E dizem-se democratas

Está fácil de ver que a solução apresentada pelo Governo para “achatar a curva”, é limitar-nos a liberdade.

Isto quando a curva chegou onde chegou, e o SNS abeirou-se da ruptura, porque o Governo não fez o que lhe competia e permitiu o que não devia.

Milhões terão de ficar em casa, para que umas dezenas de milhar pudessem fazer aquilo que queriam.

Milhões terão de ficar em casa, porque a economia tinha que trabalhar, ao ponto dos hotéis poderem exibir o selo “Clean & Safe” com base em mera declaração de compromisso dos donos, e não numa efectiva avaliação técnica. E as praias tinham semáforos, mas se estivesse vermelho, podia-se ir na mesma.

Não houve uma única campanha nacional de sensibilização digna desse nome. Num país em que constantemente se juntam cantores, actores e afins, em campanhas solidárias. Algo para o que esta pandemia, pelos vistos, não teve dignidade suficiente.

Só tivemos direito às constantes conferências de imprensa a debitar números, por entre disparates que uma DGS, claramente inapta para o cargo, lá ia dizendo por entre a estatística.

Ficam na memória as máscaras que davam uma falsa sensação de segurança, e a desnecessidade de distanciamento nos aviões porque as pessoas vão a olhar para a frente.

O SNS está à beira da ruptura, porque, contrariando os apelos dos médicos que estavam no terreno, o Governo não aproveitou a Primavera e o Verão para reforçar os hospitais com recursos humanos nas valências mais sensíveis como a dos cuidados intensivos.

Descurou a segunda vaga, que há meses que a comunidade científica, nacional e internacional, avisou que ia chegar. Mas que pelo vistos o PM nunca ouviu falar, a avaliar pela entrevista que hoje deu a Miguel Sousa Tavares.

Ao contrário, foi-se pelo mais barato: mandar sms para quem tinha consultas agendadas, a desmarcar e a dizer para não ir ao hospital nem sequer telefonar. E, mais tarde umas sms a disponibilizar apoio psicológico gratuito. Enquanto consultas, rastreios, tratamentos e cirurgias eram desmarcados por todo o país.

Ao longo do tempo, as instituições hospitalares foram abandonando os doentes que não eram Covid. Pois era impossível acudir a todos de modo igual. Isto, num país em que, em média, morrem mais de 90 pessoas por dia devido a motivos cardiovasculares (dados de 2017).

Tudo junto, temos um aumento exponencial de mortos.

O PR, como sempre, ajudou à propaganda do Governo, insistindo que não havia stress no SNS.

Isto, quando a única experiência que tem do SNS como PR é ter o Hospital de São Marcos em Braga a postos para acudir a sua Excelência que se tinha sentido mal na Basílica do Bom Jesus. E, recentemente, para fazer um striptease para todo o país, à custa de tomar a vacina da gripe.

A mesma vacina de que estou, como tantos portugueses, à espera há semanas, porque a farmácia só recebeu 10% do que encomendou. Ao mesmo tempo que a propaganda Governo/PR afirma que iremos ter 7 milhões e 900 mil vacinas Covid-19. Quando o Governo nem a vacina da gripe garante a tempo e horas.

Entretanto, fez-se notícia de investimento no SNS: um plano de contratação de mais meios humanos até 2022!

O Governo cuidou, pois, de ser muito poupadinho, excepto nos milhões de euros que pagou aos chineses (grupo Fosun incluído) para compra de material e afins. Não haverá gente, mas temos material. Dizem.

Foram milhões pagos com o dinheiro daqueles que agora não poderão sair de casa. Daqueles que vão fechar o seu comércio, o seu restaurante, o seu alojamento. Daqueles que não podem visitar os pais ou os avós ao fim-de-semana, porque aí é que as pessoas se contagiam. Não é nos metros, autocarros ou comboios urbanos apinhados. Como não foi no Autódromo do Algarve. Nada disso.

O perigo está nas visitas. Algo que deve estar provado pela mesma equipa que elaborou um “estudo preliminar” que associou o aumento de mortes em Portugal – mais 5 mil – em relação aos últimos 5 anos, não à deficiência dos cuidados de saúde, mas ao calor.

Vivemos sob a égide de uma coligação Governo/PR assente em constante propaganda. Juntamente com uma Oposição frouxa, e com medo que o Governo caia, porque ninguém quer ser PM nas actuais circunstâncias. Rui Rio incluído.

Temos um Governo que supre a sua incompetência, à custa da nossa liberdade. Que desculpa o estado a que chegamos, com o comportamento das pessoas, como se fosse exemplo de alguma coisa melhor.

Fosse este Governo de Direita, e era fascista. Como não é, está só a fazer o que pode em nome do Natal.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Fosse de direita, não se notava a diferença. O que interessa era ter bons números para virem os bifes salvar as empresas certas, para agora se negociar bons preços com os hospitais privados. Os locais que trabalhem.
    Mas não se engane, não havia reforço que chegasse, mudava-se era as datas. Ou isso ou há algum país (que não seja uma ilha isolada do pacífico) sem restrições com sucesso que eu não saiba.

  2. Filipe Bastos says:

    Todas as críticas do post são justas. É verdade que se fosse o governo de Passos a fazer isto, ou metade disto, os berros da esquerda já se ouviam em Júpiter.

    Por outro lado, é também verdade que o governo seria sempre criticado fizesse o que fizesse. Como disse o Paulo, nenhum governo europeu sai muito melhor disto.

    O problema de fundo não é português, é mundial: temos as prioridades trocadas. A economia, a saúde, a submissão a mamões e ‘mercados’, tudo isto precisa de uma grande volta.

  3. R SANTOS says:

    Conversa da treta bem ao geito dos populistas que se julgam unicos representantes do “povo”. Como seria, com a crise e as soluções, se tivessemos o contabilista da Saude, aquele que cortou na saude o dobro que lhe foi exigido pela troika,a enfrentar esta pandemia.

  4. Pantomineiro-mor says:

    Se fosse o contabilista haveria dinheiro à tripa forra para os amigos dos hospitais privados e mais cortes para os hospitais públicos… oportunidade justa (kairós) para dar a “facada final” no SNS!

  5. Luís Lavoura says:

    a solução apresentada pelo Governo para “achatar a curva”, é limitar-nos a liberdade

    Grande novidade! Em abril foi a mesma coisa. Aliás, foi bem pior.

  6. Luís Lavoura says:

    Milhões terão de ficar em casa, para que umas dezenas de milhar pudessem fazer aquilo que queriam

    Disparate. Milhões terão que ficar em casa, e milhões puderam durante o verão fazer aquilo que queriam. Eu durante o verão fui à praia e fiz toda a minha vida à vontade. Toda a gente durante o verão teve toda a liberdade. Não foram somente dezenas de milhares.

    • J. Mário Teixeira says:

      Disparate é não perceber que me referia, por exemplo, ao que se passou no Autódromo do Algarve, como faço referência no final do texto.

      • Luís Lavoura says:

        O que se passou no Autódromo do Algarve foi somente um mini-fenómeno, sem qualquer importância determinante para a evolução da epidemia. Não é devido ao que lá se passou, nem ao que se passou nutros sítios, que a epidemia está a progredir. Não é devido a todos esses mini-fenómenos que agora ficamos outra vez confinados. Tal como não é devido a eu, e muitíssima outra gente, ter ido à praia no verão.

  7. José Leião says:

    Ao que o Aventar já chegou…
    Parece conversa de participantes do Big Brother.

  8. Rui Naldinho says:

    « Vivemos sob a égide de uma coligação Governo/PR assente em constante propaganda. Juntamente com uma Oposição frouxa, e com medo que o Governo caia, porque ninguém quer ser PM nas actuais circunstâncias. Rui Rio incluído.”

    Cada vez estou mais de acordo com as prosas do J. Mário Teixeira, está incluído. Este parágrafo acerta mesmo na mouche.

  9. Luís Lavoura says:

    É preciso ver que as epidemias são fenómenos naturais que se encontram em grande medida para lá das capacidades de intervenção humana.
    Ou seja, a atuação dos seres humanos dificilmente pode alterar muito o seu curso, nem para pior, nem para melhor.
    No verão as epidemias de doenças respiratórias desaparecem, e no outono e inverno voltam a aparecer, independentemente daquilo que os seres humanos façam ou deixem de fazer.
    Não devemos portanto entrar num jogo de culpabilização.

  10. Homem Man says:

    “Está fácil de ver que a solução apresentada pelo Governo para “achatar a curva”, é limitar-nos a liberdade.

    Milhões terão de ficar em casa, para que umas dezenas de milhar pudessem fazer aquilo que queriam.”

    Sou só eu, ou entre a primeira e a terceira linha o autor contradiz-se e diz ao que vem? Fica chateado de ‘… limitar-nos a liberdade.’, mas depois aborrece-se por alguns’… pudessem fazer aquilo que queriam.’ Decida-se, homem!

  11. Júlio Rolo Santos says:

    Criticar é fácil e hoje há muitos papagaios a fazê-lo culpando os governantes de todos os males que estão a acontecer só porque o partido do governo não é o seu. Um partido, como o chega, talvez resolvesse o problema enjaulando todos aqueles que participavam em festas de arromba disseminando o vírus sem se importarem com as consequências. E, isto, o autor do post não crítica, porquê?

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