O (decadente) Estado da Nação

EdN

O Ministério da Propaganda deve andar possidónio. O take da Reuters cujo nome a imprensa afiliada à direita radical não pode mencionar passou mais um atestado de estupidez à propaganda do velho regime. Chega a dar dó.

Não há volta a dar: a responsabilidade pelos valores do défice alvo desta manobra terrorista dos engenheiros sociais ao serviço da decadente ruling elite que habita em Bruxelas é mesmo do anterior governo. Em tempos ficaria pasmado com o nível de absoluto patético a que aqueles que optam por negar a realidade em nome de ideologias fanáticas ou financiamentos para negócios mil se sujeitam. Até o mais recente escritório dirigido por David Dinis fez notícia sobre o esclarecimento que a Comissão Europeia fez ontem, por hora do início do debate no Parlamento. Passos nem piou. É o estado a que isto chegou.

Imagem via Uma Página Numa Rede Social

O estado da nação é muito simples

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Fonte: Banco de Portugal

Privatização de tudo o que gera receita no estado e do que tem receita garantida via orçamento de estado. Negócios com prejuízo foram reorganizados por forma a vender a parte com receitas, ficando a parte com prejuízo para o estado.

Para quê? Esqueça a tese de termos gasto acima das nossas possibilidades. Olhe para si e conclua. Estas receitas serviram apenas para pagar os juros da dívida do empréstimo que tirou a banca da falência.

O resultado? Estamos pior do que no início da legislatura. Recorde-se qual era o objectivo da austeridade: reduzir a dívida pública e controlar o défice. Este continua sem chegar aos valores exigidos pelo euro e a primeira aumentou significativamente. O défice diminuiu graças ao colossal aumento de impostos e a dívida disparou devido aos custos com os juros.

Menos saúde, menos educação, menos justiça, mais horas de trabalho, mais impostos, menos salário. Este é o estado da nação.

Vêm aí melhores tempos? Nada para aí aponta. Não podemos continuar a fazer o mesmo e esperar resultados diferentes.

Ruralidades dos mitos urbanos

Estamos melhor do quem em 2011, dizem. Mas trabalhamos mais, ganhamos menos, o desemprego aumentou e a dívida pública disparou.

Estamos no bom caminho

A depressão entre os professores

Passos Coelho no debate sobre o Estado da Nação, esta semana, disse que não queria assustar os portugueses.

Mas a verdade é que nunca estivemos tão assustados.
Que o digam, por exemplo, os professores e respectivas famílias!!
É deveras preocupante: 25 000 horários perdidos e 18 mil professores contratados poderão ser despedidos. E não são só os mais jovens: há professores a contrato há dezenas de anos.
“É uma agonia”.
É a depressão entre uma classe cuja importância é indiscutível para o desenvolvimento do nosso país.
Andamos deprimidos, nós professores: ao nosso lado vão caindo colegas, engrossando o número já trágico de desempregados. “Quando serei eu?”, é uma pergunta inevitável. As turmas serão menos, mas aumentará o número de alunos; as salas vão rebentar pelas costuras; os professores irão trabalhar sem motivação e assustados. Para cúmulo, muitos terão que saltar de escola em escola, gastando do seu próprio dinheiro. Pagar para trabalhar.
Até quando?
Corte-se mais na Educação e vamos longe!

Portas e o estado da nação

Ontem Portas começou o seu discurso afirmando que “a culpa da crise é do estado”. Que o estado gastou o que não tinha. Ora, que eu saiba, o BPN era privado e toda a restante banca aflita ainda o é também.

Atendendo a que a banca contribui para mais de metade da dívida pública, é patente que Paulo Portas partiu de um dado errado para elaborar a sua tese. Todo o restante discurso está inquinado deste erro. Portas pregou uma falácia. Não importa que, pelo meio, tenha eventualmente dito algo certo. Aquele longo discurso valeu zero.

Naturalmente que alguns representantes do estado provocaram esta situação e, consequentemente, o estado é culpado, seja porque permitiu que isto acontecesse, seja porque nada fez para corrigir. Mas não era a este estado que Portas se referia. Pelo seu discurso se percebe que ele tinha em mente um estado composto por aqueles a quem se estão a cortar subsídios e por aqueles que viram os seus impostos aumentados. Porque o estado culpado tem o nome dos governantes do PS que arruinaram o país e dos actuais governantes do PSD/CDS que continuam sem corrigir a situação.

O estado que não é desta nação

É dos livros: quando os médicos (ou os camionistas) saem à rua qualquer governo está acabado. Esse é o estado da nação, e um debate em que ministro da privatização da saúde tem direito a destaque confirma-o.

As arengas, que fui ouvindo ao longe, tiveram momentos com piada, embora no domínio de uma outra nação, a parlamentar, esse mundo maravilhoso onde se semeia o que será uma viçosa relva de ministro.

A culpa de tudo é do governo anterior, repete em loop a claque do governo, coisa que ando a ouvir desde 1974 (sendo que em 1974 era verdade). Vamos salvar a coisa, perdão, a pátria, fustigam. Estamos a exportar imenso, garantem (esquecendo que também estamos a importar menos). Em 2012 vale tudo, inclusive invocar 1943 (um país neutral em plena guerra).

Nada disto é neutro. A subserviência perante quem supostamente nos ajuda não é um acaso, é uma determinação. Afirmar que o BCE não empresta aos bancos a 1% não é mentir, é tentar uma habilidade. Insistir que não há dinheiro e temos de agradecer aos carrascos que emprestam com juros de usurário é apenas um tique de quem sempre se coloca do lado daqueles que têm o dinheiro, fogem com o dinheiro e com o bloco central se protegem.  Já fingir que estamos melhor, que os dados económicos são positivos, é apenas um reflexo neurológico, repetindo precisamente os últimos dias do outro governo. São esses os dias que ora repassam.

Mulheres e crianças recolhem carvão junto a uma via férrea no Porto. C. 1943.

Foto: in Joaquim Vieira, Portugal Século XX 1940-1950