As catástrofes da natureza

Adão e Eva expulsos do Paraiso

Falamos de catástrofe quando acontece uma grande desgraça que atinge muitas pessoas. Normalmente e da forma que tenho escrito nestes dias, adjudico o conceito às desgraças que têm acontecido no arquipélago da Madeira, na República do Chile e em toda a Europa do Norte, ao longo deste interminável, inacabável e fustigante, inverno das nossas vidas. Estes anos de 2009 e 2010. Tenho, por engano meu, pensado a natureza como elemento geográfico esquecendo, pelo facto das desgraças que nos acontecem, que o ser humano faz parte da natureza. Ao escrever sobre o ser humano como uma entidade que procura lucro e mais-valia, esqueci-me que estes dois conceitos fazem parte do pensamento das pessoas. O lucro e a mais valia não existem como elementos da natureza. Formam parte do pensamento, do cálculo, da procura da riqueza e do bem-estar, conceitos que fazem parte do pensamento económico do ser humano. Pensamento económico que tenho definido noutros textos como o trabalho que cria um conjunto de leis que presidem à produção e distribuição das riquezas. Donde, riqueza é o resultado da acumulação de bens poupados e investidos para render moeda. [Read more…]

Poetas

 Numa altura em que o pensamento único tende a fazer deste planeta um mundo irracional e idiota, nestes tempos de profunda hipocrisia e escassa poesia, tentar a poesia é, ainda, tentar voar.

Sobre a poesia e os que a tentam descobrir, os chamados poetas, recai muitas vezes um julgamento pejorativo.

 A poesia é assim uma coisa…e os poetas uma espécie de lunáticos que não têm os pés assentes na terra.

Eles têm os pés assentes na terra. O que acontece é que a terra nem sempre é terra, e eles erguem os pés porque a terra é merda mal cheirosa.

 A poesia está para além das letras, das sílabas e dos versos. É uma espécie de ascese que envolve o Homem e o aproxima da sublimação da vida. Estou convencido de que há muitas pessoas que não conseguem ultrapassar a fronteira para além da qual a razão do mundo não é a sua ou a visão do mundo não é a que diariamente nos impingem. E penso, é apenas uma opinião, que a causa está na ausência intrínseca de sentimento poético. [Read more…]

Numa de ciência e poesia

 (Poema de Ofélia Bomba, minha colega, não de cardiologia mas de psiquiatria)

 

O ninho

É do azul que parto

Para o percurso único da poesia

Do azul do mar imenso

Do azul intenso

Que banha o meu país

E a minha fantasia

E segue solitário até ao infinito.

Passo pelo roxo da saudade

Nos lírios imortais de Van Gogh

Mistura de óleo e eternidade

De espanto e grito.

Passo, depois, no amarelo vivo

Dos girassóis de Julho em Portugal

E brindo à vida, ao amor cativo

Único, intemporal.

Navego no vermelho. Lume e fogo

Aurora boreal do meu percurso

Em que me perco e quase afogo

E desço à terra, ao castanho baço

Força telúrica a lembrar o curso

Do passado e do presente, num abraço.

Continuo no preto. Tinta-da-china.

Ou numa nuvem carregada de água

Na viuvez duma tarde chuvosa.

Liberto-me no branco em que assisto

À neve, à cal, aos vestidos de noiva

À bata da escola de menina

E paro p’ra pensar. Duvidosa.

Que importa se o teu olhar

É verde ou dourado

Bordado de sol ou de luar

Que importa se o teu sorriso

É um poente

Tinto de promessas quase a naufragar.

Se este poema é um caminho

Tecido de arco-íris e de asas

Onde me aventuro e ouso

E todas as cores do mundo

São o ninho

Em que eu repouso.

Numa de ciência e poesia

(Poema de Ofélia Bomba, minha colega, não de cardiologia mas de psiquiatria) 

O ninho

É do azul que parto

Para o percurso único da poesia

Do azul do mar imenso

Do azul intenso

Que banha o meu país

E a minha fantasia

E segue solitário até ao infinito.

Passo pelo roxo da saudade

Nos lírios imortais de Van Gogh

Mistura de óleo e eternidade

De espanto e grito.

Passo, depois, no amarelo vivo

Dos girassóis de Julho em Portugal

E brindo à vida, ao amor cativo

Único, intemporal.

Navego no vermelho. Lume e fogo

Aurora boreal do meu percurso

Em que me perco e quase afogo

E desço à terra, ao castanho baço

Força telúrica a lembrar o curso

Do passado e do presente, num abraço.

Continuo no preto. Tinta-da-china.

Ou numa nuvem carregada de água

Na viuvez duma tarde chuvosa.

Liberto-me no branco em que assisto

À neve, à cal, aos vestidos de noiva

À bata da escola de menina

E paro p’ra pensar. Duvidosa.

Que importa se o teu olhar

É verde ou dourado

Bordado de sol ou de luar

Que importa se o teu sorriso

É um poente

Tinto de promessas quase a naufragar.

Se este poema é um caminho

Tecido de arco-íris e de asas

Onde me aventuro e ouso

E todas as cores do mundo

São o ninho

Em que eu repouso.

Utopia

Sempre te amei utopia!

Pequeno sol deste universo sonhado

insondável magia!

Como te amo ainda

fímbria de meus restos

teofânica nuvem deste cabalístico mundo!

Os mesmos dedos

o mesmo perfil

o mesmo cabelo

o mesmo cigarro

o mesmo voo de abutre

sobre a minha cabeça tonta

o mesmo voo de milhafre

de corvo

de cisne

de gaivota

de pomba inocente.

Como te amo

abetarda que sou

presa à terra sem asas de pássaro!

Na planura dos mil campos e das mil fontes

corro atrás do teu cheiro

dia e noite

como louco animal de pêlo macio

sem medo dos espinhos de acanto.

Como te amo nos escombros dos meus dias!

A miragem do teu perfume

combina o ar e a luz

que fazem respirar a memória.

Ninguém te viveu e amou como eu!

Peregrino de mim mesmo

só em ti me detenho.

Por te amar

só a ti eu não via.

Eras o céu e o mar

eras a noite e o dia.

Poesia do Socialismo Português (Poesia & etc.)

Entre a tempestade que assolou Portugal e o caudal de terríveis notícias que ia chegando do Chile, flagelado por um sismo de elevada magnitude, no sábado, 27 de Fevereiro, pelas 16 horas, no auditório do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, teve lugar o lançamento do livro “Poesia do Socialismo Português no percurso de 1850 a 1974”, da autoria de Sílvio Castro e publicado pelas Edições Colibri. Sílvio Castro (1931) é um escritor brasileiro, poeta, ficcionista, ensaísta e titular da cátedra de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Pádua. Este seu estudo tem como objectivo central demonstrar a existência, no período considerado, de um recorrente projecto de associar a poesia à realidade sociopolítica do País.

Estas balizas temporais (1850-1974) marcam os limites entre as primeiras manifestações do socialismo em Portugal e a Revolução de Abril, carregada de ideologia socialista. Durante este período, o poema revolucionário, interventivo e de luta, foi uma constante na poesia portuguesa. Naturalmente que a poesia produzida durante estes mais de 120 anos reflecte uma paleta de cores que começa no socialismo utópico, adentra-se pelo socialismo científico e, por vezes, crítica ou laudatoriamente, emerge, ou imerge. do socialismo real. É esse persistente fenómeno que o estudo de Sílvio Castro aborda, analisando as obras de poetas portugueses que tipificam essa constante e ilustrando as análises com poemas escolhidos.

A apresentação, a cargo do Professor Manuel G. Simões, traduziu-se numa excelente apreciação da obra, da qual vou transcrever alguns trechos mais significativos:

«Em primeiro lugar apraz-me registar o que este livro é e o que não é, servindo-me, para isso, das próprias palavras do Autor: “Este é um estudo sobre a poesia portuguesa no amplo espaço de duas “Modernidades”: aquela Romântica e a Novecentista. Entretanto, ainda que estruturalmente ligado a uma metodologia histórico-literária – e preso em modo central à análise da criação do fenómeno poiesis – não deve ser tomado como uma história da poesia do Portugal moderno e contemporâneo. Isto porque é uma tentativa de síntese crítica da criação da poesia ligada a um particular e muito específico produto: a política. E, mais ainda, ao Socialismo português.» [Read more…]

Gabriela Mistral

Foto da petisa ao ganhar o prémio Nobel

Tinha eu, se bem me lembro, doze ou treze anos, quando a vi pela primeira vez. Ela tinha vários anos mais, sempre calada e silenciosa. Falava quando lhe parecia bem. A maior parte da sua vida, do seu dia, das suas noites, em silêncio. Exprimia os seus sentimentos por escrito. Vestia sempre uma roupa larga, tecida num tipo idêntico à serapilheira, que raramente mudava. Raramente também tomava banho, somente lavava o interior do seu corpo e as partes públicas. Não cheirava mal, apenas quando bebia a sua bebida preferida, a sangria, essa bebida que combinava um nadinha de vinho, muita água e açúcar, que bebia várias vezes ao dia. Tinha o mau hábito de arrotar após as refeições, costume que ninguém apreciava, era de um som e fedor repelente.
Gabriela foi o nome por si escolhido por puro prazer e Mistral, porque sentia ser o vento que soprava com força e tudo varria. Tal como ela com os seus versos e os prémios que vencia. Tanto quanto me lembro (escrevo exercitando as minhas memórias pessoais), nasceu na vila de Vicuña, no Vale de Elqui, situada no norte do Chile. Nasceu de mãe madura e assistida por uma parteira, que sofreu imenso a tirar a criatura do ventre materno, vinha mal posicionada e quase asfixiada, nesse 7 de Abril, dia do seu nascimento no ano de 1889. Viveu até 1957, relembro esse dia e o pranto que não cessava de cair dos meus românticos olhos e coração e do amor que sentia pela sua poesia e pela sua pessoa. Viveu apenas 68 anos, faleceu a 10 de Janeiro, dia da sua entrada na eternidade, poucos meses antes do seu próprio aniversário. [Read more…]

Antero (Poesia & etc.)

É um dia húmido de Novembro. São Miguel está, como quase sempre, sob uma espessa camada de nuvens. Azorian torpor é como os ingleses chamam a esta atmosfera opressiva, obsidiante, que não só atormenta o corpo como parece infiltrar-se e assediar a mente. Na baixa de Ponta Delgada, ao lado da Tabacaria Açoriana, fica a loja de quinquilharias de Benjamim Ferin. Antero entra na loja e cumprimenta o empregado. Está calmo, tranquilo.

Pergunta se tem revólveres à venda. O empregado olha-o surpreendido. Antero, sorri:
– Sabe, vou morar para um local longe de vizinhança. Com a malandragem que anda por aí, é bom estar prevenido.

– Sem dúvida, senhor doutor. É mais prudente estar prevenido.

E vai buscar as armas que tem para venda. Antero analisa-as uma a uma. Acaba por optar por um revólver Lefaucheux. O empregado ensina-o a carregá-lo.

– Nunca peguei numa arma de fogo…
O homem dá-lhe mais algumas explicações. Quando vai a retirar as balas do tambor, Antero diz-lhe:
– Não, não. Deixe-o assim, já pronto.
O homem obedece, mas avisa de que convém nunca esquecer que a arma está carregada, pronta a disparar. Às vezes há acidentes…
– Esteja descansado. Vou ter todo o cuidado. [Read more…]

Calendário da cintura industrial (Poesia & etc.)

Tinha dito que neste série Poesia & etc., publicaria poemas, inclusive poemas meus. Até agora não tinha publicado nada da de minha autoria. Este poema, “Calendário de Cintura Industrial” foi escrito há muitos anos. Foi escrito ao mesmo tempo que os poemas inéditos de «O Cárcere e o Prado Luminoso», publicado em 1990. Sempre o achei um pouco lamecha e, além isso, excessivamente longo para o meu gosto. À última hora, retirei-o do livro. Tenho-o guardado, hesitando entre o deitá-lo fora ou reformulá-lo. Assim, foi mantido inédito durante vinte anos. Até hoje. [Read more…]

a rapariga do violino. história de infância

Era a menina mais linda e querida de todas, doce como o mel, não de muitos beijos, subtituidos por palavras bonitas e poéticas. As suas primas a adoravam e não eram capazes de passar sem ela. Ia de casa em casa as visitar e em todas elas dormia, excepto se a avó mais querida, estava só, a Avó Graça, uma mãe para ela.

É verdade que a rapariga do violino tinha a sua própria mãe, querida, mas muito longe, em outro país essa mãe Marta, no mesmo no que morava o tío primo Luís, mas bem mais longe de onde morava o seu pai, Ludgero.

Pai no Brasil, mãe na Inglerra a tirar um curso especial, esse famoso Skype da Avó Mãe Graça, era uma joia: podia vê los e falar com eles como se estivessem muito perto, como costumava fazer com o tio primo Luís. Que a levava as costas, era o seu cavalo.o havia semana em que os pais não falassem com ela e a ouvissem. Os pais no perguntavam da escola, contavam lhe histórias e o que eles faziam.

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a paixão que mata o amor

A morte de Beatriz

Para a mulher que respeito e amo, ela sabe quem é….

O povo português anda preocupado pelas batalhas políticas. Nem sabemos quem nos governa: se é o primeiro-ministro ou a oposição. E se é a oposição, qual é, entre todos os presidentes dos partidos das bancadas que fazem do governo uma minoria, o que exerce o poder? Minoria que, estrategicamente, procurará convénios com os partidos mais pequenos que apoiam o governo minoritário, com condições eternas.

Devo confessar que é um tema interessante, apaixona-me no meu querer saber de como vamos resolver a crise económica que nos atormenta e empobrece, como vamos criar mais postos de trabalho, como vamos agasalhar os que têm frio e fome especialmente em dias de festa, como o carnaval. Povo teimoso que, com frio e tudo e sem dinheiro, passeia e anda pelas ruas da alegria, esquecendo assim as da amargura.

No entanto, quando estamos no meio de outros problemas, sobretudo emotivos, o que o governo faça ou não, passa para segundo plano nos nossos interesses. Até um certo ponto. A crise económica entra nos nossos sentimentos e ficamos fracos para o amor. Bem queríamos amar sem preocupações e oferecer presentes, mas a carestia de vida em que este fraco governo nos meteu, faz-nos mais pobres ainda: de recursos e de emoções.

Os recursos, podem ser resolvidos, o amor também. Um nada de optimismo coloca-nos nas portas da serenidade e da paz. Requisito mínimo, para sabermos conviver em permanente conflito político, especialmente nós, que apoiamos o governo de minoria e os seus aliados. [Read more…]

"Sinto vergonha de mim"

Poesia do Gharb Al-Andalus

Samia_Gamal_-_Belly_Dance_1

“Repeles-me!

porque deixas minh’alma abandonada?

se a tua ausência é uma longa noite

seja o nosso abraço d’amor a alvorada.” (1)

Poema escrito por Al-Mu’tamid

No ano de 1031 cai o Califado de Córdoba e o Al-Andalus divide-se em reinos independentes, que ficaram conhecidos pelo nome de Reinos de Taifas (do Árabe Muluk At-Tawaif, ou reinos fraccionados). O poder centralizado do Califado Omíada, cada vez mais dependente de uma máquina administrativa pesada e geradora de pesados impostos, aliado aos desejos de autonomia das inúmeras etnias que povoavam o Andalus, estão na origem deste fraccionamento do poder político.

No Sul do território hoje ocupado por Portugal, o Gharb Al-Andalus, ou Ocidente do Al-Andalus, constituem-se quatro reinos de taifas _ um grande reino na zona mais a Norte com capital em Batalyaws (Badajoz), um reino correspondendo à região do Baixo Alentejo com capital em Mârtula (Mértola) e dois reinos no actual Algarve, concretamente os reinos de Xilb (Silves) e Xantamarya Ibn Harun (Faro).

É neste período que floresce uma cultura Hispano-Árabe, sobretudo ao nível da poesia, resultado de uma identidade local criada pela fusão de elementos étnicos árabes, berberes, judeus, hispano-romanos e hispano-godos. No caso específico do Sul de Portugal essa poesia é hoje referida como Poesia Luso-Árabe e são inúmeros os autores que deixaram obra escrita. Dois desses autores ficariam conhecidos como os mais representativos desta cultura _ Al-Mu’tamid e Ibn ‘Amar. [Read more…]

a lição do professor: o contexto social da criança

Ensaio de Antropologia da Educação

Conceição Lopes, a Sardinheira

Conceição Lopes, a Sardinheira

1. Abertura com todos os instrumentos.

Costumamos pensar que é o professor quem ensina. Na pré primaria, ensino básico, ensino secundário, nos outros ciclos, no ensino denominado superior. Os primeiros ciclos, formam um cidadão; os segundos, orientam para um trabalho ou profissão que, os habilitam para tarefas técnicas ou académicas. Todas as alternativas são necessárias e respeitáveis. Todos os de diferentes ciclos, em permanente debate. Nunca há pleno acordo em relação à maneira de ensinar e sobre o que deve ser aprendido pelos mais novos. Mais novo que, pela sua vez, andam a aprender nos seus próprios ciclos de vida: na escola, na casa, no bairro. Crianças nascidas numa sociedade de quem são herdeiros, entendam ou não, saibam ou não, aceitem ou não, mudem ou não.

Normalmente, acabam por retirar da memória social esse palavrão usado por mim e por outros em tantos textos e que consiste em transferir as ideias de uma geração à seguinte – da memória social, o que deve ser feito e o que não. Por outras palavras e de forma simples, retiram de memória social o bem e o mal. Branco e preto. Sem gradações pelo meio, sem mais alternativas que as usadas e inventadas pelos seres que manipulam a vida para continuar, para produzir, para reproduzir. [Read more…]

presentes de natal:ofertas ou coima social?

a rosa da dádiva

a rosa da dádiva

Um minuto antes de começar este ensaio, acabei um livro sobre o grupo doméstico. O livro nasceu de uma conferência proferida em Alicante, no IV Congresso de Antropologia de Espanha. Como eram 25 páginas, com imensas citações, fiz de cada citação um texto, com imagens, comentários e definições. Um livro de texto. O livro foi-se escrevendo: é um livro de texto para os meus discentes, o meu presente de Natal. Foi escrito com imagens das etnias que estudamos, fotos dos pais fundadores da nossa ciência, comentários sobre a sua vida pessoal e, como gosto de dizer, outras ervas para criar uma obra com amor nos tempos de cólera. De cólera doença, não de cólera sentimento. Enquanto escrevia, como é época de Natal, fui pensando nos presentes oferecidos, nos recebidos e no silêncio da minha casa antigamente cheia de barulho na quadra natalícia. Quer a dos meus pais, quando éramos adolescentes ou púberes, quer, quando formámos a nossa própria família, quer ainda, na minha casa de hoje, ninho vazio dos passarinhos feitos por nós, enquanto eles fazem os seus próprios e os criam.

Apareceu na minha cabeça esta ideia que o sábio Maori Tamati Rainipiri,

sábio maori Tamati Rainipiri

sábio maori Tamati Rainipiri

explicara a um discípulo de Mauss, o criador do conceito reciprocidade como oferecer – aceitar – devolver, em conjunto, reciprocar. Pensamos sempre em reciprocidade como troca mútua ou compensação. [Read more…]

Memorial poético (1)

Confronto

 

O ódio é arma que mata,

O divórcio é a secura,

Os remorsos são a errata,

De um amor que é a cura.

 

Príncipe sem principado,

Soberano por quimera,

Amante sem ser amado,

Herói de uma outra era.

 

O Homem é poeta,

Sonhador sem igual,

Expulsou Cristo da Terra,

E recusa-se a ser mortal.

 

Viajante nas horas do tempo,

Ulisses no mundo do sonho,

Já fui guerreiro do Olimpo,

Dando a parte pelo todo.

 

(Porto, Dezembro de 1993)

Bukowski revisitado #2

Porque toda a gente tem direito a um Natal feliz, eis outro poema de Charles Bukowski, também simples e informalmente traduzido:

as putas de Hamburgo

as prostitutas de Akron estão em todo o lado.

vejo-as em todo o lado

nos filmes

nas outras cidades do mundo

mas vi as putas de

Hamburgo só uma vez.

.

estão lá como seres eternos

à espera.

.

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Bukowski revisitado

Dei com um livro de Charles Bukowski esta manhã, acabado de acordar, quando me encontrava na casa de banho. Lugar adequado, pensei, com o sorriso semi-alarve e o preconceito de quem se habituou a olhar para a biografia e para a fama, mais do que para o escritor (apesar, claro, de todo o esforço deliberado que o escritor fez para que confundíssemos obra e biografia, até porque a sua escrita é, quase sempre, autobiográfica). Há anos que eu não lia Bukowski.

Avançando na leitura, libertando-me da ganga inicial, encontrei um poeta – não exactamente um poeta maldito – um poeta apenas, dos bons.

O livro estava em italiano, numa tradução do inglês de Luigi Schenoni. É a partir dessa versão que vos traduzo, de forma simples e rápida [Read more…]

They met some thirty years ago…

Some thirty years ago, I used to carry my youngest daughter to the school, half a block away from the house.  She was blonde, red on her white cheeks, very cheeky, even with me. What a big patience from Dad…

Her face used to illuminate as soon as she saw Katy Pompar, her teacher, and that lot of friends, always surrounded by  Russel, Cosh, or  Campbell,  Harrison and another, distant classmate, Felix Ilsley. There were many more. Time passes away and one forgets names, but not faces, games and intimacy

children playing away

children playing away

Time passes away. They grow up. They study. They ride their bicycles in our Cambridge town and surroundings countryside. Secondary School meets them at their eleven years of age, and six years later, the Pre University A level School. Camila was always a bright student. Just a glance on a book and the ideas, as also happened with our elder daughter Paula, became a memory in their minds.

To wake her up in the morning was an agony. She always wanted to sleep more! I used to go into her bedroom and bed and sung for her. It used to be a sweet lullaby to wake her up, very smoothly, lovely and tender. For a number of years, she came to be the woman of the house: her Mother used to work away from Cambridge, and I, away from UK. Problems of the adults…that children pay…

Time flew away. She became my soul mate, my companion, my caretaker. I am so grateful!

Because of family work, Felix had to leave St. Pauls’ Primary school….

Years later, they mate again…and the miracle

love and tenderness

love and tenderness

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Jardim de Inverno: Neruda

Jardín de invierno

Llega el invierno. Espléndido dictado
me dan las lentas hojas
vestidas de silencio y amarillo.

Soy un libro de nieve,
una espaciosa mano, una pradera,
un círculo que espera,
pertenezco a la tierra y a su invierno. [Read more…]

Melodía de Invierno

Mañana de invierno. Silencio. Neblina.
La vega aplanada exhala luz divina.
Mudos los jardines bellos.
Cielo azul. Fuentes heladas.
Mustias rosas escarchadas.
Blancos e turbios destellos.
Una madre andrajosa cruza el jardín.
Tiene el sol un crescendo. [Read more…]

A pálida luz da manhã de inverno

A pálida luz da manhã de inverno,
O cais e a razão
Não dão mais ‘sperança, nem menos ‘sperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem menos sossego sequer,
Para o meu ‘sperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.

Fernando Pessoa

Poesia – Inverno – Bocage

Bocage

Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas,
Geme, de horrendas nuvens carregado;
Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado
Investe ao pólo em serras escumosas;

Ó benignas manhãs!, tardes saudosas,
Em que folga o pastor, medrando o gado,
Em que brincam no ervoso e fértil prado
Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas!

Voltai, retrocedei, formosos dias:
Ou antes vem, vem tu, doce beleza
Que noutros campos mil prazeres crias;

E ao ver-te sentirá minha alma acesa
Os perfumes, o encanto, as alegrias,
Da estação que remoça a natureza.

Inverno: Jorge de Sena

Glosa À Chegada do Inverno

Ao frio suave, obscuro e sossegado,
e com que a noite, agora, se anuncia
depois de posto, ao longe, um sol dourado
que a uma rosada fímbria arrasta e esfia…

Da solidão dos homens apartado,
e entregue a tal silêncio, que devia
mais entender as sombras a meu lado
que a terra nua onde se atrasa o dia…

Recordo o amor distante que em mim vive,
sem tempo ou espaço, e apenas amarrado
à liberdade imensa que não tive,

e que não há. Como o recordo agora
que a luz do dia já se não demora,
se apenas de si próprio é recordado?

(Líricas Portuguesas, Portugália Editora)

Poemas com história: Memória descritiva

Com «Memória descritiva» encerro esta série dos «Poemas com história» Durante alguns meses, à razão de um por semana, aqui fui fazendo desfilar textos poéticos que escrevi, sobretudo durante o período da ditadura – alguns pertenciam a livros que foram apreendidos pela polícia, tais como «A Voz e o Sangue» (1ª edição em1967) e «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos» (1970). O primeiro destes títulos foi a causa próxima da minha prisão em princípio de 1968. Outros pertenciam à única colectânea de poemas que publiquei depois de 1974 – «O Cárcere e o Prado Luminoso» (1990). Alguns, muito poucos, eram inéditos. [Read more…]

Poemas com história: Trago uma voz encarcerada

O poeta Marcos Ana na Feira do Livro de Madrid, em Junho de 2009.

O escritor Marcos Ana, pseudónimo de Fernando Macarro Castillo, nasceu perto de Salamanca em 1920. Durante a Guerra Civil, integrado no Exército da República, participou na Batalha de Madrid. Preso, foi torturado e condenado à morte, embora a pena nunca tenha sido cumprida. Em meados dos anos 50 começou, na prisão, a escrever os seus poemas. A sua obra chegou a diversos intelectuais e gerou-se um movimento para a sua libertação. A Amnistia Internacional pressionou o governo de Franco e, em Novembro de 1961, foi exilado em França. [Read more…]

Poemas com história: Defesa de um ladrão de fogo

Este poema, publicado em «O Cárcere e o Prado Luminoso», terá sido escrito pouco antes da Revolução de Abril, quando a luta armada, através das acções da LUAR, da ARA e das BR, começava a ferir as estruturas militares da ditadura. Em 1973, Outubro, salvo erro, aderi ao Partido Revolucionário do Proletariado, que se formara em Setembro, em Argel. Como se sabe, o PRP apareceu como estrutura política das Brigadas Revolucionárias, que já existiam e operavam. Ladrões de fogo era uma designação que eu usava, desde há muito tempo, para os que lutavam contra o regime, fazendo apelo ao mito de Prometeu. O poema é, portanto, uma auto-justificação e, num sentido mais amplo, uma explicação dos mecanismos que levam os homens a pôr em causa a sua liberdade e até o seu bem-estar para lutar por uma causa. Neste caso, o roubar o fogo do Olimpo, o poder, retirando-o da mão dos deuses, os oligarcas, e entregando-o ao povo. Passado este tempo, vejo que apenas simbolicamente o fogo está em poder do povo. Mas já todos aqui conhecem o que penso sobre a Democracia que temos. Vamos mas é ao poema. [Read more…]

Poemas do ser e não ser

Ouço o silêncio

dos olhos que se fecham

na falta de esperança.

Amo o silêncio

das cores vivas e do sonho

que nos tece a alma

entre a vida e a morte.

Dói-me o silêncio negro

dos gritos proibidos

e sinto o dourado silêncio

dos gestos da noite

que nos abrem os olhos.

Amargo o silêncio

das horas sem brilho

e vivo o silêncio do mar

que risca na areia a força vencida.

Assumo o silêncio sagrado

da liberdade e da vida

e o silêncio de um céu de fogo

que nos abre a cova na terra fria.

Poemas do Ser não Ser

Diz-me onde tens a alma

gostava tanto de saber

gostava tanto de beber

um cálice de vodka

ou de porto

à saúde da tua alma…

Ou de fel

não importa.

 

Poemas estoricônticos

 

Ela viveu muitos anos na cidade da memória

e foi-se perdendo pelos recantos

da alegria e da tristeza.

Recordo-a ainda

nos pátios sevilhanos

da minha história

nas madrugadas alucinantes

do canto cigano de Las Chapas

e do plangente grito das guitarras nuas.

Eu quis que este encontro

assomasse a alma das coisas

e tocasse as cordas de um violino

onde quer que ele estivesse.

Eu quis que a pintura fosse dura

poética

incendiada

mas a melodia desconcertada

foi uma dramática dança de marionetas.