Manipulação e hipocrisia

“Deus sabe” o que estas situações com crianças me alteram. “Deus sabe” o contente que vou ficar quando retirarem Rayan daquele poço.

Mas ligar a televisão e ver todos os canais informativos permanentemente em directo, a noticiarem rigorosamente “nada” e com dezenas de “especialistas” em “vá-se lá saber o quê” (género o que têm feito desde há 2 anos com a pandemia) a debitarem superficialidades, diz muito mais acerca das intenções manipuladoras dos órgãos de comunicação social que propriamente acerca da terrivel situação em que se encontra o pequeno Rayan. E já agora também acerca da bovinidade hipócrita das suas audiências.

Nestas horas que tem durado o salvamento da criança marroquina, morreram no mundo milhares, repito, milhares de crianças por causa da fome, do frio, da doença ou da guerra. Por exemplo, nesse período, só a catástrofe humanitária no Afeganistão deu, infelizmente, ao mundo dezenas de pequenos mártires cujo sofrimento avassalador foi, é e será total e completamente desprezado pelos jornalistas e pelo resto da humanidade.

Portanto não é seguramente pela generosidade do nosso carácter que a situação do pequeno Rayan está a despertar tanto interesse porque se fosse essa a real motivação, seria inimaginável o nível de preocupação que outras situações muito, mas mesmo muito mais graves, gerariam.

O que hipócrita e absurdamente está aqui em causa é a certeza por parte das televisões que o circo mediático que elas próprias criaram, vai ter as audiências pretendidas. E esta é, desde logo, uma perversão que define o jornalismo dos nossos dias: a informação que se transmite e a grandiosidade com que é transmitida dependem não propriamente do que realmente está em causa, mas sim do interesse que vai suscitar. Mesmo que esse interesse tenha de ser fabricado ou exponencialmente aumentado.

Já da parte dos espectadores, os motivos para alinharem nesta quase “maquinação” são ainda mais pérfidos: acharem que conseguem acalmar as suas “negras” consciências se se interessarem (muito) por esta tragédia. Acharem que a tentação de se colarem ao televisor para acompanharem microsegundo a microsegundo o que se está a passar, os definirá como pessoas bondosas, interessadas, socialmente responsáveis, quase uns “activistas” do bem.

Que o pequeno Rayan se salve rápida e sem mais problemas e que o resto do mundo vá “à merd…”, é o meu mais sincero desejo.

Comments

  1. POIS! says:

    Pois.

    Deus existe. Osório também.

    E eu, pecador, já não me sinto nada bem.

  2. Paulo Marques says:

    Gosto de ver liberachos a criticarem o mercado livre. É bonito. Ainda por cima, desta vez não há um génio a sugerir uma solução mágica em forma de dildo, como em 2011, para apimentar a coisa.
    O que vale é que ainda há quem faça trabalho a sério e minere mais um indicador a provar que a vida corre bem na Roménia, um país a sério.
    Se ainda fosse possível desligar a televisão, mas o raio da ditadura socialista não deixa!

  3. Filipe Bastos says:

    O Osório aponta dois paradoxos:
    — a histeria geral por uma criança enquanto milhões de crianças – e adultos, também são gente – morrem em tragédias diárias;
    — o interesse público é fomentado não pelo interesse ou valor intrínseco das notícias, mas pela agenda (comercial ou outra) dos media que incessantemente no-las impingem.

    Esta histeria e este interesse, conclui, são parte hipocrisia, parte necessidade de redenção: como nos borrifamos para as tragédias do mundo, precisamos destas histórias para nos sentir melhor.

    Tem razão, mas é também verdade que a malta adora uma boa história quando algo importante está em jogo. As crianças são a escolha mais universal. Hollywood sabe disto; não há porcaria de ‘blockbuster’ que não tenha miúdos em perigo.

    É tão espantoso quão revelador ver o país e o mundo passar dias a olhar para um buraco no chão; a ouvir ‘especialistas’ a debitar trampa; a rezar e outras parvoíces por uma criança que jamais viram, verão ou quereriam ver se não fosse isto.

    Epílogo imaginário: o pequeno Rayan é salvo; o mundo regozija-se e esquece-o. Rayan tem uma infância pobre; aos 18 anos emigra para França; continua pobre; acaba na droga; assalta e mata uma velhinha; morre numa rixa da prisão aos 31 anos. Ninguém chora.

    Versão alternativa: o pequeno Rayan é salvo; o mundo regozija-se e esquece-o. Rayan tem uma infância pobre; torna-se serralheiro; casa e tem cinco filhos; leva uma vida banal e morre de cancro aos 71 anos. Três filhos choram-no; dois enviam um email de pêsames.

    • Carlos Garcez Osório says:

      👍

    • Paulo Marques says:

      Não precisa imaginar (bom, também é tarde para isso, mas ignore), basta lembrar o quanto nos preocupamos com a libertação de Timor-Leste, para os deixarmos nas mãos do FMI e da Austrália.
      Mas sim, é sempre questão de agenda; como quando certas pessoas preocupam com as crianças que estão no que eram as poucas zonas seguras que havia no Afeganistão, mas nunca se preocuparam, ou preocupam, com as que levam com misseis do bem em cima.


  4. O Carlos tem inteira razão e só gostaria de acrescentar mais um ponto. Este caso, como o da queda da ponte de Entre os Rios, é aproveitado pelos media para durante um largo tempo não passarem mais nada, só dizerem baboseiras toscas e escusarem de fazer programas e concursos palermas para entreter o pagode. O entretenimento já aparece feito, é só despejar.

  5. Tuga says:

    Quando o exercito israelita mata a sangue frio 5 ou 10 crianças na Palestina, estes mesmos media têm apenas uma noticia a fugir.
    Não dá tempo de antenas para o pagode ficar a ver e consumir audiências que é o que eles andam á procura todos

    • Joana Quelhas says:

      Quando é que isso aconteceu ?

      Joana Quelhas

      • POIS! says:

        Pois talvez fosse melhor perguntar…

        Quando é que deixou de acontecer.

      • Tuga says:

        Acontece quase diariamente na Palestina. Os “corajosos militares do exercito sionista” matam civis desarmados quando lhes apetece.
        Pretender negar isso é ser conivente com esses criminosos

        Grandes e cobardes herois contra crianças

      • Paulo Marques says:
        • Joana Quelhas says:

          Olha-me este a citar a wikipedia!
          Na própria voz do co-fundador da referida:
          “Wikipedia is known, now, by everyone to have a lot of influence in the world … so there is a very big, nasty, complex game being played behind the scenes to make the articles say what somebody wants them to say,” Sanger said, adding the site has a liberal bias.”

          Mas mesmo assim se te desses ao trabalho de ler o artigo q tu próprio indicas verias que:
          “Both the Israeli Defense Forces and militant Palestinian groups have been accused of violating the rights of children and causing injury and death.”
          Com uma grande diferença:
          Os israelitas com os valores morais ocidentais sempre evitam crianças e civis nas zonas de conflito enquanto os Palesinianos se escondem atrás das crianças e civis. Quando os Israelitas lançam panfletos sobre zonas a serem bombardeadas os terroristas palestinianos não deixam que ninguém abondone a área sob pena de os assassinarem para que os seus compatriotas civis lhes sirvam de escudos.

          Para te entreteres ve isto e ve se acordas:

          Vê lá também se as crianças são estas:

          Joana Quelhas

          • Maria Alzira says:

            Mais uma sionista a fazer propaganda dos criminosos nazis do seculo 21, os Isacs


          • “Quando os Israelitas lançam panfletos sobre zonas a serem bombardeadas”.
            Gostaria de ver a cara de agradecimento da Joana ao ler um panfleto vindo do céu a avisa-la que deve abandonar imediatamente a sua casa antes que comece o bombardeamento das 17.30.

            Os alemães também eram porreiros com os bombardeamentos.
            Não se podiam dar ao luxo de gastar papel mas tinham um avião chamado Stuka que ligava uma sirene cada vez que ia largar bombas.
            Os malandros dos polacos é que insistiam em manter civis nas suas cidades. Uns ingratos.
            O que vale é que ao contrario dos polac.. dos palestinos, os soldados israelitas têm valores morais ocidentais.

          • Paulo Marques says:

            Mataram onde?
            link com cirações
            ah, mas isso n vale, mas os meus fazem genocídio do bem

            É isso, Joaninha, é isso.

  6. Joana Quelhas says:

    A minha questão é : não seremos absurdamente “elitistas” ?
    O que toca mais as pessoas é o drama ou a comédia, é o teatro ou a crua e muitas vezes triste realidade ?
    Somos “humanos” ou somos máquinas racionais ?
    Um drama deste género mantem as pessoas presas ás TV.
    No entendimento do “intelectual/elitista” essas pessoas são assim como uma espécie de casta inferior que tem um gosto mórbido pela tragédia.
    Por outro lado essa “casta” inferior não está sequer á altura de classificar a casta superior ,a dita intelectual/elitista como pessoas insensíveis que devido ao seu racionalismo não é afectada por sentimentos como compaixão e empatia, mas que ao mesmo tempo pode passar horas em frente às tv`s a ver p.e. o acompanhamento de um acto eleitoral sem se lembrar de criticar o excesso de horas de cobertura, debates pseudo-informativos ….
    Não acompanhei o caso em causa pois a minha tv tem um botão de desligar e realmente não vejo muita televisão por falta de tempo…

    Joana Quelhas


    • Sensata decisão, Joana, sensata decisão.
      De facto, todos os televisores têm um botão para desligar.
      E, pelo que sei, até têm botões para mudar de canal.

    • Vai dar banho ao cão, vai!! says:

      Fo**-se!!! 😲😲😲
      Não vês televisão por falta de tempo, Joaninha?
      Não é o que transparece aqui no Aventar.
      Queres ver que afinal tu própria és uma elitista e não sabes!

  7. Tal & Qual says:

    Joana !!
    Já te disse para não beberes vinho antes de escreves aqui no AVENTAR.
    Coitada da “piquena” que não sabe do que se passa na Palestina.

    • Tuga says:

      Perde muito tempo no fakebook, que pertence também a essa corja

  8. Filipe Bastos says:

    Vi a CMTV gabar-se de que ontem bateu um recorde de audiência. Ontem passou o dia inteiro com o miúdo no buraco (não de forma literal, infelizmente) e com os ‘especialistas’ no estúdio.

    Mesmo após anos de comentário pulhítico e futeboleiro, não é fácil ouvir tanta conversa de chacha: ali estava, concentrada num dia, a inesgotável capacidade tuga para mandar palpites e falar de nada. Um imenso penico cheio de vacuidade e parolice.

    Quando a malta que lá mede as audiências viu que funcionava, não podia parar. A apresentadora ia enchendo chouriço:

    — Temos connosco o Sr. Júlio Pacóvio, ex-terapeuta sexual na Clínica das Berlengas. Como se sentirão os pais do Rayan?

    — Eu diria que já se sentiram mais felizes; diria até mais contentes. Temos de levar em conta dezassete pontos…

    — Desculpe interromper: chegou-nos uma nova imagem! É um saco de entulho. É vermelho! Temos aqui a D. Maria Camisinha, prima de um médico do SNS. Que acha que isto significa?

    — Pois eu acho bom sinal: vermelho é esperança. E o Benfica. O pequeno Rayan é de certeza benfiquista, o que…

    — Perdão, tenho de interromper: estamos agora em directo! Vemos um trabalhador a descansar. Fuma um cigarro. Agora levantou-se… vai à casa-de-banho! Que acha disto, Dr. Acácio Pascácio?

    — A minha experiência de Marrocos diz-me que ele vai mijar. Passei lá três meses em 1987 e vi sempre aquele olhar antes de uma mija. Vimos, aliás, o mesmo olhar no pequeno Rayan quando…

  9. Filipe Bastos says:

    É este o país que o Chega e a Joana prezam: fútil, parolo, basbaque, preso entre a CMTV, a bola, os comentadeiros, as ‘celebridades’, a última telenovela e o próximo big brother.

    Aquele país que torna qualquer acidente numa procissão, graças à ‘curiosidade’, como lhe chamam os boletins de trânsito – a mesma curiosidade mórbida, patega e palerma que os faz passar um dia a olhar para um buraco no chão.

    É disto que o tuga gosta: apreciar longamente cada detalhe, trocar teorias e palpites com os compinchas, sentir-se o Sherlock Holmes lá da Damaia. Na pulhítica o mesmo; e depois vai botar o botinho. Antes no Centrão, agora no Chega. Nojo.

  10. Joana Quelhas says:

    O Filipe queria um país à sua imagem. Um pais que não é fútil, não é parolo nem basbaque, que não visse televisão, nem bola nem celebridades etc.
    O Filipe não está sozinho.
    O Filipe está com todo um grupo de elitistas ( não confundir com Elite tal como a definia Ortega Y Gasset ) que também pensa de igual modo.
    Esses Damasos gostam do que vem da estranja, ou melhor , tudo o que vem da estranja é bom, e criticam. Criticam tudo !
    Desse modo se sentem superiores aos demais. Mas sabe uma coisa? pelo que tenho visto quando se vai analisar a diferença dessa malta é uma cultura hollyhoodesca sem qualquer substância.
    Leram um livro ( provavelmente dessa grande “escritora” Clara Ferreira Alves ou do grande “escritor” Valter Hugo Mãe” ) e acham-se o supra sumo da nata cultural do país.
    Tenho as maiores reservas do nível cultural dos que subestimam o povo…

    • POIS! says:

      Pois. admirável!

      O sentido autocrítico desta Suprema Grande Joana Qwellakhass.

      Que, inclusivamente, tem a coragem de ter as maiores reservas de si mesma.

      A Qvellhhass é grande! E o resto é conversa!

  11. Barda Merda says:

    Joana: Não deite pérolas a porcos!
    BM

    • Maria Alzira says:

      Mas alguém chamou um reco para a conversa.?

      Cala-te TO

  12. José says:

    Já não sei o que é pior, se sentado a olhar para a pocilga da CMTV, ou ler os comentários desta Joana.