Dois ditadores entram numa cimeira do G20

 

Na cimeira do G20, dois ditadores cumprimentam-se com aquele entusiamo de quem faz do presidente da superpotência mundial a sua bitch. Diz quem esteve por lá que trocaram ideias sobre como eliminar opositores e jornalistas, à bruta e sem consequências, sem prejudicar os seus investimentos na Europa dos Direitos Humanos. E que o dia terminou com a visualização da pee tape de Donald Trump.

Cimeira G20- Ouçam as vozes que se erguem

Ontem e hoje o clube dos 20 (os líderes das 20 mais poderosas economias do mundo) esteve na sua reunião anual, desta feita em Buenos Aires, numa Argentina em profunda crise, inflação em nível recorde de ca. de 40% e cujo governo recomendou aos habitantes da cidade que fossem passar fora o fim de semana devido aos previstos massivos protestos da sociedade civil. Os quais, ao contrário do que sucedeu o ano passado em Hamburgo, se mantiveram pacíficos, mas foram significativos.

Couraçados dentro do habitual cerco de muitos milhares de polícias e soldados armados até aos dentes (25.000 desta vez), lá estiveram eles – Xi Jinping, Temer, Trump, Putin, Erdogan, Merkel, Macron, May, Trudeau, Juncker, Mohammed bin Salman e outras estrelas dúbias -, os supostos chefes do mundo (os donos dos mercados financeiros partem-se a rir), dedicados a discutir os temas que supostamente são os do mundo, fingindo que os resolvem, à custa dos contribuintes.

Além da “guerra comercial” e das tensões na Ucrânia a dominar as discussões, na agenda encontram-se nobres objectivos, como a luta contra as alterações climáticas e a aplicação do Acordo de Paris, ou o desenvolvimento sustentável. E coisas como o futuro do trabalho, o empoderamento das mulheres, a fiscalidade da economia digital.

A incomensurável desfaçatez desta gente, que continua a assinar centenas de acordos de comércio „livre“ e investimento que boicotam a protecção do ambiente! ou que não arrisca impor um imposto chorudo aos colossos (digitais) que praticamente não os pagam, antes agachando-se cada vez mais em competição entre si, a bem dos colossos!

Falinhas mansas de hipócritas que atiram calhaus para os olhos dos povos, enquanto se ajoelham perante o capital. Quanto a ideias verdadeiramente novas para se libertarem das correntes que se aplicaram e aplicam a si próprios, para assim mais libertarem as transnacionais, é zero.

Hoje, conseguiram amalgamar os temas do comércio, mudança climática e migração numa declaração final vaga e oca, sem qualquer efeito real, com ou sem Trump. [Read more…]

Hamburgo, 7 de Julho de 2017

© Boris Roessler/dpa, via Süddeutsche Zeitung (Facebook)

Estenderemos o tapete vermelho aos ricos que fujam de França

O primeiro ministro inglês enviou ontem, num fórum para “dirigentes económicos” à margem do G20, um recado a François Hollande a propósito da vontade deste último taxar as grandes fortunas e rendimentos em França. E que recado foi esse? Precisamente o recado da direita, das grandes fortunas e do capital à escala global.

Numa fase em que o capitalismo mundial se reorganiza e se livra dos direitos e garantias que foi obrigado a conceder aos trabalhadores, Cameron, alto e bom som, advogando uma harmonização fiscal global (pela bitola da City londrina), veio dizer a Hollande que se deixe de veleidades porque o capitalismo não está para brincadeirinhas redistributivas.

Implícito nas palavras de Cameron está isto: a esquerda que se entretenha  em conferências mais ou menos inócuas como o Rio+20 ou em reuniões “alternativas” como o Fórum Social Mundial que, se alguém tem de empobrecer, não são seguramente os ricos.

Ou dito de forma mais clara: empobreçam os pobres, os trabalhadores, os desempregados, os reformados e toda essa traquitana, que os ricos não se podem dar a luxos desses.

Grécia: afinal é o referendo a demitir-se

cimeira do G20_Cannes_Nov-2-2011

As convulsões na Grécia, ao longo do tempo, têm dado a imagem de um país perturbado. Nos últimos dias, às manifestações de rua juntaram-se outros fenómenos do poder político e militar. De tão contraditórios, súbitos e efêmeros, é natural que suscitem a perplexidade geral.

A Grécia, no fim de contas, está a ferro e fogo. Seja no parlamento, nos gabinetes governamentais ou nas hostes da oposição ao governo. A desorientação é total. O que agora se anuncia aos gregos e ao mundo facilmente é contradito e abjurado a seguir.

Sucedeu assim com a decisão do referendo de George Papandreou. O homem  ainda esta manhã estava preparado para se demitir. Agora, notícias de várias origens – esta, esta e esta, por exemplo – dizem que renegou o compromisso de referendar a continuidade do país na zona euro. Afinal, como fosse gente, quem se demite é o referendo. Pronto, o Sr. Sarkozy, mais temperamental e entusiasta, já saudou o gesto de Papandreou e a Sra. Merkel, mais céptica e matreira, afirmou não ir em cantigas. Das autoridades gregas, a chancelerina – sublinhou – exige acções.

Com este golpe de rins, a cimeira do G-20, em Cannes, terra do cinema, distribui o filme dramático “crise do euro” por um conjunto de artistas famosos, entre os quais o cabeça de cartaz Obama que, como mostra a fotografia, está feliz da vida, rodeado de espadas ao alto. Os gregos, esses, estarão cada vez mais em baixo.