O regresso de uma campeã


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O anúncio do regresso de Vanessa Fernandes ao triato depois de 8 anos de paragem é uma excelente notícia para o projecto olímpico Tóquio 2020 e para o desporto nacional. Aos 31 anos, compreendo as razões que levaram a Vanessa a desistir da modalidade e do desporto de certa forma em 2009 assim como compreendo o seu regresso: por mais que se tenha ganho no passado, e a Vanessa ganhou naquela modalidade praticamente tudo o que havia para ganhar em 5 anos, os seres “competitivos” nunca se contentam com o que conquistaram e querem sempre a mais. A Vanessa quer portanto conquistar em 2020 o que lhe falta: aquele ouro olímpico que lhe escapou em Tóquio.


Sempre compreendi as razões que levaram a atleta a desistir do seu trajecto em 2009. A alta competição, seja ela profissional ou amadora, acarreta sacrifícios que um ser humano normal não compreende e na maior parte dos casos, não está mentalmente disposto a cumprir para ser bem sucedido. Esses sacrifícios, da mais variada índole, constroem atletas de fibra mas acarretam também um “queimar de etapas” que não permite um saudável desenvolvimento psíquico e social do atleta. Para se ter a noção, todos os atletas olímpicos portugueses praticam uma determinada modalidade desde tenra idade e são colocados em programas de alto rendimento (de treino diário, bi-diário; muitas vezes tem que treinar diariamente a vários quilómetros de casa por falta de infraestrutura apropriada na área de residência) através das Federações sensivelmente a partir dos 13\14 anos. Esses atletas são portanto ensinados a por em prática um estilo de vida altamente frugal que não compreende saídas à noite, deslizes ou distúrbios alimentares, que carece de descanso a horas certas, do cumprimento estrito de planos nutricionais, de planos de treino físico, fisiológico, táctico (quando necessário), técnico, e mental\psicológico. É portanto natural que o adolescente\jovem adulto quando exposto a uma actividade que exige 100% de rigor, concentração e comprometimento para com essa actividade, não consiga desenvolver as suas capacidades sociais, as suas capacidades de gestão das relações interpessoais e não consiga em alguns casos compatibilizar a sua formação académica com a sua actividade desportiva.

O plano psicológico\mental do atleta é por sua vez outro dos motivos que explica sucessos e fracassos. Grande parte dos atletas de alta competição vivem durante anos debaixo de uma bolha de pressão, colocada pelas suas expectativas pessoais, pelas expectativas dos técnicos que os rodeiam ou pelas expectativas que os seus adeptos\imprensa esperam deles. Alguns conseguem viver normalmente com essa pressão porque possuem níveis de auto confiança acima do normal. Outros naturalmente sucumbem aos momentos de pressão. Fernando Mamede, o nosso grande campeão dos 10 mil metros era um atleta que sucumbia à pressão dos grandes palcos.

Contudo, ainda neste plano moral, alguns atletas habituados a vencer não se cansam de vencer. Assim como outros, que não são sucedidos com tanta regularidade, só desistem quando são sucedidos. O mesmo acontece ao inverso: alguns atletas habituados a vencer cansam-se de vencer assim como outros desistem precisamente porque sentem que não cumprem as expectativas que depositaram ou que lhes foi depositada para a sua carreira.

A Vanessa foi um desses exemplos. A Vanessa vencia no passado vezes sem conta. Chegou a um momento em que tudo lhe desabou e começou a questionar-se: será que vale a pena continuar? Será que ainda tenho vontade para continuar a vencer? Será que estou a perder alguma coisa na minha vida quando já atingi praticamente tudo o que tinha para atingir?

Em 2009 quando surgiram as primeiras notícias do afastamento da atleta da modalidade pensei: naturalmente cansou-se de vencer. O problema era bem mais profundo que isso (a Vanessa estava doente com uma anoréxia nervosa e começou na altura a querer viver a vida social que não tinha vivido desde o momento em que entrou, aos 14 anos, num plano de alto rendimento). Aceitei as justificações com plausíveis para a sua desistência mas acreditei sempre que a Vanessa, na altura com 23 anos, haveria de ultrapassar a fase mais negativa no menor curto de espaço de tempo. O que é que me motivava a pensar isso? Aquela medalha de Ouro que não conseguiu em Pequim. Seria essa medalha de ouro que a levaria a por um travão à loucura de vida em que estava metida.

E ultrapassou. Primeiro, devagarinho, com a ajuda do Benfica, no Atletismo, chegando inclusive a conseguir o lugar de suplente na equipa que foi disputar a Maratona aos Jogos Olímpicos do Rio. Contudo, a Vanessa sempre soube que o seu talento pertence ao triatlo e que agora é a altura ideal para regressar: tem 3 anos para preparar a sua participação nos Jogos de Tóquio, pé ante pé, sem expectativas, apesar do pai, o histórico ciclista Venceslau Fernandes ter afirmado hoje que acredita que a filha pode ir buscar o ouro à capital japonesa. No fundo, sei que é essa medalha de Ouro que a move a voltar ao triatlo. Sei que a Vanessa sentiu em determinado momento um vazio, um hiato na sua carreira. Sei que ela é perfeccionista e que quer sempre mais. O perfeccionismo no desporto não é um defeito, é uma qualidade essencial para um atleta de alta competição desde que devidamente moderada pela instituição de expectativas que levem o atleta a querer trilhar uma evolução correcta, perdendo no tempo correcto para posteriormente ganhar o melhor que houver para ganhar no tempo correcto. Se a Vanessa e os técnicos que a acompanham lhe conseguir explicar que este trabalho é um trabalho de progressão a longo prazo (baixando portanto as expectativas a curto prazo) estou certo que a Vanessa tem o físico e a técnica para conseguir atingir o seu objectivo de fundo.

Para já, vamos torcer para que este seja um glorioso regresso de uma campeã.

Comments

  1. Konigvs says:

    Desejo sinceramente que o consiga e o Carlos Lopes foi campeão olímpico aos 37 anos, mas temo sérias dúvidas que ela consiga agora ter sucesso. Não se interrompe uma modalidade durante 7 ou 8 anos, para depois voltar a treinar e ser-se campeão. Eu não acredito nisso, mas espero sinceramente estar errado.

    • Talento e capacidade não lhe faltam. Podem-lhe faltar as pernas de outro tempo mas eu acho que quando o plano mental está bem, sobrepõe-se ao estado físico dos atletas. O que eu não achei correcto foi novamente a atitude do pai. O pai é o primeiro a colocar-lhe expectativas acima das que um regresso após 8 anos de interregno pode comportar.

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  1. […] via O regresso de uma campeã — Aventar […]

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