O princípio da igualdade como treta

O modo como a luta dos professores é comentada por uma mole de gente muito, pouco ou nada encartada merece algumas notas, mesmo se a distinção entre os vários tipos é difícil, tal é a ignorância, tantos são os preconceitos: no fundo, o que separa os encartados dos outros é o facto de que os primeiros são pagos para serem igualmente ignorantes.

Manuel Carvalho, o director do Público, regozijava-se, há pouco, na pele de comentador televisivo, com os recuos do PSD e do CDS no âmbito da recuperação do tempo de serviço dos professores. E regozijava-se porque a aceitação das reivindicações dos professores criaria desigualdades relativamente a outros trabalhadores, mesmo dentro da Função Pública.

Outros, diplomados em redes sociais, tão licenciados como Sócrates ou Relvas, acusam os professores de só se preocuparem com os problemas da sua própria classe, reclamando aquilo a que outros não têm direito, insensíveis diante dos dramas alheios. Esta reacção (porque não podemos chamar-lhe pensamento) estende-se a qualquer classe profissional que, de algum modo, proteste ou faça greve.

Vou confidenciar-vos algo da minha vida privada: já sofri várias entorses no mesmo pé. Peço antecipadamente perdão pelo meu egoísmo, pela minha insensibilidade, mas, naqueles momentos, estava tão concentrado na minha dor que não conseguia pensar, por exemplo, numa pessoa que tivesse partido as duas pernas. Mais: confesso que não pensava sequer em pensar.

Já que estamos nesta maré de confissões, que se lixe, cá vai mais uma: quando sei que outras classes profissionais que não a minha reclamam, nunca me passa pela cabeça que estejam também a pensar nos problemas daquela a que pertenço, porque – e isto pode parecer estranho! – as outras classes profissionais é que sabem dos problemas que as afectam. Fosse eu um desses portuguesinhos mentalmente diminuídos que comentam nas televisões ou aqui do Aventar e estaria a vociferar contra os enfermeiros por não terem lutado pelos meus direitos.

Mais ainda, que hoje é domingo, dia de promoções: aos meus colegas e compatriotas da Madeira e dos Açores está garantida a recuperação do tempo de serviço que me irá ser negada. Se eu fosse um desses exemplares de comentador lusitano, estaria revoltado por outros terem direito a algo que me está vedado. Estranhamente, Manuel Carvalho, tão preocupado com as possíveis desigualdades, não teve uma palavra sobre esta situação ou sobre a de outros funcionários da administração que recuperaram mais anos de serviço do que os professores do continente.

Há sete anos, escrevi o seguinte, descrevi o óbvio:

O portuguesinho é um português pequenino e isso vê-se não só pelo diminutivo. Uma das características do portuguesinho consiste em desvalorizar o sofrimento de quem sofre menos do que ele, o portuguesinho. O portuguesinho que fracturou ambas as pernas ri-se com desprezo daquele que geme a dor de ter partido apenas uma. Se o portuguesinho ganha quinhentos euros, nunca perceberá de que se queixa o outro que ganha seiscentos.

Não sei quantos portuguesinhos existem em Portugal, porque a sua existência é oscilante. Qualquer um de nós, por muito português que seja, passa por momentos em que é portuguesinho, invejando a infelicidade alheia, porque, vista daqui, até parece felicidade.

Agora, vou preparar umas aulas. Peço desculpa por não ir conduzir um autocarro, cozinhar num restaurante ou mudar o penso de um doente num hospital, mas só consigo pertencer a uma classe profissional de cada vez. De qualquer modo, agradeço os vossos cuidados.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    O país está cheio de portuguesinhos.
    Vou imaginar-me há trinta e poucos anos, acabado de me licenciar num curso de Matemáticas, com estágio integrado para lecionar a disciplina, no ensino secundário, tendo efectivado numa das escolas do distrito do Porto, Aveiro ou Braga.
    Queimei dezenas de fusíveis na minha caixa córnea, “para não ter azares”. Com algum esforço, tirei uma nota razoável, no final. Acabei colocado no Continente, como relativamente perto da minha área de residência. Sinto-me recompensado e ao mesmo tempo aliviado.
    No mesmo curso éramos vários. Um colega, bom rapaz mas mais namoradeiro do que eu, gostava mais de laurear a pevide, conclui o curso na mesma área, mas com uma nota final menos generosa. Só consegue colocação nas ilhas. Ali efectiva, numa escola secundária. Entretanto, decide ficar por aquelas bandas. Escolhe outra namorada, casa e fixa-se definitivamente na região.
    Trinta e tal anos depois, a vida demonstra-te pela enésima vez, que o importante é mesmo estar no sítio certo à hora certa, e não fazer o que está certo.
    Em breve o rapaz terá a reposição de todo o seu tempo de serviço, e eu , o burro, acabarei a pensar como o Sr. Scolari!
    – Por que razão não casei eu com uma ilhéu?

  2. Julio Rolo Santos says:

    E eu pergunto, porque é que todos os funcionários públicos, aposentados e reformados que os fizeram marcar passo no tempo, em que Passos Coelho, querendo ser mais troikista do que a troika, lhes cortou no salário, na aposentação ou na reforma, e nada disso foi reposto, acompanhando a mesma lógica dos professores? Todos dão o seu melhor no desempenho das suas funções, uns progridem nas carreiras sujeitando-se á prestação de provas de avaliação no seu percurso profissional, outros progridem nas carreiras bastando-lhes completar anos de serviço para subirem á categoria ou escalão imediato, não sei se este é o caso dos professores. Em qualquer circunstância, a esta primeira aprovação no parlamento e pelas posições demagógicas vindas a público transmitidas pelos vários grupos parlamentares á posteriori, parece não vir a ter o mesmo sentido de voto, aquando da votação final na especialidade, com o argumento de que o seu compromisso é apenas com o seu projeto é não com o dos outros. Desta feita, parece ficar tudo igual ao outro.

    • António Fernando Nabais says:

      Tinha-me esquecido de outra manifestação do “portuguesinhismo”: consiste em dizer que, por não se ter protestado no passado, já não se tem o direito a protestar no presente. É como nos casamentos: falem agora ou calem-se para sempre. Obrigado, Júlio, por ser tão portuguesinho.

    • Ricardo Ferreira Pinto says:

      Devia estar mais bem informado. A esmagadora maioria dos funcionários públicos viu ser recuperado TODO o tempo de serviço que esteve congelado. TODO! Se há discriminação, é contra os professores

  3. Julio Rolo Santos says:

    Fiquei sem saber como se faz a progressão na carreira dos docentes. Não sou portuguesinho no sentido prejurativo que lhe quer dar, apenas sou contra os argumentos de quem quer subir na vida, espezinhando os restantes ou, se quiser, passando por cima de toda a folha.

    • António Fernando Nabais says:

      Sim, Júlio, apanhou-me outra vez: os professores, a começar por mim, só pensam em subir na vida, espezinhando os outros e passando por cima de toda a folha.

    • Carlos Almeida says:

      Boa
      Gostei desta:
      ” sou contra os argumentos de quem quer subir na vida, espezinhando os restantes ou, se quiser, passando por cima de toda a folha.”

      Nunca tinha lido um argumento tão esclarecedor.
      Os meus parabéns, Sr Júlio Santos.
      Contacte urgentemente a Sr Dr Cristas, que ela está a precisar de conselheiros como o senhor


  4. Sou um “portuguesinho” péssimo a matemática.
    Se a medida em questão implicava para o País uma despesa de cerca de 600 milhões de euros/ano qual era o custo/ano para cada português?
    Agradeço a ajuda dos professores que já comentaram este assunto.

    • António Fernando Nabais says:

      A Matemática, então, sou a loura burra das anedotas. Sou uma pessoa simples: se devo alguma coisa a alguém, pago. Que sentido faria eu, devedor, compor um ar indignado e perguntar ao devedor: “Então, agora, tenho de lhe pagar?”
      Para saber quanto é a despesa, se quiser mesmo saber, não vá muito pelos números inventados por Mário Centeno. Aconselho-lhe a leitura de um artigo do Pedro Sousa Tavares, no DN.

  5. Luís Lavoura says:

    aos meus colegas e compatriotas da Madeira e dos Açores está garantida a recuperação do tempo de serviço que me irá ser negada

    Esses seus colegas têm uma entidade patronal diferente da sua. Tal e qual como os seus colegas e compatriotas que são professores no ensino privado também têm entidades patronais diferentes da sua. Cada entidade patronal tem (ou deixa de ter) os seus problemas financeiros e, de acordo com eles, aceita ou não aceita dar aos seus funcionários certas benesses.

    É simplicíssimo: entidades patronais diferentes significam condições de trabalho e de remuneração diferentes. Não há qualquer razão para que os professores do Continente, da Madeira, e dos Açores devam ususfruir das mesmas benesses.

    (Aliás, se fosse a Direita a mandar, mesmo em diferentes escolas do Continente os professores teriam benesses diferentes, em vez de serem pagos todos da mesma forma como são.)

    • Nascimento says:

      Olha lá ó merdoso ” benesses” dava-te era eu num sitio que eu cá sei. O tempo de trabalho REALIZADO é uma BENESSE’?QUE F. DA P… e eu que pensava que benesses era contar 20 anos para a REFORMA na CGD e só lá trabalhar EFECTIVAMENTE 2 ! Sabes quem foi ? Um teu barrasco chamado MIRA AMARAL! Queres mais exemplos de “BENESSES” MEU MONTE DE MERDA? E não, não sou professor, nem nunca trabalhei na e para a FUNÇÃO PUBLICA! Só que peçonhentos como tu dão NOJO.Cheiram mal , são rançosos ( bem educadinhos , claro, como convêm, que os tempos são de ” democracia” …) da treta. Só ao estalo.

    • Paulo Marques says:

      Se não há razão, então porque é que não se reflecte isso na lei invés de se aplicar a mesma à medida das sondagens?
      Depois a culpa de ninguém respeitar o estado de direito é dos outros, claro.

    • António Fernando Nabais says:

      Luís, louvo-lhe o descaramento de comentar sem saber o que diz. Não é para qualquer um.
      Os meus colegas da Madeira e dos Açores recuperarão o tempo de serviço. Se resolverem concorrer para o continente (porque têm a mesma entidade patronal, veja lá!), passarão à frente de um colega que estivesse nas mesmas condições no continente. Isto pode acabar em tribunal, mas, quando for resolvido, já não fará efeitos. Chama-se desigualdade, Nada disso, no entanto, me faz desejar, como já escrevi, que lhes seja retirado aquilo que não me será concedido. Para não ficar preocupado comigo, fique a saber que, no meio disto tudo, sou um privilegiado do penúltimo escalão. Tenho colegas com menos cinco ou dez anos de serviço que continuam na condição de contratados, obrigados a fazer quilómetros todos os dias ou a arrendar quartos longe da família, para quem a justa reposição do tempo de serviço significaria uma vida um pouco mais digna.
      Os meus colegas no ensino privado são, de longe, mais explorados do que eu, o que é uma enorme injustiça, mesmo sendo eu um rinoceronte de insensibilidade.
      Chamar benesses a direitos é giríssimo.
      O seu parêntesis deve ser para rir à gargalhada, a não ser que me diga que a Direita nunca mandou em Portugal, o que seria caso para sufocar de riso.

  6. Luís Lavoura says:

    É evidente que o princípio da igualdade é uma treta: se você trabalhar numa multinacional ou numa empresa de vão-de-escada, o seu salário e as suas condições de trabalho serão muito diferentes. Obviamente. O seu salário e as suas condições de trabalho dependem, crucialmente, não somente daquilo que você faz mas também de quem é o seu empregador.

    • António Fernando Nabais says:

      Se a igualdade é uma treta, não deveria ser usada como argumento.

    • Paulo Marques says:

      Pior, o salário e as condições de trabalho dependem de que leis se quer respeitar a cada momento.


  7. Cabe a cada um lutar por aquilo que considera serem os seus direitos.
    E não são apenas os professores quem o faz.
    A propósito, meus senhores é melhor irem atestar porque agora são outros a lutar.

    https://www.dn.pt/dinheiro/interior/trabalhadores-da-central-de-cervejas-em-greve-por-melhores-salarios-e-carreira-10866603.html

    • Nascimento says:

      Abençoada postada… vá , todos a atestar…eheheheheh

    • Luís Lavoura says:

      Ora bem, aqui está uma greve que dá gosto: uma greve numa indústria concorrencial.
      Os trabalhadores da Central de Cervejas fazem greve sabendo que isso prejudica diretamente o seu patrão, uma vez que o consumo será transferido para empresas concorrentes (para a União Cervejeira, ou eventualmente para cervejas importadas).
      Não é como os trabalhadores da Função Pública que fazem greve sabendo que os “consumidores” não têm forma de se eximir aos prejuízos, dado que não há concorrência nos setores em que fazem greve.

      • António Fernando Nabais says:

        Os trabalhadores da Função Pública são feios, porcos e maus.


      • Que quem lhe diz que os trabalhadores das outras distribuidoras, que não são muitas, não decidem fazer greve também eles?
        Olhe que os motoristas de transportes perigosos não trabalhavam todos para o mesmo patrão.
        Acha mesmo que uma greve dessas só prejudica o empregador? Quer dizer que não gosta de cerveja, nem sequer de suminhos?

  8. Julio Rolo Santos says:

    Devido á minha ignorância na matéria, Continuo a desconhecer como se fazem as progressões na carreira dos docentes. Ajude-me PF Senhor Antônio Fernando ou alguém entendido na matéria. Quanto às Regiões Autónomas aplicarem otempo integral (?) aos seus docentes em contraciclo com o Continente, isso deve-se á sua autonomia embora se reconheça que tal decisão vai ter implicações no reforço das transferências de verbas do Continente para as Regiões Autónomas para cobrir essa diferença de tratamento.

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