Pós de autárquicas


Que calor esteve ontem! Devia ter antecipado que cortar a erva encaniçada e tesa que deambulava pelo meu quintal não seria boa ideia. Sim, ela parecia mexer-se, como gafanhotos que saltam de poiso em poiso, mas sem sair do sítio. Talvez fosse do vento. Certo é que, a dado momento, o meu nariz resolveu fazer greve, até antes dos braços se recusarem a levantar a gadanha, e desatou em sequências de espirros, daquelas que dão em pessoas que espilraram em número certinho e arrumadinho, só para enganar os apressados que logo se saem com um “santinho”, excepto que a minha excelsa penca nunca a tais finesses se havia dado.

Foi do pó, pensei eu, enquanto trocava a ferramenta pelo trago amargo e fresco de uma loira ponto trinta e três.

Mas algo me inquietava e resolvi investigar. Peguei no meu velho amigo Dicionário Prático Ilustrado, edição actualizada e aumentada por José Lello e Edgar Lello, de 1963, e coloquei-o por baixo do monitor do meu computador por forma a que o Facebook ficasse aberto bem em frente aos meus olhos. O assunto era sério e exigia que nenhuma distracção perturbasse o trabalho científico.

Li análises inquietantes e pensamentos plenos da profundidade que 4 linhas de texto, corte “Ver Mais” excluído, permitem. Vi colagens de pixeis capazes de fazer corar a senhora que restaurou aquele fresco, tal era o toque de bom gosto presente na obra. E vi caras, muitas caras, de candidatos autárquicos em posts patrocinados, não vá o Facebook fazer birra e impedir que os esplendorosos sorrisos iluminem os murais dos eleitores, perdão, dos leitores. E foi então que piorei.

Levantou-se um ataque de alergia de tal forma forte, que não sei se chateava mais a corrente de ar gerada pelos espirros, se a encomenda de santinhos que estava prestes a me beatificar. Lá fechei o Face e o efeito fez-se sentir mais depressa do que uma dose de Telfast empurrada com um golo de pinga.

Dada a minha curiosidade, ofereci o meu corpo ao método científico e li uma daquelas publicações cheia de cenas e coisas que os candidatos a candidatos nas listas escrevem. Confirmou-se. Era alergia a pó de autárquicas e fiquei sem desculpas para não cortar o resto do pasto seco.

Comments

  1. A minha edição é de 1972. Está sempre por perto.

  2. Sim, concordo. É mesmo muito bom.

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