Odemira – pandemia e ignomínia

Odemira foi um dos Concelhos que regrediu no Plano de Desconfinamento por decisão do governo, apoiado no aumento da percentagem de infectados e no risco de transmissão do vírus. Visto de Lisboa parece não haver nada a fazer senão cumprir com o plano anunciado.
O que quem lá vive vê é que nesta época de apanha da azeitona os proprietários dos olivais recorrem ao trabalho sazonal de imigrantes de todas as origens, muitos deles ilegais, alojando-os aos 10, 20 ou 30 em pequenos espaços sem condições sanitárias mínima! Para mais, estes trabalhadores sem contrato e pagos por muito pouco, são transportados ao ‘molho’ das plantações para casa e vice-versa.

Como resolve o poder central este problema? Com o Estado de Emergência ou com o que aí vem de Calamidade e com a regressão no Plano de Desconfinamento!
Como resolve o poder local? Com indignação face à regressão imposta pelo poder central e com mais uns cobres atirados para um “Fundo Municipal de Emergência”!
Tratar de proibir as condições em que aqueles desgraçados são “obrigados” a trabalhar e a viver é que não ocorreu a nenhum poder, nem sequer impor o seu melhoramento e, francamente, não é crível que venha a acontecer a “bem” da economia e da competitividade sustentadas no preço de mão-de-obra quase escrava.
E assim vamos indo, com desprezo social por quem nunca deixou de trabalhar presencialmente durante a pandemia, nem sequer através de num simulacro de prioridade no processo de vacinação.
São estes os poderes, autárquicos e centrais, que não conseguem ou não querem enxergar a ignomínia em que ainda vivem em Portugal centenas de milhar de pessoas, na pobreza ou em trânsito acelerado para ela.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Belo artigo, Carlos.
    Este governo em matérias como as Condições de Trabalho (Higiene e Segurança no Trabalho, cumprimento dos ACT), isto mesmo antes da pandemia, nesta altura então mais empenho deveria ter, tomando como prioridade uma maior e melhor vigilância e incidência das ações de fiscalização em empresas de determinados sectores de actividade, com contratação sazonal, precisamente pelo facto de terem muitos precários, muitos imigrantes, uma boa parte deles ilegais, fez rigorosamente o contrário, marimbando-se para o assunto. Fez o mesmo que o governo do Dr. Passos Coelho. Varreu o problema para debaixo do tapete.
    Assim é difícil conseguir acabar com esta pandemia.

    • Luís Lavoura says:

      Este governo em matérias como as Condições de Trabalho

      Neste post não se referem as condições de trabalho. Referem-se as condições de alojamento e transporte dos trabalhadores. São coisas bastante diferentes. A forma como os trabalhadores se alojam é assunto privado deles.

      • Paulo Marques says:

        lol. Não é possível ser tão ingénuo de não saber que as condições de alojamento fazem parte do contracto (explícito ou não) de trabalho. Ainda por cima quando não há sequer casas para todos.

  2. Sálvio Dores says:

    Quanto ao resto não me pronuncio mas a época da apanha da azeitona é lá para Outubro/Novembro.

    • Rui Naldinho says:

      O texto em cima pode não estar de acordo com a época agrícola da apanha da azeitona. Há de facto um desfasamento. Nesta altura apanham-se acima de tudo frutos. Da framboesa à pera rocha. A seguir vem a cereja, lá para Maio, se bem que noutras regiões. Só que o problema dos contágios em Odemira e outros concelhos alentejanos e algarvios, essencialmente agrícolas, não vem de há dois meses. Vem de longa data, se considerarmos o contexto da pandemia. Já no ano passado, na época da apanha da azeitona, que decorre, conforme as regiões, de Outubro a Dezembro, antigamente até Janeiro, e dependendo se é azeitona para conserva ou para produção de azeite, estas situações se colocavam. Se bem me recordo, no Algarve, um surto dez Covid 19 surgiu numa comunidade imigrante a trabalhar na agricultura.
      Mas podíamos ir para a Construção Civil, outra das actividades onde a imigração tem o seu desempenho profissional, muitos deles ilegais, que as situações são similares.
      Tudo isto não se torna ainda mais drástico, porque esta gente trabalha ao ar livre, maioria das vezes, vivem em guetos semi isolados, sendo os contágios com os locais, feitos nas poucas idas à vila.
      Ora, segundo li, o “autor do texto não pretende introduzir a pedagogia da apanha da azeitona”, talvez mais a de que o Estado seja uma pessoa de bem, cumprindo as suas obrigações legais, sanitárias e até morais.

      • Luís Lavoura says:

        o Estado seja uma pessoa de bem, cumprindo as suas obrigações legais, sanitárias e até morais

        Quais obrigações? O Estado português tem alguma obrigação de providenciar alojamento de qualidade a trabalhadores migrantes? Quando nem sequer aos nacionais providencia tal coisa?

        Desde sempre, em toda a parte do mundo, trabalhadores migrantes habitaram em condições pobres e insalubres, em grande parte também por opção dos próprios, que estão em geral mais interessados em poupar dinheiro do que em despendê-lo numa casa e qualidade. Isto aconteceu em toda a parte do mundo, inclusivamente a migrantes portugueses.

        Desde quando tem o Estado a obrigação de intervir para fornecer habitação de qualidade aos trabalhadores migrantes?

        • Rui Naldinho says:

          O Estado Português decreta um estado de emergência, restringe liberdades e direitos aos seus cidadãos, obriga-os a andar de máscara nas ruas, caso contrário multa-os, obriga-os a fazer testes caso tenham indícios de infeção, e a dar indicação dos contactos nas últimas 72 horas, mas você acha que em relação aos imigrantes, nada tem a fazer.
          A ser como insinua, o que andam nos últimos dias a fazer os inspectores da Autoridade para as Condições de Trabalho, nessa explorações agrícolas?
          A apanhar banhos de Sol?
          Acresce que muitos destes trabalhadores são ilegais.
          Acresce que quando não há condições de salubridade nas habitações, há um delegado de saúde, com competência para fazer um relatório sobre essas carências. Isto até para os bairros camarários e aquelas aldeias clandestinas como o bairro da Jamaica, por exemplo. Quanto mais nestas casos.
          Essa ideia peregrina de que o Estado não tem responsabilidades nestas matérias, demonstra bem o fervor liberal que lhe vai na alma. Mas também mostra um certo caráter.

  3. Luís Lavoura says:

    nesta época de apanha da azeitona

    !!!

    Eu já apanhei azeitonas no Douro. Faz-se em dezembro. Conheço quem tenha azeitonas na Beira Baixa, e apanha-as em novembro. Em Odemira, que é bastante mais quente, a azeitona talvez se apanhe ainda mais cedo, em outubro ou coisa assim. Em abril é que não se apanham de certeza!

  4. Luís Lavoura says:

    Em todos os países, em todo o lado, trabalhadores sazonais são alojados em condições de alguma sobrelotação. Não faz grande mal, dado que eles apenas vão a casa para dormir, e eventualmente para cozinhar alguma refeição.
    É disparatado o autor queixar-se, neste post, de que trabalhadores sazonais, que se encontram sem família e que basicamente querem trabalhar o maior número de horas possível para poderem regressar aos seus países bem abonados, habitam em condições sobrelotadas. Eles querem lá saber da sobrelotação!

    • António Fernando Nabais says:

      Ainda bem que o Luís sabe de certeza certa que os trabalhadores explorados não querem saber da sobrelotação. Imaginemos que não querem mesmo saber: isso dá a alguém o direito de os explorar ou de não lhes proporcionar alojamento condigno? Na opinião do Luís, acredito que sim, o que diz muito sobre o Luís.

      • Luís Lavoura says:

        isso dá a alguém o direito de os explorar ou de não lhes proporcionar alojamento condigno?

        Como sabe que os trabalhadores são explorados? Provavelmente recebem o salário mínimo, é verdade. Isso é exploração?

        Quanto a alojamento, isso é algo que diz respeito ao próprio. Nenhum patrão é obrigado a fornecer alojamento ao trabalhador. Fá-lo no seu próprio interesse.

        Eu já no passado distante trabalhei na apanha da fruta em Inglaterra e na vindima em França. Fiquei alojado em camaratas coletivas, como os restantes trabalhadores (os quais, em França, eram franceses). Não fiquei em instalações de luxo, mas não tenho nada de que me queixar. Não acredito que os trabalhadores migrantes em Odemira estejam muito pior.

    • POIS! says:

      Ora pois!

      Não é por acaso que o Sr. Lavoura é mais conhecido pelo Dr. Pangloss do capitalismo liberal globalizado.

  5. Tal & Qual says:

    Democraticamente falando, alguém obriga os trabalhadores a virem para cá, para apanharem azeitonas em Abril ? Nesta altura do ano quanto muito podem apanhar gambozinos…

  6. Carlos Araújo Alves says:

    Relativamente à época de apanha da azeitone têm o Sálvio Dores e o Luís Lavoura toda a razão e, pela minha desatenção, peço desculpa. Com efeito, em todo o Portugal Continental a apanha da azeitona varia entre inícios de Novembro e Fevereiro, consoante as regiões e dependendo do seu destino, se para comer, se para produzir azeite.

    No entanto, os imigrantes trabalhadores sazonais instalados por todo o ano no Alentejo são já cerca de 70% da mão-de-obra agrícola.

    Porque são necessários todo o ano no Sudoeste alentejano? Porque toda a região foi tomada pela agricultura intensiva de olival e de estufa, sendo que a produção de frutos vermelhos é hoje a predominante.

    As condições desumanas a que esses trabalhadores se submetem durante todo o ano são idênticas para qualquer trabalho agrícola, de estufa ou de colheita de azeitona.

    Por último, é verdade que a maioria dos contágios no Concelho de Odemira se deu entre esses trabalhadores e estes transmitiram a outros habitantes, particularmente, no convívio nas tabernas, segundo dados da ARS Alentejo.

    Sobre o que tem vindo a acontecer na mudança do perfil do trabalhador agrícola no Sudoeste deixo link para estudo “Os Novos Trabalhadores Rurais do Alentejo: entre a esperança e a discriminação “:

    https://shifter.sapo.pt/2019/07/novos-trabalhadores-rurais-do-alentejo

    • Luís Lavoura says:

      os imigrantes trabalhadores sazonais instalados por todo o ano no Alentejo são já cerca de 70% da mão-de-obra agrícola

      Ainda bem que no Alentejo (e não só: também há muitos trabalhadores agrícolas sazonais nas estufas do Norte) há tanto trabalho para tanta gente. É sabido que o Alentejo tem mais velhotes que pessoas em idade ativa. É pois normal que 70% do trabalho seja feito por migrantes.

      As condições desumanas a que esses trabalhadores se submetem

      Quais condições desumanas? Não têm água para se lavar? Não têm eletricidade para se iluminar? Não têm um fogão para cozinhar? Provavelmente têm tudo isso. Têm, de facto, provavelmente condições de habitação muito melhores do que nos países de onde são originários.

      Está certo que dormem em camaratas ou casas coletivas, mas isso não é desumano.

      Lá por agora ter havido uma epidemia, isso não é razão para nos pormos muito esquisitos, a dizer que as pessoas não devem estar em alojamentos coletivos, que lhes devem ser fornecidos quartos individuais.

      Eu já trabalhei como migrante no estrangeiro, quando era jovem, e fiquei alojado coletivamente. E não me queixei, pelo contrário, até acho que fiquei bastante bem.

  7. francis says:

    tambem no mundo dos transportes ( passageiros e carga ) se passa uma escravidão e exploração desmedida e ficalizações do ACT para pôr os patrões na ordem…..ZERO


  8. Cada país vende o que tem. Portugal vende sol e água para cultivo de espécies que não medram noutros climas.
    Não creio que os trabalhadores rurais portugueses tenham tratamento diferenciado dos estrangeiros. O problema é que os estrangeiros não dão 200€/mês por um quarto confortável. Querem levar esse dinheiro para casa quando regressarem.
    Alguns portugueses, pela mesma razão, viveram anos em bidonvilles.

    Se o Ministério do Trabalho alguma vez vier a ter um bom serviço de inspeção do trabalho, terá muito trabalho pela frente antes de chegar ao Alentejo… de norte para sul…

    • Paulo Marques says:

      Não dão, mas também não ganham, e por alguma razão são escolhidos. E por alguma razão não é assim tão raro ouvir também de escravos portugueses pela europa fora.

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