A conferência de imprensa


Queriam muito que Centeno falasse, que fosse a comissões, que enfrentasse o que eles não se cansam de chamar o “escrutínio da comunicação social”. Ora, o ministro, pressionado pelas circunstâncias, sim, enredado em telenovela menor, sim, mas compreensivelmente farto desta feira e resolvendo despachar este expediente, foi-se a eles num conferência de imprensa. Fez uma declaração e ficou em pose de “venham eles, quantos são, quantos são”. E eles acometeram. Nas sedes dos vários canais estavam todos a postos. Finalmente a caça tinha caído na armadilha. Comentadores sortidos – sortidos de cara, não de cor – afiavam a faca sentadinhos nas suas cadeirinhas de comentar. Começou a conferência, o ministro declarou, o ministro foi respondendo, o espectáculo não dava as broncas que se esperavam. Centeno respondia a perguntas às centenas. E como a coisa não estava a dar o resultado previsto e não havia foguetório, os vários canais foram deixando cair a emissão em directo e passando a palavra aos tais comendadores, perdão, comentadores, para que eles dissessem o que Centeno queria dizer com o que disse e, sobretudo, com o que não disse, com o que deveria ter dito e, até, com o que quase disse mas não disse. O resto ficará para o falar viscoso do Lobo Xavier.

É neste ínterim que as pessoas normais vão desligando as televisões ou mudando para os canais de cabo. E deixam os talibãs a falar sozinhos.

Centeno não é aquilo que a maioria da gente que hegemoniza a imprensa chama um político hábil – seja lá isso o que for. Faz o que tem a fazer, diz o que tem a dizer sem grandes flores e requebros retóricos. Mas a maioria da malta que anda pela “comunicação social” gosta de outras coisas. Da discursata gongórica – mesmo que ininteligível – da esperteza saloia, do maquiavelismo sub-urbano, do habilidoso que lhes passa a mão pelo pêlo. A maioria dos jornalistas no activo – é altura da fórmula “salvo honrosas excepções” – detesta a sobriedade e desconfia da verdadeira inteligência quando suspeita que ela existe, seja em que quadrante político for. Adora os Paulos Portas desta vida, admira os trambiqueiros, consagra como categorias politológicas as expressões e os termos pindéricos e apatetados que esta gente lhe oferece – “geringonça”, por exemplo – e está disposta a acreditar que um documento infantil e preguiçoso esconda um golpe de génio e contenha em si a “reforma do estado”. Uns pós de fascismo reciclado também lhe agrada e, na falta de tudo isto, contenta-se com quem lhe dê matéria para as revistas cor-de-rosa. Nos tempos que correm, a imprensa não hesitaria em promover a vultos gigantescos figuras como o Pacheco – o do Eça, entenda-se, o que “tinha imenso talento” – o conselheiro Acácio, o conde de Abranhos. Esses,sim, vêm-lhes ao jeito, são grandes (pode pôr aqui o adjectivo que mais lhe agradar…).

Comments

  1. joão lopes says:

    tem que se fazer mesmo,a vontade ao Publico,DN,JN,CM,Observador,SIC,TVI,Expresso,e mais uns quantos,e substituir o Centeno,pelo david dinis,otavio ribeiro,o fernandes,ou outro director de jornal que queira ser o proximo ministro das finanças,porque esses é que sabem tudo,e são os donos da razão.o joão miguel tavares dava um bom ministro…vá lá,geringonça,façam lá a vontade á criançada.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Independentemente da forma correcta como o José Gabriel toca os pontos fundamentais que são um perfil de competência de um Ministro e a enorme inveja que desencadeou a sua competente acção, em contraponto com uma comunicação social vergonhosa e manifestamente tendente, a verdade é que o cidadão Centeno, enquanto político, meteu o pé na argola.
    Foi-lhe sugerida uma ilegalidade e perante isso a sua posição só poderia e deveria ser uma: descartar a individualidade e denunciá-la. E o caso morria aí e a gentalha da direita engolia ainda mais do seu próprio fel.
    Ao contemporizar, Centeno ficou à port, uma posição nada condizente co as suas responsabilidades e, provavelmente, perfil.
    Que defenda a competência, creia-me consigo. De resto para mim tão bom é o que rouba, como o que fica à porta. E isto, goste-se ou não, é uma mancha. E é pena.

    • Ferpin says:

      Não tenho a sua leitura. O estado precisava, para ser aceite pela UE, dum banqueiro que (coisa rara) não estivesse metido em merdas. O BPI é (até ver) o único banco nessas condições. Não sendo o Ulrich sobrava o Domingues (ha ainda o Macedo mas foi ministro do PSD e o PS devia imaginar que não quereria),
      Domingues nao aceitava se tivesse que meter os rendimentos no CM e cmtv.
      Tentaram satisfazer.
      Não deu, pela tal lei de 93.
      O Domingues foi-se.
      O erro do PS, na minha opinião, foi deixar que os pasquins insinuassem coisas torpes sobre o Domingues, que, no fundo, fez o que eu faria.
      Se me pedirem para ir para um cargo onde precisam de mim,me pagam o mesmo que ganho hoje, mas tenho que divulgar todos os meus bens, contas bancarias, ações, carros motas e barcos no placar do condomínio, eu recuso. E naobtenho nada a esconder. Mas, se triplicaremo salário, já aceito. Assim os vizinhos rien-se mim por divulgar a minha vida e roem-se de inveja pelo salário.
      Dêem ao Domingues 90000€ por mês em vez dos 30000€ que elevua ganhava e aposto que ele manda a vida dele para o TC (que equivale a acabar tufo no CM)

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Tem todo o direito de interpretar os factos de outra forma.
        O que eu penso é que um ministro não se pode dar a estas “veleidades” que são ter que ouvir propostas desonestas e ficar de dar respostas e a matutar nelas.
        Foi um anjinho muito grande, embora eu creia que, para além de competente é honesto. Mas “no melhor pano cai a nódoa”.

  3. Hélder P. says:

    Foram demasiados anos com os “Condes d’Abranhos” no poleiro que quando chega alguém virgem nestas lides mas com competência técnica a sério, a nossa comunicação social espúria e servil aos vigaristas, desenvolve anticorpos a todo fulgor.
    “Não, o Centeno é um totó, não pode ser um político competente, nós conhecemos n políticos e eles não são assim!”

    E depois queixam-se da classe política que nos calha em sorte.

    • Hélder P. says:

      Lembram-se do “Álvaro, o Ministro”? Foi corrido por razões semelhantes às que exponho em cima. Isso e umas rendas no sector da energia…
      Queriam que o Centeno fosse o próximo na fila. A política não deve ser um clube fechado.

  4. Antonio Santos says:

    Nem no tempo de Salazar se vivia num totalitarismo como agora com esta gerigonça. Pode-se mentir aos portugueses que não há qualquer problema. O importante é silenciar a direita que só sabe deitar abaixo o banco estatal que só serve para enterrar a economia portuguesa.

    • Paulo Marques says:

      Sempre sai mais barato que a banca privada.

    • José Peralta says:

      António Santos

      “Silenciar a direita” ?????

      Realmente o que mais se vê, é uma “direita silenciosa” ! E tão “exigente” com a verdade ! Porque quatro anos e meio de destruição apocalíptica, de “bandeirinha” insultuosa na lapela e de MENTIRA abjecta como Instituição do desgoverno p(m)afioso, lhe dessem algum pingo de moral !

      • joão lopes says:

        silenciar a direita? nota-se pelos jornais que querem saber do SMS mas não querem saber de descargas ilegais no rio Tejo.Alias,vou fazer campanha anti psd/cds porque não querem saber de Portugal,só querem é poder

  5. “Nem no tempo de Salazar se vivia num totalitarismo como agora com esta gerigonça”

    Típico de quem não sabe que o Parlamento é o centro da política portuguesa. O que significa que qualquer governo precisa de apoio parlamentar. Teve-o a PAF? Não!

    Vemos que, afinal, é o comentador António Santos que defende o totalitarismo, já que, depreende-se, seria a vontade do primeiro-ministro a contar (cargo de nomeação), em vez dos deputados eleitos.

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