Lettres de Paris #71


À bout de souffle*

 

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esta carta é, por comparação com as anteriores, um mero telegrama, ainda que, como as outras, seja escrita d’un seul souffle’, quer dizer de um folêgo, sem pensar demasiado no que estou a escrever, deixando as coisas escreverem-se praticamente sozinhas. Fui hoje (re)ver À bout de souffle, de Jean-Luc Godard, estreado em Paris em 1960. Nunca havia visto o filme em écran gigante, por falta de oportunidade, claro, já que para mim o cinema deve ver-se sempre numa sala de cinema. De maneira que ao passar outro dia no mk2 da Rue Serpente e ao vê-lo anunciado para hoje (e apenas para hoje) lá fui eu, sob um frio de -4 ou -5 graus, revê-lo às 10 da noite. A sala não estava cheia, desta vez. Compreende-se, talvez, porque em Paris deve haver imensas oportunidades de rever grandes filmes. Ou se calhar porque a sessão era a uma hora mais tardia do que habitualmente. Seja como for, creio que já o disse, as salas dos mk2 são grandes, confortáveis e as condições de projeção naturalmente são excelentes.
 
Rever a cara da Jean Seberg no grande écran deixou-me à bout de souffle, como sempre. Não é por ser linda, que era. É por outra coisa qualquer que não sei explicar, mas tenho, desde que me lembro, uma verdadeira e assolapada paixão pela cara da Jean Seberg, neste filme. Apesar de não ser de Paris, nem francesa, ela encarna, para mim, neste filme, a verdadeira parisiense. Nos anos 60, como agora. A cara da Jean Seberg em À bout de souffle é intemporal. O Jean-Paul Belmondo não me tira tanto o folêgo, devo dizer, apesar da sua boca extraordinária e daquele gesto que, a partir deste filme, ficou imortalizado e é ainda tantas vezes repetido. Mas se eu pudesse e ela fosse viva e tivesse a mesma cara que em 1960, casava com a Jean Seberg, amanhã. Adorei, por isto e por muito mais coisas, como é evidente, desde logo pelo argumento de François Truffaut, pela fotografia, pela música de Martial Solal… mas também por ver Paris, a Paris que conheço agora um pouco melhor do que conhecia quando vi o filme em écrans pequenos das outras duas ou três vezes, os mesmo lugares por onde passo hoje, em 1960. É curioso ver como nada se modificou substancialmente, quase tudo foi preservado e existe ainda e existirá, provavel e desejavelmente, para sempre. Curioso e belo.

Uma coisa que não existia em 1960, quando Godard filmou À bout de souflle, era a Catedral Ortodoxa Russa, na esquina do Quai Branly com a Avenue Rapp. Estou absolutamente, desde que a vi em outubro, logo nos primeiros dias que cheguei, fascinada e obcecada com as suas cúpulas douradas, perfeitas, brilhando ao sol ou refletindo as nuvens. Deixam-me, portanto, à bout de souffle, também. Quando vim cá da última vez, há 3 anos, a Catedral não existia. De facto, parece que foi inaugurada dois ou três dias antes de eu aqui chegar, desta vez. Adoro o efeito que cria no horizonte, ao lado da Tour Eiffel. Bem sei que os mais conservadores me dirão que a igreja transformou completamente esse horizonte. E que faz alguma ‘sombra’ à Tour Eiffeil. Nada disso é verdade, para mim, que gosto de ambos os monumentos, muito, e gosto de os ver quase lado a lado, quando olho para aquela parte do céu de Paris. Hoje fui rever as cúpulas douradas e a Tour Eiffel, num passeio que tinha como destinho o Musée do Quai Branly, já era quase o fim da tarde (pelo menos o fim da luz do dia) e que afinal teve como destino o Trocadéro. Coisas de quem passeia e se deixa andar a passear. Coisas de quem se deslumbra com torres e cúpulas douradas. Claro. Fui no RER C para o Quai Branly, saí na Pont de l’Alma e pronto, perdi-me completamente com a paisagem. Sobretudo com as cúpulas da Catedral Ortodoxa Russa e com a torre. E perdida fui andando ao longo do cais, ao longo do Sena, e quando dei por mim, já tinham passado uns poucos quilómetros e já não eram horas de ir ao museu. Eram horas de ver (sempre como a primeira vez, confesso) a Tour Eiffel a iluminar-se. O sol a desaparecer completamente e as cúpulas da Catedral perderem o seu brilho e eu recuperar o folêgo e traçar, vagamente, planos de viajar até Moscovo o mais depressa que possa. Como diz Michel Poiccard, o personagem interpretado por Jean-Paul Belmondo, ‘(…) si vous n’aimez pas la ville: allez vous faire foutre!’.
 
* o trailer de ‘À bout de souffle’, aqui

Comments

  1. Pedro says:

    Elisabete, nem de propósito. Essa “outra coisa qualquer que não sei explicar” é o mesmo que me fez a mim e tantos outros ficarem fascinados com a cara da nossa actriz Maria Cabral, recentemente falecida.

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