Canonize-se o Pedro

PPC

Fechado que está o ciclo do passismo, que teve na candidatura de Pedro Santana Lopes o seu último suspiro, é chegada a hora das exéquias. Para lá das expectáveis vénias de circunstância, do mais empedernido apoiante de Pedro Passos Coelho ao tom conciliador do novo homem forte da São Caetano à Lapa, outrora crítico do mandato do líder cessante, passando por um exótico conjunto de mulheres e homens-bomba que, a partir das redes sociais e da Fox News lusitana, choram a partida do querido líder e anunciam novos demónios, pactos e cataclismos, aqui e ali emerge um simpatizante envergonhado, que procura contribuir com os seus 5 tostões para a canonização de Pedro.

Na edição desta semana do Expresso, logo na segunda página, a habitual secção de altos e baixos, assinadas pelo director-executivo do semanário, Martim Silva. Em sentido descendente bate-se em mortos, com a mira fixada em João Rendeiro, banqueiro caído em desgraça, e Hugo Soares, protagonista de várias tragicomédias laranjas, com quem Martim Silva não deixa de ser simpático. A subir temos Rui Rio, por motivos óbvios, Hugo Vau, surfista português que conseguiu a proeza que cavalgar uma das maiores ondas que a Nazaré viu rebentar contra a sua costa, e Pedro Passos Coelho. Hein?

Segundo Martim Silva, Passos Coelho está em alta porque assumiu o cargo me 2010 “e logo no ano seguinte assumiu o poder, numa altura muito delicada para o país”. Certo. Faltou ao director-executivo do Expresso referir as condições em que o líder do PSD ascendeu ao poder, com facadas nas costas dos adversários internos, um esquema oleado de produção laboratorial de opinião e até práticas de manipulação da opinião pública, nomeadamente através de bombardeamentos no Fórum TSF ou noutros programas de natureza idêntica. Faltou-lhe também referir o contributo de Passos Coelho para a “muito delicada” situação do país, ao escolher de forma calculada e calculista o momento para tirar o tapete ao executivo Sócrates com o chumbo do PEC IV, algo que de resto foi amplamente condenado por parceiros internacionais do PSD, com a chanceler Merkel à cabeça. Tão grave que até João Vieira Pereira caiu em cima da manobra passista.

Martim Silva refere também que Pedro Passos Coelho “livrou Portugal da Troika”, como se o formalismo de concluir um processo calendarizado de intervenção externa nos tivesse libertado das amarras das instituições supranacionais, sem uma palavra que seja sobre as dispendiosas trapalhadas no BES e no Banif, sobre as privatizações a preço de saldos, das quais colhemos hoje o fruto podre de serviços outrora superavitários, como é o caso dos CTT, ou da perigosa dependência de estados ditatoriais em sectores tão preponderantes como o da energia, ou ainda sobre a ânsia de ir além da Troika, de pregar o facto alternativo da não-alternativa à austeridade e do processo de radicalização em curso que apadrinhou e ajudou a desencadear.

Apesar da referência ao óbvio, que Passos Coelho “não conseguiu manter-se no governo e sobretudo não se adaptou, nem adaptou o discurso do partido, às novas circunstâncias e ao novo ciclo político”, o breve elogio fúnebre do passismo termina com uma referência ao líder que não está agarrado ao poder e que não interferiu com o processo de sucessão. Não interferiu? Porque não twittou ou fez publicações no Facebook? Porque não tomou partido por nenhum dos candidatos perante os micros e as câmaras da imprensa? Quem garante a Martim Silva que Passos Coelho não interferiu no processo? A menos que Martim Silva tenha informação privilegiada, ou tenha acompanhado o processo a partir do seu interior, algo que seria um tanto ou quanto incompatível com as funções que exerce no Expresso, nada lhe garante que Passos Coelho não interferiu nas directas. Ou não fosse a candidatura de Santana uma autêntica reciclagem do que sobrou do passismo, dos aprendizes de Marco António a Relvas, passando pelos jotinhas promovidos a oficiais durante o consulado de Passos Coelho ou por experiências extremas como o aquele indivíduo de Loures com tendências estranhas. Que ou quem é que nos garante que Pedro Passos Coelho se manteve, efectivamente, a leste do processo? Nada nem jinguém.

Quanto ao poder, ao qual Passos não estaria agarrado, importa recordar que líder cessante do PSD podia ter saído por uma porta maior se tivesse sabido interpretar a nova equação de poder resultante das Legislativas de 2015. Ao invés disso, Passos Coelho optou por se radicalizar, arrastando consigo um partido outrora posicionado no centro-direita do espectro, levando-o inclusive a trilhar caminhos de negação da democracia representativa. Levando-o mesmo a transformar-se em anedota nacional com a história do diabo e outras profecias. A única coisa que há a assinalar no fim desta era do PSD é essa mesma: o fim de uma era que não deixa saudades. Sem nada de particularmente entusiasmante para assinalar. Martim Silva vai ter que se esforçar um pouco mais para canonizar Passos Coelho. Ou fazer um workshop com os neocoisos da Fox tuga.

Comments

  1. JgMenos says:

    O PPC livrou-nos do Sócrates?
    Como algum dia se pode branquear uma tal infâmia?
    (a esquerdalha não teme o ridículo e nisso funda a fama de progressista)

    • ZE LOPES says:

      Já que V. Exa pergunta…

      “O PPC livrou-nos do Sócrates?”. Resposta: sim e supostamente foi um alívio. Escusava era de se ter entusiasmado prosseguido o alívio pelo das carteiras dos restantes portugueses.

      “Como algum dia se pode branquear uma tal infâmia?”. So tenho uma resposta para isso: é tentar com “OMO”, lexívia e águarrás, por esta ordem.Se não resultar é tentar uma decapagem e duas demãos de tinta “Robbialac”. Deve resultar.


  2. Pronto !
    Aí está o 2º cabo legionário !

  3. ZE LOPES says:

    Úlrima hora! Fontes bem colocadas no Vaticano confirmam que Passos Coelho vai mesmo ser canonizado. E em tempo recorde, já que o próprio Advogado do diabo não lhe poupou rasgadíssimos elogios! Pudera!,


    • E ainda não se começou a construir uma capela em Fátima para o homem???

      • ZE LOPES says:

        Capela? Via diretamente para o altar-mor! O Bispo já deu autorização! Tira-se de lá a Nossa qualquer coisa e põe-se o Passos. Com uma vantagem: não é preciso mudar o nome àquela procissão de Sexta-feira Santa…