Postcards from Greece #8 & #9 (Thessaloníki)


Aγροτική κοινωνιολογία, política e uma grande constipação

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αγροτική κοινωνιολογία, quer dizer ‘agrotikí koinoniología’, ou seja sociologia rural. Foi a Maria que é também uma ‘agrotikós koinoniológos’ ou socióloga rural, que me ensinou a escrever isto e, mais importante, a pronunciar. É certo que poderia ter ido ao google tradutor (e acabei por ir, para copiar para o postal a expressão) mas preferi que ela me ensinasse. Rural diz-se αγροτικές ou ‘agrotikés’ e parece mesmo uma língua. Que eu e a Maria falamos. Quanto ao grego, o meu é praticamente inexistente, se descontarmos os habituais kalimera, kalispera, kalinýchta, efvaristó e parakalo. Já consigo ler relativamente bem os caracteres para me orientar num sítio qualquer, mas não vou muito além disso. Ao contrário do ‘agrotikés’, o grego é mesmo uma língua difícil.

A Faculdade de Agricultura da Aristotle University of Thessaloníki, onde fica o departamento de economia agrária e sociologia rural, onde estou, é um edifício antigo, com poucas condições, tal como parecem ser a maior parte dos outros (com algumas exceções) edifícios do campus. O campus está também maltratado, embora as muitas árvores vestidas das cores do outono, lhe acrescentem alguma beleza. Tenho um gabinete. E café e água. E posso almoçar por 2,40 €. Se fosse estudante poderia mesmo almoçar e jantar gratuitamente. Aqui os estudantes não pagam propinas também e muitos têm o alojamento gratuito. Isto nas Universidades públicas, como é o caso da AUTH. A Maria espantou-se quando lhe disse que em Portugal a comida nas cantinas era paga e que também se pagavam propinas nas Universidades públicas. Em qualquer caso, o sistema grego parece-me incomparavelmente melhor, mesmo se as condições de trabalho sejam piores para os professores. A Olga, uma professora de turismo rural, disse-me também que aqui as coisas são mais relaxadas. Por coisas, entenda-se também o trabalho, naturalmente.
Os estudantes parecem bastante mais politizados que os portugueses. Em toda a parte cartazes de protesto, cujo conteúdo não percebo, em muitos casos. Ainda há pouco passou ali abaixo (na Agios Dimitrios) uma manifestação de jovens estudantes aos gritos ‘Grécia! Chipre! Enosis*!’. O consulado turco é também aqui perto e era para lá que se dirigiam. Dia 17 de novembro, depois de amanhã, portanto, tenho instruções da Maria para não me aproximar do campus. Assinala-se o levantamento dos estudantes da Escola Politécnica de Atenas contra a repressão da ditadura militar (1967-1974)** grega. Parece que os estudantes assinalam este dia de forma muito efusiva com cocktails molotov e outras coisas semelhantes, especialmente dentro do campus, vedado à polícia. As universidades fecham nesse dia, também, já que é feriado para as instituições de ensino. Embora tenha vontade de ir ver com os meus próprios olhos as celebrações, tenho também receio. Penso que é natural. Mais a mais tenho, neste momento, uma enorme constipação. Talvez o melhor seja ficar em casa a ver na pequena televisão os tumultos. Porque parece, a avaliar pelo que me contaram a Maria, o Giorgios e o Christos, todos os anos grandes tumultos neste dia, nos campus das universidades, especialmente por parte dos estudantes anarquistas.
O movimento anarquista tem uma grande força na Grécia, além dos muitos cartazes espalhados por toda a parte, têm jornais próprios. Aliás, todos os partidos políticos, especialmente os de esquerda, têm os seus próprios jornais vendidos nas bancas, tal como os outros. Não sei se isto corresponde a uma maior politização das pessoas (além dos estudantes, como disse), mas as conversas vão invariavelmente parar ao tema da política e da crise financeira e económica. Esta última é, aliás, visível em toda a parte. Nas lojas fechadas, no ar de abandono e desmazelo dos pequenos comércios, na muito deficiente recolha de lixo, no incrivelmente alto IVA (de 13 a 24%, sendo que a maioria dos produtos, mesmo os básicos, é taxado a 24%), no estado geral de abandono das cidades (pelo menos aqui em Thessaloniki), nas precárias condições de habitabilidade de muitos gregos e principalmente nas caras e nos olhos das pessoas. Na maioria das vezes as pessoas com quem me cruzo nas ruas, apesar de simpáticas e generosas parecem tristes e desalentadas. A reviravolta do Syriza diante da União Europeia, e a sua coligação com um partido de direita nacionalista – ANEL – faz com que tenha passado do partido da esperança para um partido (e um governo) que é cada vez mais motor de desalento. ‘There is no hope’, diz-me a Maria. E o Giorgios acrescenta que terão de passar duas ou três (ou mesmo mais) gerações para que a Grécia e os gregos superem os impactos da crise. Os salários continuam congelados e com cortes (os salários dos professores universitários, por exemplo, sofreram um corte que é atualmente de quase 50%), o desemprego é (dados de junho de 2017) de 21,2% e a dívida, essa, tal como a nossa, continua impagável, qualquer que seja o número de gerações que passe. O Syriza também desiludiu as pessoas por causa do célebre referendo às medidas de austeridade. O povo disse Oxi (Não), o Syriza meteu o referendo na gaveta. Não é digno de um partido que se intitula de ‘esquerda radical’, convenhamos. Explico à Maria e ao Giorgios e ao Christos, que também para Portugal o slogan do Syriza ‘hope is on the way’ representava muito. E que afinal, no fim de tudo, todos concordados, a esperança ficou realmente pelo caminho. Tsipras é considerado um político como os outros que parece estar apenas interessado na defesa dos seus próprios interesses. Bem sei que há muitas versões de uma mesma história, mas esta parece-me, apesar de tudo e de ter eu mesma defendido o Syriza e Tsipras (e de certa maneira, enfim, o facto de terem dado, nem que tenha sido por um segundo, a esperança às pessoas de que era possível combater as medidas ‘austeritárias’ da UE, faz-me ainda não ser capaz de os repudiar) credível. Vejo que é credível, todos os dias, desde que aqui cheguei, nas ruas.
Tudo o que me narram sobre a situação na Grécia me é familiar. A mesma agenda, a mesma estratégia. Embora lhes diga que estamos atualmente, em Portugal, um pouco melhor e que as pessoas parecem mais confiantes, não tenha assim tanta certeza de que estaremos. Portugal não é a Grécia, seguramente, mesmo na crise não é exatamente igual, mas devíamos todos ser a Grécia, pelo menos ter a mesma solidariedade que o povo grego tem para si mesmo e para com outros povos que aqui chegam todos os dias. Ou saber reconhecê-la como um valor infinitamente mais importante que o dinheiro.
* Para perceber um pouco melhor este movimento: https://en.wikipedia.org/wiki/Enosis

Comments

  1. Pedro says:

    Os gregos têm essa coisa curiosa de terem por um lado uma parte muito conservadora, ligada à Igreja Ortodoxa (só há poucos anos deixou de ser obrigatório inscrever a religião nos BIs, por pressão da UE) e, por outro lado, terem esses rompantes anarquistas e esquerdistas, por causa da história conturbada deles, após a segunda guerra, guerra civil, ditadura, etc.
    O Ekathimerini é minha leitura diária, é uma espécie de Público, centrista, para o conservador. O greekreporter, também, mas menos. Há também um blog que sigo diariamente, o keeptalkinggreece, uma espécie de agregador de noticias. Que eu saiba, não há nenhum jornal de Salónica online em inglês e o meu grego é muito pobrezinho. O presidente da Câmara de Salónica, o Boutaris, é um tipo muito curioso, um bocado excêntrico. A Elisabete há-de aí perguntar por ele.

  2. Visite, em Salonica, a zona que antigamente era uma degradada zona de prostituiçao e por volta de 2001 estava a ser toda recuperada para zina de bares. Ja nessa altura estava bem linda. Perto, muito perto da Torre Branca…..

  3. Serres e Meteora, sugiro eu

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