José Sócrates e a (in)utilidade da ERC


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Contava-me um destes dias uma amiga jornalista, que há uns anos atrás, numa conferência sobre comunicação social regional em Famalicão, o presidente conselho regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) teria afirmado que o organismo a que preside não serve para fiscalizar. A ser verdade, estaríamos perante uma curiosa contradição: a entidade cuja função é regular a comunicação social não pode ou não é competente para fiscalizar a área que regula. Se não é, quem será?

A verdade – e esta é mesmo absoluta – é que vivemos tempos de faroeste informativo. Da ascensão das fake news à publicidade disfarçada de informação, assistimos diariamente a atropelos variados nos diferentes órgãos de comunicação social portugueses. A situação agravou-se de tal forma que o surgimento de uma página no Facebook chamada Os truques da imprensa portuguesa, que se dedica a desmontar os ditos truques, tem causado um profundo mal-estar entre redacções e profissionais da área. Porque uma coisa é detectarmos, no acto do consumo dos conteúdos jornalísticos, uma gralha ou uma informação deturpada. Outra, bem mais alarmante para o sector, é existir uma entidade que se dedica, em permanência, a analisar padrões e comportamentos. E o resultado tem sido devastador para a esmagadora maioria dos órgãos.

Vem tudo isto a propósito de uma notícia do Expresso – será verdade? – que revela que a ERC decidiu não investigar a alegada influência de José Sócrates na nomeação de Afonso Camões para director do Jornal de Notícias. O Expresso refere escutas, no âmbito da Operação Marques, nas quais o antigo primeiro-ministro e o jornalista teriam negociado a referida nomeação, com juras de fidelidade de um “general prussiano que não se amotina”, e refere um pedido de esclarecimento, endereçado à ERC, sobre o motivo por trás da não-investigação do caso. Na resposta enviada ao semanário, o organismo refere que “No referido caso, foram cumpridas pela ERC todas as formalidades processuais e o assunto não foi debatido pelo conselho regulador”.

No meio de tudo isto, onde está a obrigação estatutária de “zelar pela independência das entidades que prosseguem actividades de comunicação social perante os poderes político e económico”? Se a ERC não faz este trabalho, quem o fará? Quem protege os cidadãos portugueses contra eventuais instrumentalizações da imprensa pelo poder político e económico? Para que serve, então, a ERC e, já agora, quem a regula? Ou estaremos entregues aos bichos?

Comments

  1. Cê Cê says:

    Você mesmo já o afirmou!
    Quem faz esse papel é a página do FB d’Os truques.

  2. Rui Naldinho says:

    Eu até sou capaz de insinuar que José Sócrates está mesmo metido na nomeação de Afonso Camões no JN.
    É mau?
    “Só se for por este não fazer parte do clube dos outros!”
    Isto faz-me lembrar as guerras do futebol. O árbitro, a ERC não pode ver só os penaltis, os foras de jogo, e as faltas por trás, de uma das equipas.
    Este caso só se soube, pelo facto de existir um processo de investigação chamado Operação Marquês. Caso contrário estaria no segredo dos deuses, tal como todas as outras nomeação e pressões feitas até hoje por governantes, partidos, políticos e associações patronais ou empresariais sobre os jornais.
    Como se não soubéssemos o que a casa gasta!
    Faço uma pergunta:
    Alguém acredita que a jornalista da SIC entrou na Padaria Portuguesa por acaso, e descobriu o Nuno Carvalho disponível para defender com aqueles argumentos, a descida da TSU ou as restrições ao aumento do salário mínimo nacional?
    Não. Aquilo foi fito de propósito. Tinha um fim específico. Dar razão à teoria de Passos Coelho que andou a ziguezaguear até à dias sobre a TSU.
    Alguém acredita que Miguel Relvas nunca exerceu pressão sobre os Jornalistas de vários jornais, por causa de vários assuntos, da Tecnoforma ao seu curriculum académico, entre eles o jornal Público?
    Alguém acredita que Manuela Moura Guedes, esposa de José Eduardo Moniz, potencial candidato do PSD à autarquia lisboeta, ex diretor da TVI, fazia o Telejornal dessa estação por acaso?
    Alguem acredita que o Observador, fundado por ex dirigentes do PSD, é um jornal só para o clã PSD?

    • Naldinho, Cuidado com as afirmações. Embora de modo genérico se possa concordar consigo, a verdade é que quando fala acerca dos movimentos jornalísticos fica-se muitas vezes com factos alternativos. Há anos que se anda a acusar publicamente Sócrates de ter posto Camões no JN. Não é de agora. O que podendo até ser factualmente acertado, em nada se distingue de outras imposições dos partidos de direita, que nunca dão brado tirando nas redes sociais. Nos jornais esse escândalo não surge. Apenas uma alegada tentativa de Sócrates para ter um jornal foi alvo de contestação e considerado ataque à liberdade de imprensa. As efectivamente concretizadas pelo PSD, CDS-PP e seus amigos empresários para ter os jornais todos foram vistas como o mercado a agir.

  3. Carlos Lacerda says:

    A ERC é tão inútil como o Magno. E não, não é o gelado, que esse sabe bem.

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