Já lá vai imenso tempo, há 40 anos e alguns dias, abri a pesada porta de casa, saí para o passeio e vi um homem a subir a minha Rua de Santa Catarina, cabisbaixo, quase curvado. Ao passar por mim, vislumbrei-lhe um cachecol do Futebol Clube do Porto a protegê-lo do frio desse longínquo Janeiro de 1985 e, mais impressionante, uma bandeira do Futebol Clube do Porto. Nesse momento, este benfiquista, prestes a sofrer o primeiro gravíssimo dissabor futebolístico doméstico (o terceiro lugar de 84/85), pressentiu os passos da avó materna no granito dos degraus que desaguavam na porta da entrada, olhou para a esquerda, vendo o homem que lentamente se afastava, e perguntou:
— Não há jogo hoje. Porque é que aquele senhor leva um cachecol e uma bandeira do Porto?
— Vai ao funeral do Pedroto —, respondeu-me a minha avó.
Pois. Soubera da morte do Pedroto, dias antes, pela telefonia da cozinha. E o meu pai, portista doente, dera-me então uma longa palestra sobre o jogador Pedroto e o treinador Pedroto. Fosse como fosse, os meus 12 anos de vida reservavam bonés, cachecóis e bandeiras de clubes de bola a acontecimentos desportivos, logo, excluíam-nos de funerais. Por isso, a minha pergunta à porta de casa. Comecei a fazer contas simples. Daí a poucos minutos, o enlutado portista iria chegar ao Marquês e apanhar um autocarro (o 20? o 21?) para a Rotunda da Boavista e, apeado, rapidamente chegaria a Agramonte. Ou seja, em princípio, deveria ser meu vizinho, para não apanhar um transporte em Gonçalo Cristóvão. Como diria o Sherlock, when you have eliminated the impossible, whatever remains, however improbable, must be the truth. Talvez. Há mais variáveis. Nunca saberemos.
Não sei quais são as razões para a direcção do Glorioso não endereçar uma nota de pesar pela morte de Pinto da Costa. Se fosse presidente do Benfica, teria escrito imediatamente uma nota de pesar, sem mais quês, exactamente no momento em que soube do funesto acontecimento, ontem, no final do Santa Clara 0-1 Benfica, pelo amigo do meu amigo David. Mas a verdade é que não sou, nem quero ser, presidente do Benfica. Desconheço o porquê de não se enviar uma, mesmo que sinceramente lacónica, nota com um “O Sport Lisboa e Benfica, através do seu Presidente, expressa as suas mais sentidas condolências ao FC Porto e à família e amigos de Jorge Nuno Pinto da Costa”. Sem descrições, excepções, hipocrisias, exageros. Lacónica. Não sei quais são as razões para a ausência da nota de pesar. Ainda por cima, sem conflito explícito. Gostaria de saber quais são os motivos, para poder validá-los ou não. Na ausência de justificação minimamente aceitável, discordo em absoluto. Agradecido.
Como diria o outro, disse.









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