Poemas do ser e não ser

Mãos de ausência

 

As mãos grudadas de ausência

fincam dedos na argila dos lençóis

e abrem sulcos no ventre da noite.

Mãos sem poder nem domínio

sem rigor nem justiça

mãos impermanentes

demasiado abertas

para os punhos fechados que encerram.

Mãos secas

pegadas à idade das pedras

a cabeça de ontem

nas grades ferrugentas de hoje.

Olhos molhados

um olhar mendigo a tempos de outro tempo.

Dentro da quinta em ruínas

no meio de silvados

urtigas e ervas daninhas

anos e lustros a caminho de séculos.

Os olhos de minha mãe

cheios de outroras e lágrimas

mostram-me todas as lágrimas do mundo

nas lágrimas de tudo o que se verte em lágrimas

por dentro e por fora do tempo.

Restos de um lago seco

entulhos e restos

esqueletos de cameleiras

escadas sem fins nem degraus

portas e janelas esventradas

de foras e sombras.

Mãe

que o sol se lembre de nascer

onde o carinho é poema

onde o amor e o mar se tocam

dentro de uma gota de orvalho.

 

Poemas com história: Falemos de paisagem

 

Novamente, com este poema de 1968, coloco a questão da forma e do conteúdo, neste caso incidindo sobre o «tema» do «conteúdo». Numa altura em que até poetas de insuspeito cariz democrático poetavam em torno de temas inócuos, transmitidos através de uma linguagem gongórica que, trocando as voltas à polícia e à vigilância censória, as trocavam também aos leitores que não fossem «do meio», tornava-se necessário, com todos os riscos que isso envolvia, falar dos problemas concretos que nos afectavam – a fome, a miséria, a guerra colonial, a emigração, a falta de liberdade – e deixar essas temáticas mais elevadas para quando o essencial tivesse sido conquistado. Exaltar a beleza da paisagem era inútil, se o poeta se esquecesse de que nessa paisagem maravilhosa havia pessoas trabalhando de sol a sol a troco de soldos de miséria.

No seu livro «Remol», publicado em 1970, o poeta galego Manuel María publicou um poema de sentido muito semelhante – «A paisaxe é fermosa», na minha opinião com uma qualidade poética muito superior à do meu poema, mas com um sentido geral muito semelhante. Não se pondo sequer a hipótese de ele se ter inspirado no meu tema, a coincidência leva-nos à conclusão de que, submetidos a condições semelhantes, os homens, neste caso os escritores, reagem de forma também similar. Este meu poema foi publicado em 1968 no livro «A Voz e o Sangue». Foi lido em numerosas sessões pelo actor e declamador Armando Caldas ao qual aproveito para agradecer a atenção que, nesses tempos difíceis, dispensou à minha poesia.

Falemos de paisagem

Mas, como podíamos cantar

Com o pé estrangeiro sobre o coração?

Salvatore Quasímodo

(Giorno dopo giorno)

 

           

       Como queres, amigo, que haja flores nos meus versos,  

            como queres grinaldas e primavera no meu poema?

            Em meu redor há homens humilhados, crianças

            descalças e com fome, mulheres grávidas

            trabalhando a terra. Como queres, amigo,

            que eu veja esse tal céu azul de que tu falas,

            esse sol eterno, que cante a beleza da paisagem,

            se o sofrimento humano altera a cor das coisas?

            É cinzenta a paisagem, é cor de cinza o céu,

            por isso os meus poemas são cinzentos e sem beleza

            (acaso tem beleza a fome?).

            Sim, eu sei, poesia não é bem economia política

            e humildemente sei que após os meus versos

            tudo continuará cinzento – o dealbar

            não será erigido pelos meus poemas

            nem por quaisquer outros – mas sei também

            que a poesia deve ser a verdade do poeta,

            a sua maneira de explicar o mundo

            e de o tentar transformar. Por isso digo

            – um de nós está enganado e creio bem que és tu,

            pois me pedes uma poesia que não pode nascer

            de um homem que queira ser fiel ao seu povo.

            Quando o céu for azul, prometo-te, amigo,

            os meus versos o dirão e o meu poema será lírio,

            deixará esta cor de lama e de sangue.

            Quando o céu for azul, amigo meu  

            – antes, não!

 

 

Pemas do ser e não ser

Traz-me aquela flor do fim da tarde

Subindo as escadas até mim

Traz-me a rosa a glicínia o girassol

Para que eu me iluda e me engane

Traz-me o alecrim e a alfazema

Deixa que pense que é assim

Que se faz um poema.

Não me venham dizer

Que é bom ser velho

Ser velho é uma merda

Que a gente embrulha conforme calha

Em palavras que nada dizem

Em gestos onde tudo falha.

Traz-me aquela flor do fim da tarde

Entre alecrim e alfazema

Traz-me as duas almas de um dilema

Para que eu abrace a ilusão

De criar um poema.

 

Torga – poeta

ALENTEJO

A luz que te ilumina,

Terra da cor dos olhos de quem olha!

A paz que se adivinha

Na tua solidão

Que nenhuma mesquinha

Condição

Pode compreender e povoar!

O mistério da tua imensidão

Onde o tempo caminha

Sem chegar!…

Miguel Torga

Diário XII, 20 de Outubro de 1974

 

Manuel da Fonseca – poeta

Aldeia

Nove casas

duas ruas

um largo

ao meio do largo

um poço de água fria.

Tudo isto tão parado

e o céu tão baixo

que quando alguém grita para longe

um nome familiar

se assustam pombros bravos

e acordam ecos no descampado

Manuel da Fonseca

 

PS . aventado pela Manuela, nossa leitora

Os nossos leitores

Requerimento a Fernanda

Ó Fernanda, dado

que já estou cansado

do ar teatral

a que ele equivale

em todo o horário

de cada canal,

no noticiário,

no telejornal,

ligando-se ao povo,

do qual ele se afasta,

gastando de novo

a fala já gasta

e a pôr agastado

quem muito se agasta

por ser enganado.

Ó Fernanda, dado

que é tempo de basta,

que já estou cansado

do excesso de carga,

do excesso de banda,

da banda que é larga,

da gente que é branda,

da frase que é ópio,

do estilo que é próprio

para a propaganda,

da falta de estudo,

do tudo que é zero,

dos logros a esmo

e do exagero

que o nega a si mesmo,

do acto que é baço,

do sério que é escasso,

mantendo a mentira,

mantendo a vaidade,

negando a verdade,

que sempre enjoou,

nas pedras que atira,

mas sem que refira

o caos que criou.

Ó Fernanda, dado

que já estou cansado,

que falta paciência,

por ter suportado

em exagerado

o que é aparência.

Ó Fernanda, dado

que já estou cansado,

ao fim e ao cabo,

das farsas que ele faz,

a querer que o diabo

me leve o que ele traz,

ele que é um amigo

de Sao Satanás,

entenda o que eu digo:

eu já estou cansado!

Sem aviso prévio,

ó Fernanda, prive-o

de ser contestado!

Retire-o do Estado!

Torne-o bem privado!

Ó Fernanda, leve-o!

Traga-nos alívio!

Tenha-o só num pátio

para o seu convívio!

Ó Fernanda, trate-o!

Ó Fernanda, amanse-o!

Ó Fernanda, ate-o!

Ó Fernanda, canse-o!

 

 

 

Euleriano Ponati

(poeta não titular)

 

 

 

 

 

Poemas estoricônticos

A terra e a poesia

 

Tenho falado com alguns poetas

sobre o que entendem por poesia.

Poetas de muito nome.

Cada um deles diz-me o que sente

mas ninguém me diz

que a poesia nasce

como nasce a água da fonte.

O homem veio consultar-me.

Sentia

sobretudo ao levantar da cama

e com os esforços

uma dor em barra sobre a tábua do peito

que o imobilizava por completo.

Era um homem alto

Seco de carnes magras e duras

sem qualquer mazela que se visse.

Nunca estivera doente.

Por isso

este bloqueamento o intrigava tanto.

Parecia que tinha a mó de um moinho

em cima do peito

quebrando-lhe as costelas.

Não era homem de queixumes

mas coisa séria haveria de ser

para o pôr naquele estado!

Até já lhe haviam dito

que o mal seria

sabe-se lá!

uma angina de peito.

O senhor tem

de facto

uma angina de peito.

Sr. Doutor

eu nunca estive doente

em oitenta anos de vida.

Sou um privilegiado.

Não tenho medo da morte

pois todos temos de morrer

mais tarde ou mais cedo.

Mas tenho pena de deixar o trabalho.

Sem trabalhar não sei viver.

Diga-me Sr. Doutor

com a verdade que muito lhe agradeço

se poderei fazer alguma coisa.

Faço-lhe esta pergunta

porque sempre trabalhei no campo

casado com a natureza

e beijado pelo nascer do sol.

Tenho pena

porque a enxada nas minhas mãos era uma viola

e eu fazia nascer da terra a música que queria.

Poemas com história: Esplanada da praia

 

 

 

Numa tarde de sábado, em Abril de 1988 (foi a data que pus no final do poema) estava sentado numa esplanada de uma praia da linha de Cascais. Lembro-me que fazia uma temperatura elevada para a época e bebia cerveja enquanto observava as pessoas que colhiam os últimos raios de sol daquele belo dia. Sentia-me bem. Depois comprei o Diário de Lisboa, que ainda se publicava e publicou por mais um ano ou dois, folheei-o, li as notícias e lá se foi a sensação de beleza e de tranquilidade…

Esplanada da praia

Ah, meu amigo, o que é o coração do homem!

(Goethe)

Sim, na verdade

o coração do homem é assim,

espalha-se no vento,

escreve gritos na paisagem,

viaja no silêncio, enfim,

é assim –

é veleiro e astronave

em permanente viagem,

o coração do homem.

Coração, é um modo de dizer,

é uma expressão nada científica,

por sinal, que serve para definir

o local, o território misterioso

onde habitam o amor, o afecto,

o ódio, o medo e a coragem.

Onde mora também

A capacidade de sentir

os oceanos que golpeiam

o peito da humanidade.

Dizemos coração,

talvez por ser mais simples situar

num simples órgão

tudo aquilo que em nós transcende

o bisonho animal

que nos domina e vigia.

Por exemplo,

é Abril e é sábado,

estou aqui na esplanada da praia,

a cerveja está fresca,

a temperatura é amena,

o mar é azul, as pessoas são bonitas,

o céu é um lago de serenidade.

Tudo é tranquilo e belo.

Porém, compro o jornal da tarde

e a tranquilidade

quebra-se logo,

como um vidro frágil agredido

pela fúria selvagem

de um martelo à solta.

O meu coração viaja até à Palestina,

à África Austral, à América Latina,

onde a ânsia animal de dominar,

destrói a vida,

oculta o Sol,

impede o amor…

 

O meu coração,

muito habituado a caminhar,

abandona o corpo sentado na esplanada,

a cerveja, o mar azul,

o céu sereno, as gaivotas;

viaja até onde a morte é lei,

o passado e o futuro

se defrontam em áridas colinas

revolvidas por obuses.

Se queres que te diga,

A tarde deixou de ser tranquila

e primaveril,

a cerveja sabe-me a sangue

e no sangue passa-me a circular

vitríolo.

Nesta tarde de Abril,

em que tudo estava a correr

tão bem,

antes que me esqueça,

pergunto-me:

terá sido a cerveja

que me caiu na fraqueza,

ou terá sido o coração

que me subiu à cabeça?

 

 

Boletim Meteorológico

Céu muito nublado vento

fraco moderado de sudoeste

soprando forte nas terras

altas aguaceiros em especial

nas regiões do Norte e Centro

e que serão de neve nos

pontos mais altos da Serra

da Estrela e no teu coração.

 

Jorge Sousa Braga, in "Porto de Abrigo"

Poemas do ser e não ser

A dor vestiu-se de mulher

 

A dor vestiu-se de mulher

de terra e flores

e voou para lá das nuvens onde mora o vento.

A vida é um lugar muito longe

lá para as bandas do sonho

nas margens do silêncio

na arte do encontro – desencontro

na alegria de ser triste.

Nesta Galiza de poetas e água e céu e solidão

onde um mar de rias baixas desagua dentro de nós

pinta Jordi um rosto de mulher

a ocre

terra-siena e carmim.

…Que os cabelos e os jardins

querem-se soltos e naturais

como as aves e as manhãs!

Um homem nu toca Mussorgsky ao vivo

como se Jordi pintasse Quadros de Uma Exposição.

Bem perto daqui

há muito foi sonhada Nostalgia

mas ninguém viu a luz vermelha

fendendo as águas verdes

e a dor já se vestia de terra e flores

e a dor já fugia para lá dos montes

onde moram mulheres de vento.

 

Poemas do ser e não ser (dedicado à Carla Romualdo, se ela não se importar)

Todos somos feitos de cordas

qual cérebro qual coração!

cordas de violino

cordas de guitarra

cordas de enforcar

cordas daquelas que amarram

cruelmente

os barcos ao cais

e os fazem soluçar

(já viram coisa mais triste

do que os barcos a baloiçar

presos às argolas do cais?)

Felizes os que têm por amarra

as cordas de um violino

ou as cordas de uma guitarra.

 

Poemas estoricônticos

A luz era azul

 

A luz do sol era azul…

lembro-me como se fosse hoje!

A luz azul azulava os claustros

as caras e o sentir.

Imaterial

pálida e fria.

As grandes janelas filtravam

a luz azul que entrava dentro de nós

como chuva miudinha.

Pela vida fora senti sempre um arrepio

ao recordar essa luz azul e fria.

As batinas negras dos jesuítas eram azuis e frias

frias e azuis como os olhos

a alma e a sombra.

A alma não era

nessa altura

apenas designação académica.

Por isso ela punha os braços de fora

e estrangulava a minha frágil personalidade

de adolescente

sem sexo nem liberdade.

Se Deus existisse e fosse justo

teria poupado Ignacio de Loyola

à mística Cristocêntrica

e ter-lhe-ia dado Catarina

Germana ou Leonor.

Se Deus existisse e fosse humano

teria posto A Freira no Subterrâneo

dentro da pureza dos meus lençóis

aquecidos de saudade

e vazio azul e frio.

A saudade excitava-me

vivia-me de dia e adormecia-me de noite.

Saudade do Caminho Novo

da minha fogueira quente e vermelha

do meu sol vermelho e quente

do meu campo

do meu rio

da minha noite de estrelas e luar.

A luz azul e fria

reacendeu-se ao fim de quarenta anos

e eu tive medo.

A imposição do azul

desfaz as formas e os sons

e remete para a cidade da morte.

Discordo de Kandinsky

no movimento do azul para o infinito

solene e metafísico

a caminho da eternidade tranquila.

A culpa foi daquela luz azul e fria!

O medo do azul abre as portas do inferno

e mostra lá dentro a coragem a arder.

Sem coragem não há saudade

último reduto da liberdade.

Coragem

liberdade

saudade

inverteram as horas e perderam o tempo.

Correm agora fora das veias

à velocidade de uma luz fria e azul

azul e fria.

 

Premonição

Canción para ese día

 

He aquí que viene el tiempo de soltar palomas

en mitad de las plazas con estatua.

Van a dar nuestra hora. De un momento

a otro, sonarán campanas.

 

Mirad los tiernos nudos de los árboles

exhalarse visibles en la luz

recién inaugurada. Cintas leves

de nube en nube cuelgan. Y guirnaldas

 

sobre el pecho del cielo, palpitando,

son como el aire de la voz. Palabras

van a decirse ya. Oíd. Se escucha

rumor de pasos y batir de alas.

 

Jaime Gil de Biedma, Antologia Poética (Alianza Editorial, 2007)

"Aos vindouros, se os houver"

Vós, que trabalhais só duas horas

a ver trabalhar a cibernética,

que não deixais o átomo a desoras

na gandaia, pois tendes uma ética;

 

que do amor sabeis o ponto e a vírgula

e vos engalfinhais livres de medo,

sem preçários, calendários, Pílula,

jaculatórias fora, tarde ou cedo;

 

computai, computai a nossa falha

sem perfurar demais vossa memória,

que nós fomos pràqui uma gentalha

a fazer passamanes com a história;

 

que nós fomos (fatal necessidade!)

quadrúmanos da vossa humanidade.

 

Alexandre O’Neill, Poemas com Endereço

Coro

“Mãos de mulheres, cheias de ternura,
cozinharam seus filhos,
que lhes servirão de alimento,
quando da ruína da filha do meu Povo.”
Bíblia. Livro das Lamentações, Jod

«O que é um homem bom?»
O que é um homem bom?, penso e pergunto-te
sem medo da palavra que não trova com o mundo,
de quando em vez, acosso-te: «O que é um homem bom?»
novamente assomo sem pudor de te perturbar ainda; vivo assim:
sem medo da tua pele tão à beira de mim, sem me retrair nos olhos
e fico de borco desejando despenhadeiro – tua voz – essa vida com sotaque vigilante
e se a minha palavra se abeirasse dos teus olhos
não sei se seria um lago, neve, iogurte dentro do prazo, a leve vida,/
ou Elisa cantando: Tanzânia, T-a-n-z-â-n-i-a, T-a-n-z-â-n-i-a,
T-a-n-z-â-n-i-a sem adivinhar um punhal
levando a morte ao seu corpo;
sei, talvez, que essa palavra seria sempre um objecto secundário,
um acessório de uma memória suja, demente ou ambição de vertigem
face de um fragmento rudimentar com que irias à procura
de qualquer coisa que te lembrasse
que não existe diz-que-diz-que na solidão
essa pele que absorve a fundo a noite
outra vez vem ter comigo, imploro!
acossa de relance – nos meus olhos – a tua mão, par
da mão que desossa com o cutelo os ossos, toca piano,
mão engatilhando, levando a extinção na sua força, fixando
os corpos no seu tempo “ A guerra foi há duas semanas”, diz o homem
com as duas mãos no volante
. O que é um homem bom?, vacilo
— a mão de Sacha nas mãos
da mãe de Sacha; os olhos das mães crescendo
como a tensão nas mãos da mãe de Sacha

tanta face de lume! quando pensas noutro humano
tão impartilhável como é para mim o teu corpo de remendos,
depois vêm as palavras que seguram
o homem empoleirado, podando a preceito os ramos
de árvores russas, isso, as árvores eram russas,
as copas das árvores russas, a cidade ao fundo,
um enquadramento, um plano
tal como o rosto de infância a ser enterreado
na improvisada vala comum,
a areia tapando o rosto infantil de olhos abertos,
os corpos amontoados na carrinha de caixa aberta,
mas esse relâmpago em câmara-lenta — a última imagem — os olhos abertos
o bebé, e outras palavras juntam-se a ti
: manga-curta manga-comprida
porco-preto porco-branco
« o porco-preto é mais difícil de conseguir, corre mais
»

e os corpos arrojados até à porta da embaixada
as copas das árvores russas, os sacos de comida para o gato
a cultura do açafrão, Maria, a campa da Maria, as mãos da Marias
separandos as lágrimas do rosto, para se sentir mais na morte do filho,
o filho da Maria a galope do cavalo entrando pelo lago num dia de verão
russo, a aldeia russa da Maria, o marido da Maria e a nova mulher nova
a Maria entrando terra adentro com as suas mãos respirando a força do sol,
a comoção do realizador com a morte e campa da Maria, com as palavras da filha da Maria,/
a Maria fixando-se palavra viril
e ficas a pensar na possibilidade do nome das coisas, das tuas coisas quotidianas, tão a jeito e próximas da tua indiferença,
« o porco-preto é mais difícil de conseguir, corre mais»