Os europeus fogem da Europa sem saber para onde

Abandonados pelo poder na União Europeia, os cidadãos compreenderam que a sua voz e vontade deixaram de encontrar nos partidos dominantes do sistema qualquer eco ou respaldo na tomada de decisões para a sua construção, sentindo-se defraudados nos nobilíssimos ideais que lhes venderam sobre uma “Europa dos Cidadãos”. De costas voltadas para os cidadãos, os políticos do Partido Popular e do Partido Socialista Europeus, aplicam há quase duas décadas os ditames da alta-finança internacional sem nome nem rosto, impondo políticas de empobrecimento da classe média e dos mais desprotegidos, seja em nome da manutenção de uma moeda forte, seja em nome da dívida soberana, seja em nome do que entenderem dizer.

orban

A verdade é que a Europa deixou de interessar aos investimentos da alta-finança desde que escancararam as portas à livre circulação global do capital, nomeadamente após os acordos de livre comércio com a China e com a Índia no final do milénio passado, reduzindo o seu interesse pelos cidadãos a apenas consumidores abastados, ou melhor dizendo, olhando-os como o ainda maior mercado consumidor do mundo.
Esta política abjecta hoje apelidada de neoliberalismo não é mais do que o estádio de “capitalismo financeiro” descrito por Marx, onde a alta-finança tem uma posição dominante em toda a estrutura partidária, política e mediática, exercendo esse domínio através desses mandatários contra os interesses dos cidadãos que estes continuam a dizer pretender representar. Vivianne Forrester ilustrou este momento quando afirmou que o homem passou a ser um excedentário económico, um marginal ao sistema de produção, onde a precarização e a ausência de trabalho e emprego o desligava socialmente do processo produtivo.

Marx continua hoje actualíssimo na sua previsão acerca do comportamento deste “capitalismo selvagem”, mas falhou redondamente na sua solução utópica de ditadura do proletariado que preconizou, uma vez que não conseguiu prever, com 2 séculos de antecedência, que o proletariado, o trabalhador, iria desaparecer e com isso a “consciência de classe” e a “luta de classes”, sendo um excedentário do sistema produtivo.

Mas serve este arrazoado para quê? Para melhor compreendermos o que se está a passar na nossa Europa. Com efeito, apesar de longe destas considerações teóricas, os cidadãos não estão a aguentar o seu empobrecimento e menos ainda porque os obrigam a isso, ao desmantelamento dos serviços sociais de saúde e de educação que a social-democracia lhes proporcionou outrora, nem a depauperação da Democracia Ocidental que deixou de os ouvir para se colocar ao lado das vontades do capital fiduciário.
Não está a aguentar, mas apesar de não compreender bem o que se está a passar, foge – a reacção dos eleitorados europeus é de fuga mesmo sem saber para onde!

A fuga do eleitorado dos partidos dominantes para outros partidos ou movimentos à margem do sistema é um comportamento, talvez não esclarecido, de dizer basta a esta política que não compreendem nem aceitam continuar a ser rejeitados na sua vontade. Se analisarmos o que está por trás da vontade manifestada no “brexit”, na revolta popular dos “gilets jaunes”, na votação em Itália, no esvaziamento dos partidos tradicionais franceses às mãos de um “messias” neoliberal, no descontentamento na Hungria após terem votado num candidato que tudo indicava que iria governar contra os cidadãos, trata-se do mesmo problema de base – os cidadãos querem fugir desta Europa, mas não sabem para onde!

Sabem o que não querem, mas não sabem o que querem! Sabem que querem trabalho, que querem emprego, que querem assistência na saúde e na reforma, que querem uma educação de nível superior para todos e que não estão dispostas a empobrecer mais sem uma perspectiva de esperança num futuro que justifique tamanho esforço!
Não peçam aos cidadãos que não têm emprego ou que, mesmo que o tenham não ganhem o suficiente para lhes tirar a perspectiva do empobrecimento e da pobreza, aceitem acolher e subsidiar migrantes com os seus impostos! Por muito que compreendam as razões da vinda dos migrantes, seja por fuga à guerra ou à fome, não se lhes pode pedir, neste quadro, que não tenham medo da chegada de mão-de-obra barata, para mais às suas expensas!

Sejamos claros, os atributos que o sistema propaga de populistas, de extremistas, de radicais, já não têm significado relevante para os cidadãos europeus que o que  pretendem é fugir do sistema, mesmo sem saber para onde, mesmo arriscando a fazer péssimas escolhas diante das alternativas que se lhes oferecem!
A história ensina-nos por todo o mundo que os pobres estão dispostos a aderir ao messianismo das revoluções proletárias e que a classe média prefere “ordem” ao caos das revoltas, sendo que, em ambos os casos, isso só quer dizer uma só coisa – ditadura!

Os cidadãos fugirão para as ditaduras seja de que matiz forem, enquanto os partidos do sistema continuarem a teimar estar de costas voltadas para eles, atribuindo as suas responsabilidades a tudo quanto possa aparecer de fora. Se assim continuarem, será o fim da Democracia e de fora os cidadãos os deixarão, com muita dor e sofrimento, em tempos que se prevêem muito escuros.

Comments

  1. João Paz says:

    “mas falhou redondamente na sua solução utópica de ditadura do proletariado que preconizou, uma vez que não conseguiu prever, com 2 séculos de antecedência, que o proletariado, o trabalhador, iria desaparecer e com isso a “consciência de classe” e a “luta de classes”, sendo um excedentário do sistema produtivo.” Será mesmo?

    • Rui Naldinho says:

      Parece-me que assim é. Ou não estivéssemos nós a ser substituídos por máquinas. A uma velocidade alucinante.
      Ainda ontem ouvia na TSF, sobre os nossos (deles) CTT, em parceria com a Siemens, desenvolveram um robot, já pensam no segundo, que manipula correio e encomendas postais até 12 quilos, susbstituindo vários operadores no circuito de separação e triagem das várias encomendas. https://insider.dn.pt/multimedia/robos-ctt-distribuir-correio/

      Reduziram de 68 para 44 o número de funcionários. E só está um robot a trabalhar. Admitindo que com o segundo robot a operar, o número de funcionários neste sector, desça para menos de metade.
      Neste contexto, a “luta de classes” será substituída por outra “dialética” qualquer, talvez não muito diferente, que não só o patrão e o trabalhador, no sentido clássico do termo.
      A ver vamos. Espero já cá não andar nessa altura.

      • Paulo Marques says:

        E o problema dos Luditas eram as máquinas… olhe que não, não falta trabalho. Cuidar das matas, manter pontes e cuidar de crianças a idosos são tarefas que não vai a lado nenhum, mesmo no tempo longínquo em que a inteligência artificial seja suficientemente útil (e provavelmente faça greves).
        Trata-se, como no século XIX, de uma escolha política de ignorar a sustentabilidade e a estabilidade a bem da acumulação, como bem avisou Adam Smith e muitos outros que vieram depois.

  2. Fernando says:

    O mesmo pode ser dito de muitos dos que votaram no Trump!

    Estavam fartos de lhes serem apresentados fantoches neoliberais como defensores do trabalhador e do progresso enquanto empobreciam.

    A culpa não é das CNNs que andaram (e andam) a promover guerras e agora ganham $$$ e audiências com Trump,
    não é do Partido Democrata e os seus fantoches de Wall Street,
    não é de Hillary Clinton, a tal que gosta de todas as guerras!
    A culpa dos problemas dos EUA e da Europa é do Putin…


  3. Bem haja por nos trazer á reflexão uma óptima abordagem de tema tão pertinente e obrigatório de dele termos séria consciência, Carlos A. Alves !
    Sobre esta ” Europa neoliberal da desindustrialização, das deslocalizações, da desvalorização interna, do desemprego em massa, dos reformados maltratados, da juventude sem horizonte, do velho mundo que se está a desmoronar… que as políticas predadoras neoliberais têm exercido sobre a população, … esta violência institucional que lança e ameaça lançar todos os dias para a margem da sociedade, franjas cada mais vastas da população, …homens e mulheres que adquiriram a consciência de pertença a classes despojadas pelo mesmo Estado que é a vaca leiteira das classes dominantes! “

  4. JgMenos says:

    Os delirantes adoradores de Marx sempre encontram motivos de lhe dar razão quanto aos desenvolvimentos do capitalismo a par de serem incapazes de lhe justificarem o socialismo.

    Por qualquer motivo indecifrável isso parece dar-lhes um elevado sentimento de realização intelectual.

    • ZE LOPES says:

      Os delirantes adoradores de Salazar sempre encontram motivos de lhe dar razão quanto aos desenvolvimentos do socialismo a par de serem incapazes de lhe justificarem o capitalismo.

      Por qualquer motivo decifrável isso não parece dar-lhes um elevado sentimento de realização intelectual.

      Gostou, ó Menos? Fui eu que inventei!

  5. Zacarias says:

    Melhor post dos ultimos meses num blog que se tornou uma newsletter do futebol clube do porto.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.