De bem com Deus e com o Saramago

 

 

     Naquele dia, Jesus  invadiu os aposentos do Pai, gritando, com a pressa de trazer a Má Nova:

     – Ó pai, ó pai, trago más notícias!

     – Irra! Já ando há mais de dois mil anos a dizer-te a mesma coisa! Quando chamares por Mim, usas maiúsculas. Fazes favor, sais, e voltas a entrar como deve ser. Só não te fulmino, porque sei que ressuscitas ao terceiro dia.

     Jesus encolheu os ombros e saiu. Com o mesmo entusiasmo, reentrou, clamando:

     – Ó Pai, ó Pai, trago más notícias!

     – Vês como és capaz? Diz lá, Meu filho.

     – O Saramago anda outra vez a criticar a Igreja e a Bíblia.

     – Saramago? Quem é esse?

     – Aquele escritor que até escreveu um livro sobre mim.

     – Com essa descrição, havemos de ir longe.

     – É aquele português que, por causa de um senhor que disse mal desse livro, resolveu dizer que se exilava em Lanzarote.

     – Ui, já Me lembro! Na altura, até pensei que se todos os portugueses com razões de queixa do governo fossem para Lanzarote, aquilo já tinha ido ao fundo. Mas, então, o homem disse mal da Igreja e da Bíblia? Mesmo que dissesse mal de Mim, qual era o problema? Até parece que não sou omnipotente. Mas, afinal, quais são as más notícias?

     – É que o pessoal da Igreja e afins ficou logo todo encrespado.

     – Pronto, já estou mesmo a ver! O rapaz Saramago comete o erro básico de falar de literatura como se fosse a realidade e o pessoal da sotaina cai-lhe em cima porque pensam que não se pode dizer mal do livro preferido deles.

     – É um bocado isso, é.

     – É o costume: têm a mania que falam em Meu nome. Se estivessem mais preocupados em dar a outra face em vez de se comportarem como membros de uma claque de futebol…! Mas tu, deixa-te estar, com aquela cena macaca de andares a bater nos vendilhões também lhes deste um rico exemplo.

     – Ó pai, outra vez essa história? Até parece que não te fartaste de fulminar gente!

     – Olha as maiúsculas, rapaz!

    

 

Poesia: ao Carlos Loures em jeito de réplica

Meu caro Carlos Loures, partilhando das mesmas inquietações acerca da arte em geral e da poesia em particular, dedico-lhe este pequeno excerto retirado de um clássico da literatura sobre o assunto:

«A poesia, em sentido geral, pode ser definida como “a expressão da imaginação”, e é congénita do homem. Este é um instrumento para o qual uma série de impressões internas e externas é conduzida, como a alternância de um vento sempre mutável, para uma harpa eólica, fazendo-a vibrar numa melodia sempre vária. Mas um princípio existe em todo o ente humano, e talvez em todos os seres sensíveis, que actua de maneira diversa daquela como age na lira e produz não só melodia, mas harmonia também, mercê de um ajustamento interno de sons e de movimentos assim excitados, ás impressões que os excitam. É como se a lira pudesse acomodar as suas cordas ao movimento do que as fere, numa determinada proporção de som, da mesma maneira que o cantor pode acomodar a sua voz ao som da lira.

Uma criança a brincar sozinha exprime a sua satisfação pela voz e pelos movimentos; e cada inflexão de tom e gesto possui uma relação exacta com um antitipo correspondente nas impressões agradáveis que o despertaram: é a imagem reflectida dessa impressão. E, assim como a lira vibra e ressoa após o vento se haver esvaído, assim a criança, prolongando na sua voz e movimentos a duração do efeito, procura prolongar também a consciência da causa. Em relação aos objectos que deleitam a criança, estas expressões são o que a poesia é para os objectos mais elevados.

O selvagem (pois o selvagem está para as idades como a criança para os anos) exprime as emoções nele produzidas pelos objectos circundantes de uma maneira idêntica; e a linguagem e o gesto, juntamente com a imitação plástica ou pictórica, devêm a imagem do efeito combinado desses objectos e respectiva apreensão.

O homem em sociedade, com todas as suas paixões e prazeres, torna-se em seguida objecto das paixões e prazeres do homem; uma classe adicional de emoções produz um tesouro aumentado de expressão; e linguagem, gesto e artes imitativas, devêm imediatamente a representação e o meio, o lápiz e o desenho, o cinzel e a estátua, a corda e a harmonia.»

… o autor ?

SHELLEY em «DEFESA DA POESIA» de 1820 !

… diga-me lá, honestamente, se não está já lá tudo em potência, senão em acto ? e neste particular, quem precisa do marxismo ou mesmo da antropologia para perceber a coisa ?

abraço.

eh pá, vamos lá manter o nível !

… e não percam tempo com minudências: uma cervejinha europeia e fica logo tudo mais calmo !

… finalmente, um nobel para a literatura !

… permitam-me um momento de felicidade (essa coisa que não sei muito bem o que é mas que também pouco me interessa) e um momento de radicalismo intelectual (essa coisa que faz asco a muita gente) : de longe a longe, de muito muito longe, o Nobel da Literatura é atribuído a um(a) escritor(a), o que é muito muito estranho. Herta Muller é um portento da literatura novecentista. a literatura não é uma questão de «gosto». ponto final. por vezes a academia sueca engana-se. ainda bem.

o homem Herta Muller, O Homem é um grande faisão sobre a terra, trad. Maria Mendonça, Cotovia, 1993. (edição de 1500 exemplares; ainda se encontra à venda, fora de catálogo, nos célebres mercados do livro, vejam lá  !)

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Herta Muller, A Terra das Ameixas Verdes, trad. de Maria Lopes, Difel, 1999.

um excerto:

a dália branca
«Nos dias escaldantes de Agosto, a mãe do carpinteiro tinha metido, com um balde, uma grande melancia dentro do poço, A água fez ondas à volta do balde. A água borbulhou em volta da casca verde. A água refrescou a melancia.
A mãe do carpinteiro foi com uma grande faca para a horta. O carreiro era um rego. A alface tinha espigado. As folhas estavam coladas com o leite branco que lhes corre nos pés. A mãe do carpinteiro levava a faca ao longo do rego. Onde a sebe começa e a horta acaba, florescia uma dália branca. A dália chegava-lhe ao ombro. A mãe do carpinteiro cheirou a dália. Cheirou prolongadamente as pétalas brancas. Aspirou a dália. Esfregou a testa e olhou para o pátio.
A mãe do carpinteiro tinha cortado a dália branca com a faca grande.
‘A melancia foi uma desculpa’, disse o carpinteiro depois do funeral. ‘A dália é que foi a perdição dela.’ E a vizinha do carpinteiro disse: ‘A dália era um rosto.’
‘Por este verão ter sido tão seco’, dizia a mulher do carpinteiro, ‘é que a dália estava cheia de pétalas brancas enroladas. Fez-se tão grande como nenhuma dália alguma vez podia ser. E como houve vento neste Verão, não se desfez’. Embora já não tivesse vida, não conseguiu murchar.’
‘Isto não se aguenta’ disse o carpinteiro, ‘ninguém consegue aguentar isto.’
Ninguém sabe o que a mãe do carpinteiro fez com a dália branca. Não levou a dália para casa. Não a pôs no quarto. A dália também não ficou caída na horta.
‘Ela veio da horta. Trazia a faca grande na mão’, disse o carpinteiro. ‘Nos olhos dela havia qualquer coisa da dália. A córnea estava seca.’
‘Pode ser que tenha esperado pela melancia’, disse o carpinteiro, ‘e entretanto tenha desfolhado a dália. Desfolhou-a com a mão. Não havia pétalas espalhadas pelo chão. Como se a horta fosse uma sala.’
‘Acho que’, disse o carpinteiro, ‘ela abriu um buraco na terra com a faca grande. Enterrou a dália.’
A mãe do carpinteiro tirou o balde do poço ao fim da tarde. Levou a melancia para a mesa da cozinha. Espetou a faca na casca verde. Com a faca na mão fez um círculo com o braço e cortou a melancia ao meio. A melancia rachou. Foi um estertor de agonia. No poço, sobre a mesa da cozinha e até cair aberta em duas metades, a melancia ainda estava viva.
A mãe do carpinteiro esbugalhou os olhos. Como tinha os olhos tão secos como a dália, não se abriram muito. O sumo escorria pela lâmina da faca. Os seus olhos pequenos olhavam com hostilidade a polpa vermelha. As pevides pretas pareciam os dentes dum pente encavalitados uns sobre os outros.
A mãe do capinteiro não cortou a melancia em talhadas. Pôs as duas metades da melancia à sua frente. Com a ponta da faca escavou a polpa vermelha. ‘Tinha os olhos mais gulosos que já se viram’, disse o carpinteiro.
O líquido vermelho escorrera pelo tampo da mesa da cozinha. Escorria-lhe dos cantos da boca. Pingava-lhe dos cotovelos. O sumo vermelho da melancia ficou colado ao chão.
‘Os dentes da minha mãe nunca foram tão brancos nem tão frios’, disse o carpinteiro. ‘Enquanto comia dizia: não olhes dessa maneira. não me olhes para a boca.’ E cospia as pevides pretas para a mesa.
‘Eu virei os olhos. Não saí da cozinha. Tive medo da melancia’, disse o carpinteiro. ‘Olhei para a rua pela janela. Vi passar um homem desconhecido. Ia apressado e falava sozinho. Ouvia pelas costas como a minha mãe escavava com a faca. Como mastigava. E como engolia. Mãe, disse eu sem a olhar, pára de comer.’
A mãe do carpinteiro levantara a mãe. «Gritou e eu olhei para ela por ter gritado tão alto’ disse o carpinteiro. ‘Ela ameaçou-me com a faca. Isto não é um verão e tu não és gente, gritou ela. Sinto uma pressão na testa. Tenho as tripas a arder. Isto é um verão que lança as chamas do fogo de muitos anos passados. Só a melancia é que me refresca.»
herta muller «o homem é um grande faisão sobre a terra»

poema frásico

Se deres a uma mulher o teu esperma ela pode transformá-lo em prazer

… naquele belo dia de caça

450px-Carlos_I_de_PortugalJaz el-rei entrevado e moribundo
Na fortaleza lôbrega e silente…
Corta a mudez sinistra o mar profundo …
Chora a rainha desgrenhadamente …

Papagaio real, diz-me quem passa?
— É o príncipe Simão que vai à caça.

Os sinos dobram pelo rei finado …
Morte tremenda, pavoroso horror!…
Sai das almas atónitas um brado,
Um brado imenso d’amargura e dor …

Papagaio real, diz-me, quem passa?
— É el-rei D. Simão que vai à caça.

Cospe o estrangeiro afrontas assassinas
Sobre o rosto da pátria a agonizar …
Rugem nos corações fúrias leoninas,
Erguem-se as mãos crispadas para o ar!…

Papagaio real, diz-me quem passa?
–É el-rei D. Simão que vai à caça.

A Pátria é morta! A Liberdade é morta!
Noite negra sem astros, sem faróis!
Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,
Guarda a Infâmia os sepulcros dos Heróis!

Papagaio real, diz-me, quem passa?
–É el-rei D. Simão que vai à caça.

Tiros ao longe numa luta acesa!
Rola indomitamente a multidão …
Tocam clarins de guerra a Marselheza …
Desaba um trono em súbita explosão!…

Papagaio real, diz-me, quem passa?
–É alguém, é alguém que foi à caça
Do caçador Simão!…

Guerra Junqueiro
8 de Abril de 1890

(parágrafo)

VIVA  A REPÚBLICA COSMOPOLITA, DECADENTE E CORRUPTA …

MAS NOSSA !

Que chova sempre neste belo dia e que o céu nunca seja azul e branco!

(parágrafo)

ass. anarquista «afonsino», carbonário, anti-debutante e anti-cerúleo.

(parágrafo)

adeus, adeus … e até sempre !

o chelsea algarvio

1Jesualdo Ferreira, mister, em conferência de imprensa: o Olhanense é «UMA EQUIPA QUE SE HABITUOU A SER DE TOPO» !

 

 

 

 

ass. anarquista argentino (anti-calhabé!)

ps: este é o meu primeiro e último «post» futebolístico.

ps2: este «post» foi auto-censurado !