Sou o meu próprio Comité Central


zeca-afonso

Excertos da entrevista de José Afonso ao jornal «Sete» de 22 de Abril de 1980

Sobre a regularidade de publicação de discos:
«Houve só uma época, logo após o 25 de Abril, em que como sabes não tínhamos mãos a medir, e em que isso aconteceu. Foi uma fase de expectativa, em que eu reflecti sobre o que devia fazer, se deveria ir para o ensino, se a minha função de cantante se justificava no novo processo que estávamos a viver. Pus mesmo a hipótese de me afastar, porque cantores de origem populares seriam vozes muito mais representativas do que as nossas e o processo nos iria ultrapassar. O certo é que fui extraordinariamente solicitado, eu e os meus colegas, de tal maneira que fiquei completamente «nas lonas».»

Sobre a imagem de radicalismo que transmitiu na fase pós-25 de Abril:
«Isso foi uma fase que se desculpa, que quanto a mim é um reflexo do próprio processo, apareceram coisas diferentes porque apareceram realidades diferentes e um público também, pelo menos em superfície e em quantidade, diferente. Dantes eu cantava para Assembleias Populares, mas muito mais restritas. No final do fascismo era-me mesmo já praticamente impossível cantar em público e nos dois últimos anos eu vivia quase só entregue a uma tarefa de propaganda e de agitação, difundia livros e panfletos, de apoio aos presos políticos, etc.»

Sobre a censura nos últimos tempos do Marcelismo:
«Sim, e no final acabei por ser preso [depois de fazer uma sessão num pinhal para tentar escapar à Polícia]. Com o 25 de Abril surgiu uma oportunidade enorme para chegarmos às fábricas, aos locais de trabalho, ir às aldeias onde havia comissões de moradores que estavam a fazer o seu caminho público, o seu fontanário, etc.. Participei muito directamente nesse processo, eu e outros cantores que tiveram uma actividade incrível nesse aspecto.»

Sobre as discordâncias em relação ao PCP 

«Pois tenho. Por exemplo, eu pertenço à Comissão de Apoio à Frente Polisário e o PC não toma qualquer posição a seu respeito. O PC é muito rígido e tem uma ligação estreita com a URSS com a qual não estou de modo nenhum de acordo. Mas julgo que o PC tem psições mais correctas do que o PS quanto a questões fundamentais, exactamente como a Reforma Agrária. E mesmo na política internacional, no que respeita a África (e eu sou um terceiro-mundista e a minha formação política fez-se em África), as ex-colónias, também conocrdo com a sua política.»

Sobre o apoio a Otelo nas Eleições Presidenciais
«Uma coisa são grupos políticos com as suas direcções e estratégias, outra são as bases. Eu fiz parte da campanha do Otelo. Mas o que eu apoiei não foram os grupos partidários que constituiram o seu aparelho e o próprio movimento popular. E este não se constitui como o fizeram agora na FJP nem se confunde com os seus dirigentes.»

Sobre a passagem pela LUAR
«As experiências do poder popular acho-as todas correctas e representam uma dada fase. Desde o caso da Torrebela, cheio de contradições, mas no qual se transformou um couto de caça em terras produtivas, até ao da Caixa Popular da Cova da Piedade.»

Sobre a sua ideologia política
«O que eu gostava era de uma espécie de socialismo em que houvesse uma participação tão directa quanto possível dos trabalhadores na política e em todas as decisões (se seria aqui possível, não sei…).»

Sobre a Grândola
«[Nos concertos] não dispensam [a Grândola] e tem de ser. O que me custa, até porque puxa muito pelo gargalo. Mas tem de ser, embora eu explique sempre que ela corresponde a uma certa época, não podemos ser revivalistas, temos de criar novos símbolos, as condições surgirão para que haja outro tipo de luta, etc. Mas as pessoas mesmo assim não se convencem.»

Sobre o dia 25 de Abril
Estava praticamente escondido em casa de um amigo. Dedicava-me então sobretudo a vender e distribuir livros e panfletos proibidos, em especial a propósito da guerra colonial. A PIDE andava em cima de mim e eu dormia sempre fora de casa.»

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