Pela própria ideia de representação e do que ela implica, pelo elo que se cria entre o público e os actores, pelos artifícios literários e gestuais usados.

Estamos em 2016, a precisamente um ano de uma daquelas grandes efemérides da História, a Revolução de Outubro. Seria importante e saudável que houvesse um debate adulto e responsável sobre os acontecimentos revolucionários, sobre o que significou a revolução de Outubro, sobre Lenine e as restantes personagens históricas que o rodeavam. Em qualquer debate deve-se ouvir os vários pontos de vista. Esta peça apresenta um ponto de vista, uma interpretação de Lenine, baseada numa minuciosa pesquisa de factos, com cartas citadas literalmente, com episódios reais a serem mencionados ou retratados. É evidente que há uma grande margem para discordar do ponto de vista e da interpretação, tal como a pessoa lê Gramsci ou Jorge Luís Borges e não tem de acreditar ou apoiar tudo o que lê. Mas não é por isso que não se deve ver ou alimentar este tipo de peças, que se assumem engagés,  em defesa de uma posição.  É ridículo que tenhamos chegado a um tal ponto de absolutismo sectário misturado com alguma indiferença que não consigamos apreciar as complexidades da História, o que ela tem para nos oferecer e que se continue a perder as oportunidades para pensar, pensar a sério, sem falácias e generalizações.

A peça é assumidamente brilhante. André Levy é extraordinário num registo dificílimo, o do monólogo. O texto está muito bom. A quarta parede é ignorada com um recurso apropriado ao humor. Do ponto de vista artístico, está praticamente perfeita. Do ponto de vista político, meus amigos, não dá para fazer spoiler. É ir ver.

A hora da verdade para o CETA

valonie

Na sequência da recusa de assinatura do CETA pela Valónia, Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu, fez um ultimato à Bélgica para tomar uma decisão a esse respeito até hoje à noite (segunda-feira). Magnette já respondeu, através do seu porta-voz, que a imposição de tal prazo é “incompatível com o processo democrático” e que não se sujeitará a ele.

Referindo-se à pressão de que tem estado a ser alvo por parte da UE desde que Chrystia Freeland, ministra do comércio canadense, abandonou as conversações na sexta-feira passada, Magnette comentou ontem (domingo) no Twitter: “É pena que a UE não exerça uma pressão igualmente intensa sobre aqueles que bloqueiam a luta contra a fraude fiscal”. [Read more…]

Redes tentaculares na blogosfera

ppcjs

O semanário SOL, esse baluarte do jornalismo imparcial, fez manchete com uma história que, nesta casa, já em 2010 tinha sido devidamente esmiuçada pelo Ricardo Ferreira Pinto. Seis anos depois, o jornal do arquitecto que gosta de devassar a vida privada dos políticos com quem priva, descobriu que o governo Sócrates tinha uma rede de propaganda na blogosfera. Um aplauso para o SOL. [Read more…]

Refém de Assunção Cristas?

ppcac

Ainda falta um ano para as eleições nos 308 municípios portugueses, mas a contagem de espingardas já começou. Por muito que os líderes partidários teimem em afirmar que não fazem leituras nacionais dos resultados das eleições Autárquicas, a verdade é que essa leitura é feita e não raras são as vezes em que os resultados têm reflexo directo nas lideranças dos dois maiores partidos.

Em 2001, o PSD esmagou o PS nas urnas, levando António Guterres a demitir-se do cargo de primeiro-ministro e a abandonar a liderança do PS, e Durão Barroso ganhou as Legislativas do ano seguinte. Em 2013, poucos meses após a irrevogável crise governamental causada por Paulo Portas, e com os níveis de popularidade da coligação em queda livre, o PS passava a controlar praticamente metade do mapa autárquico, incluindo três dos quatro maiores municípios portugueses, com António Costa a assegurar maioria absoluta em Lisboa – tornando-se líder do partido um ano depois – enquanto Basílio Horta e Eduardo Vítor Rodrigues afastavam o PSD da governação de Sintra e Gaia. Em 2017, diga o que disser Pedro Passos Coelho, uma derrota autárquica será o fim da linha para o líder do PSD. [Read more…]

O sr. Feliz e o sr. (des)Contente

Rui Naldinho

No Outono de 2013 li um texto de Henrique Monteiro no Expresso, com o título: “O irrevogável populismo de Paulo Portas

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Concordo que Paulo Portas usa e abusa do populismo, com um discurso demagógico que por vezes até se torna patético. Dos feirantes aos contribuintes, passando pelas famílias numerosas, o Paulinho não se deixa de vender promessas vãs a quem se cruze com ele. A irrevogabilidade da sua demissão em 2013 não foge à regra.

Há no entanto um pormenor a salientar no percurso político e no comportamento de Paulo Portas. Talvez por ser líder de um partido político que estará sempre num segundo plano de qualquer governo onde entre, ele tem demonstrado um certo desapego ao Poder, o que mostra maturidade. Sabe ler os acontecimentos com alguma clareza de raciocínio. Vendo bem, isso é uma vantagem para ele. Assim, não sofre tanto, pois uma derrota deixa sempre sequelas. Não amua, passando a vida a lamentar-se, e acima de tudo evita o revanchismo para com os adversários.

Poucas horas depois do desfecho eleitoral de Outubro de 2015, sabendo que a maioria absoluta escapava à PAF, se é que ela alguma vez esteve em cima da mesa, Paulo Portas demitiu-se da liderança do partido sugerindo um novo rosto para presidir aos destinos do CDS. Semanas depois, perante a evidência de uma maioria de esquerda sustentar um governo minoritário do PS afirmou sem quaisquer pruridos: “O centro direita em Portugal só voltará a ser governo com uma maioria absoluta”.  [Read more…]

Postcards from Wageningen #3 (2016)

Just another ordinary day at the ‘office’

2016-10-20-14-08-09
Já ontem disse que os holandeses são um povo organizado. Contam o tempo das intervenções e das reuniões ao minuto e andamos todos num virote o dia inteiro. Foi mais um dia em que me levantei extraordinariamente cedo. Às sete da manhã mais concretamente. É uma violência para uma noctívaga como eu, convenhamos.
 
O dia de trabalho – embora andemos num virote – corre bem. As apresentações dos investigadores são geralmente boas e estão já bem encaminhadas. As reuniões são rápidas e sucedem-se (um virote, pois, já disse). As sessões e reuniões de hoje são no campus da WUR – Wageningen University and Research. O campus é muito bonito. Menos que o da Universidade de Aveiro (mas eu sou suspeita, obviamente) mas ainda assim bonito. Muito verde, salpicado de vermelho e de castanho aqui e ali. É outono. Absolutamente outono em Wageningen. Um outono que equivale a um inverno em Portugal. Está frio e chove de vez em quando. O costume, portanto.

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