Poesia: ao Carlos Loures em jeito de réplica

Meu caro Carlos Loures, partilhando das mesmas inquietações acerca da arte em geral e da poesia em particular, dedico-lhe este pequeno excerto retirado de um clássico da literatura sobre o assunto:

«A poesia, em sentido geral, pode ser definida como “a expressão da imaginação”, e é congénita do homem. Este é um instrumento para o qual uma série de impressões internas e externas é conduzida, como a alternância de um vento sempre mutável, para uma harpa eólica, fazendo-a vibrar numa melodia sempre vária. Mas um princípio existe em todo o ente humano, e talvez em todos os seres sensíveis, que actua de maneira diversa daquela como age na lira e produz não só melodia, mas harmonia também, mercê de um ajustamento interno de sons e de movimentos assim excitados, ás impressões que os excitam. É como se a lira pudesse acomodar as suas cordas ao movimento do que as fere, numa determinada proporção de som, da mesma maneira que o cantor pode acomodar a sua voz ao som da lira.

Uma criança a brincar sozinha exprime a sua satisfação pela voz e pelos movimentos; e cada inflexão de tom e gesto possui uma relação exacta com um antitipo correspondente nas impressões agradáveis que o despertaram: é a imagem reflectida dessa impressão. E, assim como a lira vibra e ressoa após o vento se haver esvaído, assim a criança, prolongando na sua voz e movimentos a duração do efeito, procura prolongar também a consciência da causa. Em relação aos objectos que deleitam a criança, estas expressões são o que a poesia é para os objectos mais elevados.

O selvagem (pois o selvagem está para as idades como a criança para os anos) exprime as emoções nele produzidas pelos objectos circundantes de uma maneira idêntica; e a linguagem e o gesto, juntamente com a imitação plástica ou pictórica, devêm a imagem do efeito combinado desses objectos e respectiva apreensão.

O homem em sociedade, com todas as suas paixões e prazeres, torna-se em seguida objecto das paixões e prazeres do homem; uma classe adicional de emoções produz um tesouro aumentado de expressão; e linguagem, gesto e artes imitativas, devêm imediatamente a representação e o meio, o lápiz e o desenho, o cinzel e a estátua, a corda e a harmonia.»

… o autor ?

SHELLEY em «DEFESA DA POESIA» de 1820 !

… diga-me lá, honestamente, se não está já lá tudo em potência, senão em acto ? e neste particular, quem precisa do marxismo ou mesmo da antropologia para perceber a coisa ?

abraço.

Comments

  1. Carlos Ruão says:

    ps: o excerto supra-citado foi retirado de Shelley, «Defesa da Poesia», tradução do inglês de J. Monteiro-Grillo, Guimarães editores, 3ª edição, 1986


  2. Muito belo este texto de Shelley.

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