É o tamanho das escolas e das turmas, estúpidos!


 

Há uns dias, li uma reportagem no Jornal de Notícias acerca do combate ao abandono escolar no concelho de Manteigas. O director do agrupamento fez referência, entre outros aspectos, ao facto de a escola e as turmas serem pequenas, o que, na realidade, é um dos factores fundamentais no combate aos problemas educativos.

Mas estás tu a dizer, ó Nabais, que basta acabar com os mega-agrupamentos e diminuir o número de alunos por turma para que, de repente, o mundo inteiro se ilumine e as crianças passem a tirar notas altíssimas e comecem a sentir um entusiasmo imediato pela vida escolar?

Ainda bem que me faz essa pergunta, imaginário e verosímil leitor! Não, não estou a dizer nada disso, porque nada em Educação é comparável à relativa facilidade com que se pode consertar ou substituir uma máquina que esteja a funcionar mal e porque haverá sempre directores mais competentes ou mais imaginativos, mas diria que sim, que, independentemente da competência de todos os agentes, a recuperação de uma escala humana e a diminuição do número de alunos por turma são fundamentais, como, ao que tudo indica, prova o caso de Manteigas ou como provou o caso de Curral das Freiras.

Ontem, David Justino, sem se aperceber disse o mesmo, como se pode ver no excerto publicado acima. É claro que, até chegar ao cerne da questão, deixa escapar alguns lugares comuns do empresarialês que tem contaminado a Educação nos últimos anos, como a importância da liderança (uma das palavras aparentadas com o empreendedorismo que inunda tudo). No entanto, lá está o pilar: são “escolas mais pequenas”, onde, sem pôr em causa as qualidades individuais, é mais fácil ser-se director ou professor.

Às vezes, dou por mim a sonhar. Nesse sonhos, o Ministério da Educação voltava a existir.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Passa muito também por não ensinar a mesma coisa a todos e só de uma maneira, mas até isso mudar…

  2. Ana A. says:

    É a massificação do ensino!
    Queriam pôr toda a gente a aprender o básico e mais além! Pois então, tomem lá ambientes saturados, que é para aprenderem a pôr cada macaco no seu galho!

    • Ana A. says:

      …só uma coisinha: o comentário acima é irónico!
      (é que eu prezo, um bocadito, a minha reputação.)

    • Luís Lavoura says:

      O problema do ensino não são os ambientes saturados.
      O problema é que os professores não estão verdadeiramente interessados em ensinar alunos ignorantes, mas sim em fazer seleção social-educativa dos alunos que têm famílias educadas.
      Grande parte da educação é feita com o objetivo de selecionar os alunos que tenham pais que os possam ajudar (ou então, pagar a explicadores para que os ajudem). O aluno que não tenha pais que o apoiem, fica fodido. Os professores fazem isto, em grande parte, de forma consciente e deliberada.

      • Ana A. says:

        Mas um ambiente menos saturado, ajudava mais à aprendizagem, não?! Então, para começo não estaria mal.

      • António Fernando Nabais says:

        Não há como generalizar e fica tudo resolvido. Afinal, os professores, com pouquíssimas excepções, é que não estão interessados em ensinar alunos ignorantes e fazem tudo de forma deliberada. Entretanto, em pelo menos duas escolas em que os pais pertencem a um estrato socioeconómico/sociocultural baixo, consegue-se combater o insucesso. Coincidência: são escolas pequenas e as turmas são pequenas. É claro que isto acontece, com certeza, apesar dos professores. Extraordinário!

  3. É o mercado, túspido!

  4. Luís Lavoura says:

    Eu há uns tempos fui visitar uma das escolas privadas mais afamadas de Lisboa, e uma daquelas em que os alunos melhores notas tiram. Vi salas de aula muito fundas e que, segundo me disse a minha guia, ficavam cheias, porque cada turma tinha para cima de trinta alunos. Os alunos nas filas de trás, pensei eu, certamente teriam dificuldade em ver o que o professor escrevia no quadro, mais dificuldade ainda em fazer perguntas a esse professor.
    O (in)sucesso escolar não depende esencialmente do tamanho das turmas. Depende sobretudo da (in)existência de pais educados, que possam ensinar e ajudar os seus filhos em casa.

    • António Fernando Nabais says:

      A educação vai além das boas notas, pelo que os colégios que preparam alunos para exames não são um bom exemplo. Os pais constituem um dos factores fundamentais para o sucesso educativo dos filhos. Para que os filhos de pais menos “competentes” possam ter um apoio mais próximo, é óbvio que as turmas e as escolas têm de ser mais pequenas. Caso contrário, aqui sim (e referindo-me a um comentário seu anterior), é a sociedade que está a aprofundar uma selecção em vez de tentar equilibrar.

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