Afinal as vacas não voam


Santana Castilho*

Seria divertido, não fora uma espécie de vomitório, analisar comportamentos políticos e institucionais ao longo dos tempos. A direita, que ontem gritava a necessidade de reduzir as “gorduras” do Estado e tesourava sem critério tudo o que era público (Educação e Saúde que o digam) apresenta-se agora a protestar com vigor contra a redução do financiamento dos serviços do Estado. O CDS conservador, pouco dado noutros tempos à justiça dos descamisados, é agora o primeiro a exigir demissões, enquanto a tradicional esquerda radical ajeita a gravata da contenção responsável e abotoa com classe o paletó da responsabilidade de Estado. O Ministério Público, esse decantador enigmaticamente vagaroso de processos que poderiam inspirar J. K. Rowling, acaba de fulminar, um ano depois, três secretários de Estado do PS, que aceitaram da Galp uma viagem rapidinha para ver a bola. Talvez possamos agora admitir que um procurador persistente, algum dia, nos venha garantir que a viagem em jacto privado para o Brasil, mais a semana de férias para si próprio e família, que o então primeiro-ministro Durão Barroso, do PSD, aceitou do empresário João Pereira Coutinho, sempre estiveram ética e legalmente separadas da venda da Quinta da Falagueira, que o Estado fez, uma semana depois, ao irmão do generoso amigo de Durão Barroso.

Perante o caos administrativo que deixou 64 mortos e 200 feridos em Pedrogão-Grande, António Costa não deu respostas. Fez perguntas e foi de férias. O que até agora percebemos é que todos os organismos envolvidos negam responsabilidades.

A bagunça dos exames nacionais mais o grave roubo de armamento pesado nas barbas da tropa de elite remeteram António Costa para uma sonora ausência e apenas lhe apagaram o habitual sorriso trocista. O que até agora percebemos é que o grande negociador é um pequeno chefe quando o contexto é de dificuldades e o éthos é de inimputabilidade.

O que aconteceu em Pedrogão-Grande, o que aconteceu em Tancos e o que aconteceu com os exames nacionais é deplorável e inaceitável. Mas o que até agora percebemos é que, afinal, as vacas não voam.

A ligeireza com que o ministro da Educação tratou a fraude do exame de Português, as orientações para subir notas a eito e passar alunos com cinco negativas num currículo com nove disciplinas (é ler as linhas e as entrelinhas do despacho normativo 1-F/2016) cumprem a espiral de despudor e facilitismo que subjaz às directivas do Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar e alinham com a falência da Administração Pública, reflexo natural de uma austeridade que nunca acabou e foi agravada pelo preenchimento de postos de poder por populistas irresponsáveis. Têm os que capturaram o Ministério da Educação culpa directa dos costumados desmandos do IAVE? Naturalmente que não, porque foram outros os criadores da criatura e vários os padrastos e madrastas que a têm protegido. A culpa de Tiago Brandão Rodrigues e João Costa é a de permitirem a execração sumária que o monstro dedica a quem lhes aponta os erros. A culpa que lhes assiste é a de validarem a apologia da asneira.

Apesar de a Matemática ser universalmente havida como ciência exacta, considera o excelso IAVE que um resultado completamente errado está 75% certo, porque os parênteses (cuja omissão na multiplicação é obviamente um erro grosseiro) são simples formalidade. E o ministro, físico de formação e “pedabobo” de ocasião, diz que a coisa não passa de uma diferença de opinião entre o seu instituto e uma sociedade científica.

E assim vamos a caminho dos exames do século XXI, feitos online, só com perguntas fechadas e dispensa de professores para os corrigir, talvez com as respostas previamente distribuídas aos alunos, para garantir a equidade e a ausência de fraudes selectivas.

Viva o modernismo pedagógico, viva a didáctica sobre skate, viva a avaliação progressista, vivam os governantes empreendedores e os directores submissos, abaixo os professores sérios!

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

Comments

  1. atento às cenas says:

    acho que avalia a. costa muito por baixo. parece-me claro que só está a deixar assentar a poeira para depois poder aparecer dominando a cena.

  2. Ferpin says:

    Pessoalmente também acho que dar um penalty de apenas 25% pela omissão dos parêntesis é pouco. Mas, não concordo com o autor quevparece defender uma penalização de 100%.
    Há muitos anos que ae penaliza, de forma correcta, pelos pequenos erros de contas que conduzem a soluções finais diferentes da correcta. Seria ridículo propor dar zero numa questão complexa, com muitos cálculos, em que um mero erro de sinal conduzisse a solução incorrecta. Menos demagogia, sim ?

  3. JgMenos says:

    A palhaçada geringonça segue em frente.
    A farsa das alternativas de sucesso continua na ordem do dia geringonço.
    O descaro e a pesporrência está embaciado mas persiste com vigor.
    A direita não está contra «a redução do financiamento dos serviços do Estado». Só não concorda que isso se faça a troco de broas para clientelas e se minta aprovando orçamentos que são para geringonço manipular (sem orçamentos rectificativos, que geringonço é rigor infalível!)

    • Nascimento says:

      Bronco merdoso.

      • Arap-o-Otroba says:

        Não deixa de ser interessante assistir .
        Um gaijo que não sabe ler nem escrever , ou seja um perfeito produto do nosso socialista sistema de educação ( em resumo um analfabeto funcional) a chamar bronco ao seu semelhante apenas morfologicamente.
        Tu não te devias chamar nascimento. Devias chamar-te Aborto.

        • Ernesto says:

          Peço desculpa, mas quem escreve “um gaijo”,não devia dizer que outrém é : “…um perfeito produto do nosso socialista sistema de educação ( em resumo um analfabeto funcional)…”

          É só a minha opinião, e não precisa de mais ustificação, acho eu…

          Cumprimentos

        • Nascimento says:

          O teu pai é que te pintou? É que não passas de um filho da puta:

        • Nascimento says:

          E já agora:Nunca te foram ao cu,
          nem nas perninhas, aposto!
          Mas um homem como tu,
          lavadinho, todo nu, gosto!

          Sem ter pentelho nenhum,
          com certeza, não desgosto,
          até gosto!
          Mas… gosto mais de fedelhos.
          Vou-lhes ao cu
          dou-lhes conselhos,
          enfim… gosto!

  4. Nascimento says:

    Os dois pontinhos tem que se lhe diga!Covarde que te escondes como qualquer rastejante .Quanto ao ERNESTO….UI…

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