Lettres de Paris #67


Moi, la gourmande…

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que é como quem diz, eu a comilona, eu a gulosa ou ainda eu a que gosta de comer bem. Não tiro geralmente fotografias a comida e, mesmo que tire eventualmente, não tenho por hábito publicá-las. As razões são várias, mas digamos que tenho um certo pudor em publicar o que como. Não que coma demais habitualmente mas… adiante que não é disso que se trata. Abro hoje uma exceção e publico uma fotografia de comida. Uma fotografia da minha sobremesa de hoje, um café gourmand, que é como quem diz, então, guloso ou destinado aos gulosos e àqueles que gostam de comer.
É quase uma instituição o café gourmand em Paris. Ainda outro dia bebi um extraordinário, ainda que menos abundante que este (e bastante mais caro, diga-se) no Café de la Paix, um dos cafés – acho que posso dizê-lo – mais clássicos de Paris e mais bonitos, com vista direta sobre a Opéra. No fim de semana passado bebi outro no Marché des Enfants Rouges, à laia de almoço, mais modesto do que o de hoje e do que o do Café de la Paix, mas saboroso – guloso – ainda assim. Para quem não saiba, adoro comer, de verdade. Gosto praticamente de tudo (bom, menos de polvo, de chocos, de lulas, de ostras, de tamboril, de caracois e dos seus primos franceses, os terríficos escargots…) e tanto faz serem doces ou salgados, marcha tudo, por assim dizer, com apetite e alegria. Mas, apesar disto, tenho um fraquinho por doces. E muita dificuldade em resistir-lhes.
De maneira que, em Paris, estou no paraíso dos bolos com e sem creme, das pequenas obras de arte de chocolate recheadas de mais chocolate, dos petit-gatêaux, dos croissants, dos pain au chocolat, dos macarons, you name it and I will eat it. Acho que o que me tem valido entre estas delícias e as doses de baguette com queijos variados, é o facto de andar aqui um bocado mais do que em casa. Tem-me valido em termos. Se nos dois primeiros meses sou capaz de ter perdido um ou dois quilos por andar mais, essa alegria depressa se dissipou durante e após o natal. Acho mesmo que engordei esses dois quilos e mais um ou dois. O horror, a tragédia? Não, nada disso. Gosto de comer e como. Quando voltar à minha vida normal, logo se verá. Por enquanto ainda não rebolo. Por enquanto.
A verdade é que os franceses são pasteleiros e doceiros de mão cheia. Nunca vi tanta loja de chocolates e macarons, com lindas e apetitosas montras. Tanta pastelaria, com montras de se ficar logo com excesso de açúcar no sangue só de olhar. E depois, o cuidado que põe nos bolos e doces é surreal, parece tudo uma obra de arte. Jóias, já disse. É então mesmo muito difícil resistir a estes encantos e apelos. E eu resisto mais ou menos. Mas chega a hora do jantar, quando janto fora de casa, e a minha gourmandise vem toda ao de cima. Tenho de comer sempre uma sobremesa. Escusado será dizer que fruta nos restaurantes e brasseries é um conceito estranho aos franceses, a menos que se esteja no fabuloso Paradis des Fruits, bem entendido. Tirando isso, ele é o créme brulê, ele é a mousse au chocolat, ele é o petit gâteaux de chocolat com creme de baunilha, ele é a tarte du jour (de frutas cheias de açúcar geralmente), ele é o brioche perdu au caramel, ele é… uma desgraça para os gulosos.
Exceção feita ao frango a saber a mofo do outro dia, na Rue Saint-Severin, e um restaurante onde fui na primeira semana, perto da Rue de la Huchette, não posso dizer que a cozinha francesa seja má ou que tenha comido mal em França. As comidas podem ter um sabor diferente da cozinha portuguesa – e têm frequentemente – mas a maior parte são boas e saborosas. Escusado será dizer, porque já todos sabem, que o que eu como mais é canard – magret ou confit – geralmente acompanhado de batatinhas salteadas. Mas também adoro vieiras gratinadas ou grelhadas em salada. Ou boeuf bourguignon com batatinhas cozidas, ou sole meunière ou salmão grelhado avec sa sauce béarnaise. Os franceses usam este molho em tudo, bifes, peixe, aves. O molho é bom, bem entendido, mas caramba… há outros molhos que podem acompanhar a carne ou o peixe. Além de comer, também gosto de beber. Geralmente bebo um copo de vinho tinto ou uma cerveja. Os franceses têm vinho excelente, não preciso de lhe fazer publicidade. Tenho bebido Côtes du Rhone ou Beaujolais, ou Bordeux… aliás tenho ali um Saint-Emilion Grand Reserve de 2014 que não é nada mau, nada mau. Sobrou de um jantar com os meus visitantes do fim de semana passado e eu ainda não bebi o resto.
De maneira que a minha gourmandise tem sido bem satisfeita aqui em França. Ontem estava no Le Saint-André, onde vou jantar com alguma frequência (bem, desde antes do Ano Novo que não ia lá e outro dia quando parei para beber o meu café habitual o Franco, o empregado poliglota, perguntou-me logo porquê… ah a vida de bairro) e o meu pai ligou-me. Perguntou logo, claro está, ou não fosse ele também um grande gourmand, o que é que eu ia comer. Bife com batatas fritas e molho béarnaise (óbvio!). Isso aí não presta, sentenciou o meu pai. ‘Têm grão com bacalhau?’… ‘que eu saiba não’ e, na verdade nunca vi grão à venda… e bacalhau só fresco. ‘Têm feijoada à transmontana?’ continuou o meu pai, ‘não…’. ‘E um peixinho assado no forno?’… ‘também nunca vi’, respondi eu, já a sentir-me a mais miserável das criaturas por ir comer um bife com batatas fritas e molho béarnaise. Depois veio a minha mãe ao telefone e prometeu-me logo aquelas iguarias todas, quando eu regressar. O bife estava bom, by the way. Gosto do Le Saint-André, já aqui o disse, não apenas por causa da simpatia do dono e dos empregados, não apenas por ter lá já ‘a minha’ mesa, mas porque a comida é realmente boa. Caseira. Nunca comi lá nada que não estivesse excelente. Recomendo que, da próxima vez que venham a Paris, venham à Place Saint-André-des-Arts e comam no Le Saint-André. Hoje voltei lá, enquanto deixei a máquina de lavar a trabalhar, na cave da Maison Suger. Comi confit de canard, maravilhoso, e no fim, consolei a minha gulodice com o tal café gourmand que consiste, nesta brasserie, numa micro mousse de chocolate, num nano créme brulê, num molto molto piccolo tiramisu e, para rematar, além do café propriamente dito, um macaron. Era de limão.
Comer fora em Paris é bastante caro, digamos que deve ser mais ou menos o dobro de em Portugal. Por isso não como fora todos os dias. Quando o faço ou vou à ‘minha’ brasserie, ou vou ao Fourmi Ailée, que é lindo de morrer e tem comida simples e, sim, tem também sobremesas fenomenais. Fica na Rue du Fouarre. Nada que enganar. Tem grandes vidraças, é todo azul e dá-se logo por ele. Também gosto de ir (e voltei lá com os meus amigos neste fim de semana) ao Le Centre du Monde (na Rue Galande). A salada de vieiras é de comer e chorar por mais, o pato idem e o boeuf bourguignon é só assim a oitava maravilha do mundo culinário. Ah e sim, as sobremesas são absolutamente divinais, mesmo um simples (?) brioche perdu au caramel. Em todos estes sítios aa cozinha fecha por volta das 22h (no Fourmi Ailée um bocadinho mais tarde). Ainda não fui ao Les Philosophes, desta vez (e talvez já não vá), cuja cozinha fecha à uma menos um quarto. Do que me lembro comi divinamente lá. E as sobremesas… pois. O Les Philosophes fica na Rue Vieille du Temple, no Marais, portanto. Ha outro sítio onde vou com alguma frequência, comer massa (e uma pizza ou outra), que é a Pizzaria Del Arte, na esquina do Boulevard Saint-Michel com o Boulevard Saint-Germain. O atendimento é impecável, as massas são deliciosas, e, claro, as sobremesas… (recomendo particularmente a panna cotta au caramel, se alguma vez lá forem).
De resto, como de vez em quando almoços ligeiros na Maison Pradier (a do Boulevard Saint-Michel é muito simpática e bonita e os empregados são maravilhosos. Também tem baguettes bastante boas. E os bolos… evidentemente… A do Boulevard Saint-Germain é um bocado mais a armar ao pingarelho, fica na metade, digamos, mais chic do boulevard, mas também é muito boa), no Shakespeare & Co. Café (os bagels de salmão são deliciosos e… claro também tem bolos…) e numa boulangerie da Rue des Écoles – a Reglait – que é modesta mas tem uns bolos… isso, maravilhosos, além de boas baguettes. Às vezes também lancho na Paul, do Boulevard Saint-Michel, por causa dos bolos. As baguettes são das melhores que já comi em Paris. Mas para almoçar levemente (enfim… se resistirmos aos bolos) e para lanchar supimpamente (bolos!) há a maravilhosa Pâtisserie Viennoise na Rue de L’École de Médecine.
Portanto, estes são os meus sítios preferidos para comer, em Paris, ou melhor, nos meus quartiers. Estou segura que haverá muitos outros par toute Paris, que eu não conheço e já não terei muito mais tempo, desta vez, para conhecer. Estes sítios, excepto talvez o Les Philosophes e o Le Centre du Monde (mas este tem menus a preço fixo que são compensadores), são também sítios acessíveis, para os preços de Paris, bem entendido. Esqueci-me de falar na Nossa Churrasqueira, na Rue de L’École Polytechnique, quase a chegar à Place Larue, onde outro dia comi um belo frango assado ‘façon Áveirô’ e onde, está bem de ver, comi um pastel de nata a acompanhar o espresso delta. Reparo agora que uma boa parte dos restaurantes e cafés e brasseries e pastelarias de que falei fica em ruas com nomes de escolas. Combina, portanto. E demonstra que, apesar de parecer, eu não estou em Paris para satisfazer a minha gourmandise, mas para trabalhar. E estes sítios, os das Escolas, são aqueles por onde passo habitualmente no quotidiano. Je suis une gourmande, c’est vrai, mais une gourmande cultivée quand même.
(uns minutos mais tarde constato que me esqueci de falar do choclat chaud do La Coupole, no Boulvard du Montparnasse e do Chez Marcel, onde se come comida deliciosa em doses abundantes, na Rue Stanislas)

Comments

  1. miguel says:

    Vejo o Aventar como um Blog público, com mensagens diversas, mas principalmente políticas, sobre o que acontece no país e no mundo e sobre o que tem pouca cobertura nos media convencionais. Por isso, na minha opinião, as “Letres de Paris” (agora n° 67 !!!!) faziam mais sentido num blog particular ou num blog sobre férias, viagens ou gourmet. Assim, a autora poderia publicar à vontade os detalhes de como passa os dias em Paris, quando e onde tomou um café ou fumou um cigarro, sem bloquear o Blog do Aventar dia sim dia não…

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