A culpa de Costa


Portugal's Prime Minister Antonio Costa reacts during a biweekly debate at the parliament in Lisbon, Portugal September 22, 2016. REUTERS/Rafael Marchante

O governo minoritário do PS, no seu engenhoso exercício de equilibrismo político, jogou uma cartada arriscada com a indexação da redução da TSU ao aumento do salário mínimo nacional (SMN). Porque os acordos firmados com os partidos à sua esquerda, em matéria de redução das contribuições dos patrões para a Segurança Social, não são opção. Porque, do lado direito do espectro, principalmente em questões estruturais, mais não pode esperar do que uma feroz oposição, que de resto sempre alimentou. No que estaria António Costa a pensar?

Ora, quer-me parecer, e pelos vistos não serei o único, que Costa contou com “o ovo no cu da galinha”, ou, por outras palavras, que o entendimento alcançado com os patrões exercesse pressão sobre o PSD, forçando-o a subscrever a medida, que de resto vinha defendendo há vários anos. Porém, num ambiente tão crispado como aquele em que vivemos, esperar coerência da parte de um partido ferido no seu orgulho, sem ideias e de discurso vazio, é ingénuo. Muito ingénuo.

Espero que António Costa tenha aprendido a lição: se quer governar, numa posição minoritária, que depende de acordos de incidência parlamentar, com partidos sem grande historial do contorcionismo político ou ideológico, é bom que respeite esses acordos. Exigir soluções a partidos que hostilizou e a quem virou as costas, é coisa de amador. E Costa está longe de ser um amador. Sabia com o que contava e, mesmo assim, achou que tinha a faca e o queijo na mão: ou o PSD aprovava a medida, fazendo jus ao histórico e à linha que vem defendendo, ou, como é mais que certo que irá acontecer, chumbava a medida e ficava em posição para lhe serem atribuídas culpas. Mas a culpa, neste caso, está longe de ser do PSD. Podemos discutir a natureza invertebrada da espinha dorsal do PSD passista, podemos acusá-lo de incoerência ou tacticismo político, mas não lhe podemos negar a total legitimidade de recusar acordos com o governo. A haver um culpado, o seu nome é António Costa.

Foto: Rafael Marchante/Reuters

Comments

  1. Ferpin says:

    O PS não propôs nenhum acordo ao PSD. Apenas vai sair uma proposta do bloco PCP e o PSD vai ter que escolher como vota.
    O costa pode ter estendido uma armadilha, mas há situações em que…

  2. A TSU pode não passar, a culpa desse facto pode ser de Costa, mas por outro lado, é o tiro de misericórdia em passos coelho… o PSD está em frangalhos, pois tem muuuita gente que não apoia esta postura de ppc.
    Não sei quem sai mais prejudicado disto tudo.
    Costa ou passos.

    • Penso que, apesar de tudo, Passos sai mais prejudicado, pela incoerência e por se colocar em rota de colisão com a concertação social e, principalmente, com os patrões. O Costa terá que encontrar outra solução. Que aproveite a lição!

    • Paulo Marques says:

      Costa pode muito bem com Passos, com o próximo é que não se sabe.

  3. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Até agora, parece-me que sou eu o único que acha que o Costa foi superiormente inteligente, e matou vários coelhos (passe a ironia) de uma cajadada. Por um lado, conseguiu um acordo na concertação social, cujo eventual incumprimento não será culpa sua. Por outro lado, se não for possível baixar a TSU, o aumento do salário mínimo será já ireversível, e portanto, conseguiu o principal desiderato desta manobra, que era essa subida. Quando for confrontado pelos parceiros sobre a não aprovação da descida da TSU, endereçará sempre as culpas para o PSD, que, mais uma vez, deu uma “cambalhota”.
    Quanto ao PSD, com o voto contra acaba a fazer uma triste figura, de partido révanchista, sem coerência, sem propostas e sem ideias.Trai o seu próprio eleitorado, o seu programa e prática política passada, e não causa mossa que se veja no adversário.
    O BE e o PCP, vontando contra, votam em coerência, mas daí não virá grande mossa, porque o aumento o salário mínimo é irreversível, e o aumento da TSU não colcará isso em causa.
    Na minha opinião, Costa ganha em toda a linha. É uma situação de win/win, em que qualquer alternativa trará sempre ao PS mais ganhos do que perdas. O futuro do governo não está em perigo, porque uma eventual aliança negativa entre a esquerda do PS e a direita para o derrubar teria como consequência (em minha opinião) novas eleições, com o PS a avançar em posição reforçadíssima, quiçá rumo a uma maioria absoluta.
    Daí que me parece que, numa análise “maquiavélica”, Costa e o governo socialista fizeram uma manobra de mestre.
    Será talvez uma análise ingénua, mas acho que tem algum cabimento.

    • No final, acho que a coisa pode ir por aí no que toca a TSU e SMN. Mas não me parece que tenha sido maquiavelismo. Há uma coisa que escapa a essa análise e que não é despicienda: a reincidência vezeira e vezeira de Vieira da Silva em medidas que agradam à direita.

      O ministro do Trabalho nunca deu nada aos sindicatos, e agora, dando qualquer coisa, compensa dando aqueles a quem tem dado sempre, não se importando de trair acordos que justificam o governo. Ao mesmo tempo, o Governo prefere ir pelo esvaziamento da SS, em vez de ir por caminhos de apoio às empresas que PCP e BE aceitariam e que já muitas e várias vezes sugeriram: medidas nos combustíveis, medidas nas comunicações, medidas nos créditos, medidas na energia.

  4. Ana A. says:

    O equilibrismo de Costa, quanto a mim, passa por querer agradar a (eleitores) gregos e a troianos. Não nos podemos esquecer que o PS não é propriamente um partido de esquerda, assim, poderá sempre contar com os ventos dos vários quadrantes.

    • Pelos vistos não pode…

    • Rui Naldinho says:

      Pois, a espargata por vezes rompe as virilhas! Quando se abre demasiado as pernas na ânsia de se chegar com os pés aos sítios mais afastados do centro de gravidade, corremos o risco de tocar com algumas partes sensíveis à dor. E ficamos por aqui que o comedimento da linguagem assim o exige.
      Mas não foi quase sempre isso que o PS fez? E não foi assim que nos últimos anos se foi esvaziando?
      Há um limite para a incoerência. E também para a indecência.
      Que do outro lado isso aconteça todos os dias, estou-me a borrifar.
      Agora convinha é que alguém fizesse diferente para podermos acreditar que ainda há princípios na política!

  5. brácaro says:

    Pois muito bem. A posição do PSD destina-se a defender pessoalmente o seu líder e o próprio partido. Porém, este mesmo partido necessita de votos. Hostilizando o empresariado, o PSD não está a defender os interesses deste, antes o prejudica. Portanto, os empresários vão tomar uma atitude. Deixarão de votar, doravante, no PSD, porque não se concebe que valorizem quem lhes causa dano. Em suma, em vez de vantagem, Passos só colherá mais adversidade. Será que essa gente (PSD) não entende?

  6. O autor diz que o PS hostilizou o PSD. Que se saiba, quem não tem memoria curta! intencional ou ocasional, desde que o PSD aceitou os votos do BE e do PCP no chumbo do PEC IV, quem hostilizou o PS foi o PSD. E daí para a frente tem sido o que se vê e SENTE O que é lamentavel é ver o BE e PCP não quererem entender-se, A BEM DO PAÍS! e coordenarem o voto “livre” dos seus parlamentares para entre abstinências e a favor conseguirem a aprovação do diploma que, embora MAU, seria transitório. O PS e António Costa foram ingénuos em “acreditar” que o presidente e o psd tivessem um pinguinho de vergonha e coerência : DECÊNCIA. Na São Caetano os interesses são os do próprio UMBIGO, O PAÍS….que se lixe.

    • O que é aflitivo é ver Cordeiros e outros seguidores do PS exigirem o entendimento de BE e PCP; Nos acordos de há um anos disse-se EXPLICITAMENTE ao PS que os cortes na TSU não seriam aceitáveis. Na altura da assinatura do acordos, Eesses partidos aceitaram que os cortes da TSU que vinham de trás continuassem mais um bocado para não pôr em causa de modo súbito medidas cuja execução ia a meio, surpreendendo as empresas.

      Um habitual pensador da direita, Vieira da Silva, quis mais uma vez aprovar medidas da direita, fechando os olhinhos aos acordos que lhe justificaram o lugar de ministro. Traiu não só o acordado quanto à TSU com os partidos da esquerda da esquerda, como a boa vontade que aqueles tinham tido ao dizer ao PS que sim, mantivesse a TSU mais baixa vinda de trás durante um ano, para não gerar surpresas às empresas.

      Agora, Cordeiros e outros PS acusam BE e CDU de falta de patriotismo.

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