Quanto tempo deve demorar uma consulta?!

cronometro-300x300O facto de se estar a discutir quanto tempo deve demorar uma consulta médica é, só por si, um péssimo sinal, um de muitos que indicam retrocesso no que se refere aos direitos mais básicos, tudo porque o mundo está dominado pelo gestor-economista-empreendedor-consultor, esse sábio global que tudo ordena sabendo nada e sem a consciência de que nada sabe. É esta mentalidade simplista que reduz o mundo a folhas de cálculos, competitividade, estatísticas e rankings, tudo em nome de um liberalismo, no fundo, muito controlador.

Uma das grandes lutas do século consistirá em recuperar a autonomia das várias áreas de actividade. Um hospital é um hospital é um hospital, uma escola é uma escola é uma escola e uma pessoa é uma é uma pessoa. Se qualquer profissional é competente e sensato até prova em contrário, o tempo de uma consulta médica deve depender de um médico e nunca de uma besta quadrada com um cronómetro na mão.

Fala que eu escuto

Foto: Supercalli

Gosto daquela ideia do café para solitários, ali entre a Carson McCullers e o Tom Waits, balada do café triste encontra o coração de sábado à noite, qualquer coisa por essas redondezas. Cafés com um monólogo em cada mesa, e nos quais nasce – é esse o milagre dessas peculiares igrejas que são os cafés – num arrebato da polifonia, um diálogo, improvável diálogo entre muitas almas que vão falando consigo mesmas. De uma mesa para outra pode lançar-se uma ponte, alinhavar conspirações, começar namoros, descobrir parentescos desconhecidos, qualquer coisa. Para a conversa acabar, é só levantar-se, deixar a moeda sobre o tampo e ir embora, sem mais remorso.

Antigamente, qualquer um podia ir ao café pôr a cabeça em ordem, ver gente, meter conversa, comentar as notícias, confessar mágoas, embebedar-se ou curar a ressaca. Sentavas-te sozinho e acabavas a ouvir os poemas do Rui, a preencher o IRS da velhota que se tinha esquecido dos óculos em casa, ou a meter água na fervura de uma discussão conjugal, a ajudar a jovem mãe a dar o iogurte ao catraio, ou simplesmente a ouvir a história da pessoa do lado, sem preâmbulos nem porquês. [Read more…]

Mais um a sair do armário

Depois dos anteriores a quem lhes bastou dois dias depois das eleições para descobrirem que, afinal, não vivíamos no idílio, eis que agora é o Observatório da Saúde que alerta para as ditas taxas moderadoras serem co-pagamentos e para os enormes tempos de espera por certas consultas. Vamos ver quem se lhes seguirá.