Lettres de Paris #52 a #57


‘Vas où tu veux, meurs où tu  dois’

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Não escrevo cartas desde antes do Natal. Foi uma relativamente longa ausência. Porque precisava de um intervalo, primeiro e porque não me apeteceu escrever muito, depois. Pelo meio também fiquei temporariamente sem computador. Poderia ter escrito cartas a partir do telemóvel, é um facto, mas aquilo é muito pequeno e eu tenho quase 50 anos e já vejo mal ao perto, é o que é.
Faço 50 anos daqui a dias. 18258 dias, diz-me uma calculadora de tempo de vida qualquer que encontrei no google. 18258 dias é muito tempo, ou pouco, conforme nos sintamos. Eu tenho dias que me sinto com poucos anos e dias e outros em que sinto o peso destes milhares de dias e milhões e milhões de segundos. Depende. De qualquer maneira tenho consciência de que já vivi mais dias do que aqueles que poderei esperar viver daqui em diante. Isso é um bocadinho assustador, devo confessar. Isso e o provavelmente vir a precisar das chamadas ‘lentes progressivas’. Pode haver coisa mais de terceira idade que isso? Pode, claro. As dores nos ossos e nos músculos e, sobretudo, a falta de paciência para imensas coisas que, a bem dizer, nunca tive, mas que tenho cada vez menos.
Tem estado muito frio em Paris, temperaturas negativas muitas vezes. Não tenho paciência também para este frio. O resultado foi que me constipei muito antes do intervalo e esta foi igualmente uma razão para não escrever. No último dia do ano, fazia eu 18251 dias de vida, estava tanto frio que acho que congelei. Pela primeira vez usei luvas, coisa que detesto. É curioso congelar e depois, quando se entra em algum lugar aquecido, sentirmos as mãos e a cara progressivamente a descongelar. Quase um formigueiro, à medida que a nossa pele e os nossos músculos e os nossos ossos nos são devolvidos. Nestes dias comi muito também e andei pouco. Por exemplo, no fim de semana passado andei mais de autocarro do que nos últimos dois meses. Por causa do frio, bem entendido. Alguém me disse que o autocarro em Paris é melhor que o metro e, depois desta experiência, devo concordar. De facto, assim é e eu acho que vou por o metro de parte, a menos que seja uma linha direta. Já vos contei que as estações de metro em Paris estão cheias de correntes de ar. E mau cheiro. E que é geralmente preciso andar horrores para se mudar de linha. Nestes dias fui a alguns sítios onde ainda não tinha ido, revisitei outros. Trabalhei pouco. Tenho de recuperar esse tempo, rapidamente.
De maneira que, apesar dos precalços, a vida tem seguido menos mal, em Paris. O ano passou, como em qualquer outra parte, embora com algum aparato policial. Entre a Place de la Concorde e os Champs Elysées estariam às zero horas de dia 1 de janeiro, mais de 500 mil pessoas e para aí uns 50 mil polícias. Não vi grande coisa do espectáculo de luz na fachada do Arco do Triunfo, mas consolei-me um bocadinho com o fogo de artíficio, curtinho, mas bonito. De resto, garrafas vazias em toda a parte, montes de lixo em toda a parte, pessoas bêbedas em toda a parte. Comi 12 passas, uma para cada desejo que provavelmente não se irá cumprir, como de costume. Tenho dificuldade em encontrar 12 desejos para formular enquanto como as 12 passas, uma a uma. Repito alguns, confesso. Já vos disse que sou pessoa de poucos desejos, além de estar viva e com saúde, assim como os meus. De resto, tenho tudo, acho eu.
A minha irmã costuma perguntar-me o que quero para o natal. Costumo responder-lhe que não preciso de nada, que tenho tudo. É verdade. Tenho mesmo tudo o que preciso e tudo o que posso querer, além do que preciso, de vez em quando. Gostava, evidentemente de ter mais dinheiro para viajar mais, para viajar o que me apetecesse. Mas é verdade que também se pode viajar com pouco dinheiro, se for preciso. Tenho um trabalho que gosto. Tenho um tecto. Tenho roupa para vestir. Livros para ler. Comida para comer. Acho que não preciso de nada mais. Sobretudo se me comparar com as pessoas que vejo aqui nas ruas de Paris, a dormir enroladas em cartões e mantas ou, com sorte, em sacos cama, nas paragens de autocarro, nos vãos das escadas, nas estações de metro. Acho que não me posso queixar, que nunca me poderei queixar, de ter tido a vida que tive nestes 18254 dias ou nestes quarenta e nove anos e 361 dias. Talvez precise apenas de me lembrar mais disso. De me lembrar mais vezes disso.
No dia que começou o meu intervalo apanhei um táxi. O taxista era muito simpático, apesar de serem 6 horas da manhã. Foi um ou dois dias depois do atentado em Berlim. Ao passarmos pelos Champs Elysées, ao ver as barraquinhas, fechadas e com as iluminações apagadas, disse-me que nesse dia, à noite, iria encontrar-se ali com amigos. Mas que tinha medo. E disse: ‘agora temos sempre medo de fazer as coisas normais’. Disse-lhe que era verdade, que eu mesma ali havia estado dias antes e, ao ver as imagens de Berlim, tinha pensado exatamente a mesma coisa. Que poderia ter vindo um camião pela ‘mais bela avenida do mundo’, como gostam de lhe chamar os parisienses, abaixo, desenfreado e acabavam os meus dias logo ali, antes de completar os 18258. Acrescentei que não podíamos viver assim, no entanto. Com medo. Ele concordou e disse-me que a mãe lhe costumava dizer: ‘vas où tu veux, meurs où tu dois’. Gostei do conselho. É isso que espero para 2017 e para os milhares – desejo – de dias que ainda terei para viver. Ir onde quiser. Morrer onde tiver de ser.
(esta não é uma carta típica, bem sei. Amanhã mesmo retomarei as cartas mais habituais)

 

 

 

Comments

  1. Nascimento says:

    Bom ano. E já agora precisa sim senhor: Maison Euro. de la Photo e tão pertinho Place des Vosges maison Victor Hugo ai, ai, ai,…é só atravessar a rua….
    aí tão perto e deixa perder Harry Callahan???.eheheheh…tá a vêr que eu não esqueço!!!

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