O mal amado?


[Rui Naldinho]

Para um leigo que olha para o panorama político português através dos vários meios de comunicação social e das redes sociais, constato, dessa leitura, que a imagem de autarca modelo de Rui Moreira, não é assim tão consistente como parecia ser, apesar de muita propaganda em torno das suas acções. Também verifico que a sua margem de manobra como vencedor incontestável nas próximas eleições autárquicas, no Porto, parece não ser tão confortável.

Eu não estou a criticar a sua gestão no município. Longe disso. Mas, face aos últimos acontecimentos políticos, apenas me revejo naquele ditado popular:

“Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades!”

Manuel Pizarro e Rui Moreira

Manuel Pizarro e Rui Moreira

Em 2013, face ao erro estratégico do PSD, ao apoiar a candidatura de Luís Filipe Menezes à Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira teve a porta aberta para se tornar Presidente da autarquia portuense, por exclusão de partes.

Pedro Passos Coelho sabia da animosidade de Rui Rio para com Meneses. E de um certo desconforto da burguesia portuense, quase toda ela ligada às origens “provincianas” do PSD, era bom não esquecer este pormenor, para com a gestão pouco escrupulosa do autarca do outro lado da foz do Douro. Porém, Passos Coelho estava, e ainda está refém de Marco António Costa e de Miguel Relvas, os verdadeiros donos do PSD. Acresce, que grande parte dos ex-dirigentes e líderes do PSD estavam contra a forma como Pedro Passos Coelho conduzia os destinos do país. Dessa forma, o ex-primeiro-ministro agarrou-se à figura de Luís Filipe Meneses, um ex-líder do partido, para mostrar que a “velha guarda” não estava toda contra ele. Este foi o único que o apoiou na governação, mas apenas por interesse pessoal. Só que, como autarca, deixou uma dívida em Gaia, de proporções idênticas aquela que José Sócrates deixou no país. E isso era difícil de ocultar. Não se pode ter dois pesos e duas medidas, conforme nos dá jeito.

Eu fui testemunha de um diálogo entre algumas pessoas muito ligadas a Rui Rio, que me garantiram que este só se candidatou a um terceiro mandato, e não a dois como era seu desejo, para evitar uma possível candidatura de Luís Filipe Meneses à autarquia. Isto pouco interessa nos dias que correm, mas estávamos no ano de 2009, e apesar de eu achar tudo aquilo muito estranho, o tempo encarregou-se de me confirmar os factos. Com a alteração da lei eleitoral para as autarquias, nunca passou pela cabeça do cidadão comum, que haveria sempre alguém que contornaria a lei, candidatando-se pela edilidade vizinha.

Nas próximas eleições, Rui Moreira já não vai contar com o apoio implícito de Rui Rio, que já manifestou a sua preferência para com o candidato do PSD ao Porto. Mesmo sendo um desconhecido, esse apoio acaba por retirar a Rui Moreira alguns votos. Qual o peso deles, só o tempo o dirá. Entretanto, aquela margem de manobra que o actual Presidente da autarquia teve no passado junto desse eleitorado laranja, sem o apoio de Rui Rio, ainda que disfarçado, tende a diminuir. Também é óbvio que o legado dos quatro anos e meio de governação do PSD a nível nacional é tão mau que haverá sempre muitos eleitores potenciais os quais jamais votarão no candidato do PSD, mesmo sendo uma pessoa insuspeita.

Então, o que levou Rui Moreira a dispensar o apoio do PS à sua candidatura?

Terá sido de facto pressionado pelos dirigentes do PS para que este lhes garantisse mais vereadores elegíveis? Mais Presidentes de Juntas de Freguesia? Ou Rui Moreira percebeu que indo muito colado ao PS, corria o risco de perder algo que estava garantido à partida, a maioria absoluta?

Também podemos estar perante uma descolagem estratégica. Cada um vai por si, e depois encontramo-nos no final da contenda, para dividir os lugares de vereação. Só que a coisa pode correr mal ao PS, e Rui Moreira pode desta feita ligar-se ao PSD. Seria uma espécie de regresso do filho pródigo a casa. Nada a que não estejamos habituados por cá, e nesta Europa cada vez mais pobre de ideologia, de valores éticos e cívicos.

De uma coisa eu tenho a certeza. Dos muitos comentários e análises que já li sobre a gestão autárquica e a personalidade de Rui Moreira, incluindo aqui no Aventar, espero que este edil não passe agora de besta a bestial, ou vice-versa, apenas porque resolveu mudar de rumo.

Eu sei que o homem é ele e a sua circunstância. Mas alguma coerência não seria má de todo.

Comments

  1. Konigvs says:

    No meio disto tudo parece-me que quem fica pior na fotografia é Rui Moreira. Ainda por cima vê o homem que acabava de elogiar pelo seu excelente trabalho, ser candidato à presidência da câmara no dia seguinte. Quem também se sai bem é o Costa que estanca de imediato o burburinho que se poderia criar. Provavelmente depois das eleições, baralha-se e volta-se de novo a dar.

  2. JgMenos says:

    O PS sempre soube que tinha um candidato à CMP bem posicionado e sempre teve a intenção de pressionar Moreira por tachos que em tempo de maré-alta mediática ninguém na clientela aceita que se lhe recuse..
    O PS definiu o tempo: após a definição do PSD.
    É a putaria partidária em acção: o Moreira ou se se rendia ou arriscava.

    • José Fontes says:

      Ó olharapo Menos:
      De putedo percebes tu, é a tua família.
      O pior é medires os outros pelos teus.

  3. Mário Reis says:

    Conheço há muitos anos Pizarro, salta pocinhas funcional, estrutura processos de pensamento para justificar dificuldades entre realidades e compromissos internos, de um grupo, e experiências externas que em geral toma a iniciativa de se envolver à revelia do grupo. No seu subconsciente, não precisa do PS para nada, e não me espantaria (como aflora no seu texto) que, apesar do momento “paranóide” de ontem, não tenha de algum modo garantido o seu futuro, na futura composição da CMP, dada a sua “competência” e seguidismo e o extenso compromisso com Rui Moreira (RM).
    Como bem lembrava Semedo que o conhece, falta a Pizarro “credibilidade” (…) “coerência e dignidade políticas”.
    Já quanto a Rui Moreira contactei pessoalmente com o sr. uma vez. Presunçoso e arrogante, goza de um certo “prestigio” mantido pela boiada jornalística desde os tempos de comentador de bola. Tem na agenda, acusar de todos os males os partidos, destruindo-os, como de sarna se tratasse, e manipular de modo vergonhoso alguns dos factos que interessam à cidade. Critico os dois numa série de pontos ao contrário da boiada ‘jornalística’ obsequiadora, que se baba ao falar de RM e Pizarro. Os feitos de ambos não é de causar inveja a ninguém, para dizer o mínimo. Na área da habitação, a requalificação dos bairros sociais vem do tempo da vereação de Rui Sá, da CDU que se bateu longa e duramente, politica que justamente tem sido mantida nos vários mandatos. No que respeita à reabilitação é um regabofe com a rendição e submissão à especulação e centrifugação de cada vez mais moradores para fora do Porto. No plano cultural, é desoladora a situação. Não há projetos à muitos anos. Nada se fez para inverter a decadência e morte de verdadeiras instituições culturais da cidade depois das politicas sentenciadoras de Rui Rio. O programa de uberização da cidade multiplica-se a olhos vistos, sem uma ideia da CMP. Os portuenses cada vez mais atomizados, perdem a identidade. As associações morrem sem gente, ficando a cidade entregue às leis do mercado tão do agrado de Rui Moreira.
    Verdadeiramente, o espaço adequado não é este, mas por favor, não é imaginária e fantasiada a competência de que falam? A arrogância e superioridade moral de RM, portador de ” valores ” da cidade, interessam a quem? Não confunde esse, os valores e os princípios, com interesses que progridem e transformam para pior a cidade, em que ele próprio toma parte, como o caso “Selminho” que não quer esclarecer?
    O que fizeram pelo Porto senão evitar uma gestão à Filipe Menezes?
    Vejo com gravidade o passe de mágica de RM e do seu séquito anti-partidos, clientelismo especialista em fazer reinar a calma para melhor garantir negócios e posições de poder.
    A uma lenta e silenciosa corrosão da vida na cidade tem de ser detida e para isso era bom que deixasse de depender tanto do conde RM e do dr. Pizarro. E já agora que a próxima eleição não se restrinja à combinação da vontade consciente e propositada de alguns irresponsáveis e avençados a que chamam de jornalistas.

  4. Mário Reis says:

    A grande cartuchada do Eng.º Rui Sá teve já consequências: os vereadores do PS demitiram-se para não cumprir o programa de Rui Moreira. Sem dúvida a ler
    http://www.jn.pt/opiniao/rui-sa/interior/estava-se-mesmo-a-ver-7585176.html

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