Lettres de Paris #70


April in Paris*… (peut être)

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Hoje foi a minha vez de intervir no ciclo de Seminários do Eixo 1 do Ladyss – Recompositions sociales dans la globalisation – para o ano de 2016/2017**. O tema geral desta edição de Seminários é ‘Legitimidade, Eficácia e Utilidade’. Quando a Aline me pediu, há uns tempos, que fizesse um destes seminários fiquei um bocado, como se costuma dizer, à nora. Estes tópicos não fazem parte da minha investigação mais recente (embora tenham feito – sobretudo a questão da legitimidade associada às políticas e estratégias de desenvolvimento rural – há já alguns anos) e comecei a pensar como raio poderia eu apresentar os resultados dessa investigação, nomeadamente do projeto que coordenei recentemente – Rural Matters***, à luz das questões da legitimidade, da eficácia e da utilidade. Afastei por uns tempos essas preocupações, pois tinha outras coisas com que me entreter, digamos, no momento, em termos de trabalho e, naturalmente, há umas duas semanas voltei a dedicar-me ao assunto. Tornou-se evidente, que muitos dos resultados do projeto poderiam contribuir bastante para o debate, novamente sobretudo no que se refere à legitimidade dos diversos atores e instituições cujas representações o projeto tornou mais claras, assim como no que se refere à eficácia das estratégias de desenvolvimento dos territórios rurais. Assim sendo, preparei a apresentação de forma relativamente entusiasmada, durante uns dias e hoje às 10 em ponto da manhã, depois de ter dormido umas 3 horas e meia, lá estava eu na Rue Valette para a apresentação e o debate.
 

A apresentação correu muitíssimo bem, fi-la em inglês e contrariamente ao que esperava, nenhum dos meus colegas torceu o nariz. A Françoise estava encarregue de fazer o contraponto com a França e o debate foi-me muito útil, vivo e interessante. Já referi aqui, noutras cartas, a minha admiração pelo modo como os académicos franceses debatem as coisas. Não tenho visto muitas discussões como as que tenho tido o gosto de assistir aqui, neste ciclo de seminários e também no ciclo ‘Ruralités Contemporaines’, promovido pelo grupo de ruralistas franceses, na École des Hautes Études en Sciences Sociales. São debates ricos, cheios de ideias e de conceitos. As matérias são discutidas a sério e em profundidade. Por isso, habitualmente, estes Seminários duram uma manhã inteira. Para que haja tempo. Habituados que estamos aos 15 minutos da praxe nos congressos, tanto nacionais como internacionais e ao escasso tempo que, geralmente sobra para o debate. Ter 3 ou 4 horas para discutir uma investigação parece-me um luxo fenomenal, como é evidente. O únco senão, digamos, foi que a certa altura uma pequena babel começou a existir dentro da minha cabeça e nos meus apontamentos. Pensava em português e falava em inglês e em francês, ouvia os colegas em francês, escrevia em português e logo a seguir em francês para rematar em inglês. Já se sabe que não é fácil gerir estas línguas todas em simultâneo.
 
Assim mesmo, como disse, creio que a apresentação correu muito bem e deve ter corrido mesmo, porque no fim do seminário um colega do Groupe de Recherche Petites Paysanneries veio pré-convidar-me para voltar a Paris, em Abril, para participar como oradora numa conferência que está a aorganizar na Université de Paris-Nanterres. Até lá, o convite pode materializar-se ou não se materializar, evidentemente, estas coisas são assim mesmo, mas a possibilidade de regressar a Paris na primavera, agradou-me imediatamente. Tanto mais que nunca cá estive nessa época do ano. A ver.
 
A verdade é que eu não procuro geralmente o trabalho, bom… exceção feita aos projetos de investigação que submeto e que ora são aprovados, ora não são… mas ele cai-me literalmente no colo, sem eu ter de me mexer muito, digamos assim. Ainda bem porque, como se sabe, apesar das minhas promessas de que irei trabalhar menos, eu adoro trabalhar e adoro o meu trabalho. Aqui em Paris, na última semana de Novembro preparei e submeti um projeto para obter financiamento de um outro laboratório associado ao CNRS – Centre National de la Recherche Scientifique e soube há poucos dias que tinha sido aprovado. Não é um projeto grande, é de um ano, com pouco dinheiro, mas assim mesmo fiquei contente. A verdade é que, nesta profissão, estamos sempre a trabalhar, mesmo quando não estamos. As coisas acompanham-nos onde quer que vamos e em qualquer altura do dia, da noite, aos fins de semana e aos feriados, etc. Ser professora universitária não é apenas dar aulas, sendo que aquele apenas deveria estar naturalmente entre aspas. Desconfio que a minha promessa de trabalhar menos já começou a ir por água abaixo muito rapidamente e ainda só passaram duas semanas de 2017.
 
Destas coisas todas e de muitas mais falámos eu e a Cristina que veio a Paris por dois dias. Depois do almoço com a Aline num restaurantezinho muito simpático na esquina da Rue de l’École Polytechnique com a Place Larue, Les Pipos, quase em frente à Nossa Churrasqueira, o sítio onde comi há uns tempos frango assado ‘façon Áveirô’, fui ter com a Cristina, que estava do outro lado do Jardin de Luxembourg, mais exatamente na Rue du Cherche Midi, onde ainda não fui, mas por causa do nome, a Rua da procura do meio dia ou coisa que o valha, quero percorrer antes de me ir embora. Combinámos na entrada dos jardins que dá para o Boulevard Saint-Michel. Por isso, subi a Rue de la Montagne Sainte-Geneviève, passei a belíssima igreja de Saint-Étienne-du-Mont e entre, claro, na Place du Panthéon onde não entrava (apesar de todos os dias ver o Pathéon, desde a Rue Valette) desde finais de novembro. Em frente ao Panthéon e à Mairie do 5éme arrondissement estavam ainda pequenas árvores de natal, com as suas luzinhas a acender e apagar. A Tour Eiffel via-se perfeitamente do início da Rue Soufflot, que comecei a descer até ao Boulevard Saint-Michel.
 
Entrei no Jardin du Luxembourg, onde também já não entrava desde finais de outubro, talvez, e a paisagem surpreendeu-me. As árvores tinham perdido todas as folhas e as bonitas cores do outono, vermelho, castanho, amarelo, laranja, tinham sido todas substituídas pelo cinzento. Mas os jardins estavam bonitos na mesma, apesar da ausência de cor. A Cristina vinha do outro lado e encontrámos-nos ao pé do lago. Não nos conhecemos bem, a Cristina e eu, mas é fácil simpatizar com ela e eu simpatizo imenso com ela. Fomos beber um café à Place de la Sorbonne. Sendo ambas sociólogas, naturalmente tirámos uma fotografia com um dos pais da nossa disciplina – o Auguste Comte, cuja estátua se ergue do lado direito da pequena praça. A seguir ao café caminhámos pelo Boulevard Saint-Michel e entramos na Maison Pradier (um dia destes peço-lhes um patrocínio, pelas vezes que a menciono nestas lettres). Continuámos a conversar, da vida pessoa, da profissão, das carreiras, etc. A Cristina é realmente simpática e espero que bebamos mais cafés como estes, em Paris, ou seguramente mais certo em Lisboa ou noutro sítio qualquer.
 
Deixei a Cristina na estação de metro da Place de Saint-André-des-Arts e entrei na Rue Suger e depois em casa. Estava tão quentinho que me sentei por um bocadinho (pensava eu) na cadeira de baloiço e adormeci. Acordei muito pouco tempo depois, dormir sentada não é muito agradável, liguei a televisão na BFMTV (outro patrocínio que poderia pedir) e inteirei-me do ‘grand froid’ que invadiu toda a França (e aparentemente toda a Europa) e dos infinitos candidatos que se vão apresentar às ‘primaires de gauche’. Já lhes perdi a conta, confesso, parece-me que cada vez que ligo a televisão (mais ou menos uma ou duas vezes por semana) aparece mais um. Vão ser animadas, estas primárias que nem sequer são ‘de gauche’ porque são apenas do partido socialista. Parece que Macron ultrapassou já Valls nas intenções de voto dos franceses de gauche. No entanto, não ultrapassou ainda Fillon, o candidato ‘de la droite’. Os comentadores dizem que Fillon nem é carne, nem é peixe, que tem um discurso simultaneamente de esquerda e de direita. É por isso que tem tantos apoiantes, possivelmente, dentro do PS francês.
 
Na televisão, além das infinitas peças sobre os infinitos candidatos do PS, fala-se também das declarações de Trump sobre a UE e apresentam-se as reações de Merkel e de Hollande. Um e outro afirmando que ‘nós europeus’ sabemos muito bem o que fazemos e não precisamos que o novo presidente dos Estados Unidos da América (isto custa bastante a dizer) venha dizer-nos como devemos governar-nos. Por uma vez devo estar de acordo com os dois europeus, não no facto de ‘nós europeus’ termos o nosso destino nas mãos, bem entendido, sabemos que uns têm mais esse destino nas mãos que outros e que há muito que ‘nós europeus’ é coisa quue não existe, mas no facto de basicamente terem mandado Trump meter-se na vidinha dele. Aqui entram os tópicos dos Seminários do Eixo 1 do Ladyss na perfeição, quero dizer, os debates sobre eficácia e utilidade, mas sobretudo sobre legitimidade, como é evidente. O mundo está a tornar-se um lugar cada vez mais esquisito, é verdade, valha-me a esperança de Abril, em Paris.
 
* Existem muitas interpretações de April in Paris, um standard de jazz, mas a minha preferida é esta interpretação de Sarah Vaughan, gravada em 1954.
** Informações sobre este ciclo de seminários do Ladyss aqui
***Informações sobre o projeto, aqui

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