Vede a unificação ortográfica e pasmai!

O chamado acordo ortográfico (AO90) foi criado para uniformizar a ortografia lusófona e para acabar com uns alegados desentendimentos gráficos entre falantes intercontinentais da língua lusa e dar início a um universo editorial cheio de edições únicas do Minho a Timor. Escolheu-se o chamado “critério fonético”, o que garantiu, logo à partida, a impossibilidade de criar uma ortografia única. A incúria e a falta de rigor juntaram a essa impossibilidade a possibilidade de, dentro do mesmo país, poder passar a escrever-se “expectativas” e “expetativas”, em nome do estranho critério acima referido.

Os defensores do AO90, diante do caos, dizem que não era bem uniformizar, era só aproximar ainda mais, o que levou a que nascessem diferenças outrora inexistentes, como “receção” e “recepção”. [Read more…]

Escrita portuguesa na vertente brasileira ― não há polémica

[O] projecto de texto de ortografia unificada de língua portuguesa (…) constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional

Resolução da Assembleia da República n.º 26/91

A exigência de ‘escrita portuguesa na vertente brasileira‘ (repito e saliento, para quem não tiver lido com atenção: escrita) impedirá qualquer candidato a director do CCBM de grafar coisas estranhas como ‘receção’, ‘aceção’, ‘confeção’, ‘interceção’, ‘perceção’, ‘perentório’ ou ‘rutura’. Isto é, um candidato a director do CCBM que tenha a ousadia de grafar, por exemplo, ‘recepção’, ‘acepção’, ‘confecção’, ‘intercepção’, ‘percepção’, ‘peremptório’ ou ‘ruptura’ demonstrará um “desejável conhecimento da escrita portuguesa na vertente brasileira”. Sim: brasileira.

Ou seja, qualquer português que adopte o AO90 encontrar-se-á automaticamente excluído do rol de candidatos a director do CCBM, independentemente das ‘ações’, dos ‘diretores’ e de grafias afins ― incluindo ‘fatos’, ‘contatos’ e ‘seções‘. Bem-vindos ao mundo da “ortografia unificada de língua portuguesa”.

Felizmente, já tudo se resolveu, uma vez que «a Embaixada do Brasil em Maputo declinou pronunciar-se sobre a matéria por entender que “não há polémica no concurso”».

Portanto, não há polémica, está tudo bem. Antes isso.

Olha a uniformização ortográfica fresquinha! (5)

Acepção (Bras.)/Aceção (Port.)

Nota: antes do AO90, escrevia-se da mesma maneira no Brasil e em Portugal. É ou não é uma uniformização ortográfica fresquinha? É, pois!

Acordo ortográfico aumenta as diferenças ortográficas entre Portugal e o Brasil

NAO2cOs criadores e os defensores do chamado acordo ortográfico (AO90) procuram vender, desde o início do processo, a ideia de que o dito AO90 veio trazer ao mundo da lusofonia a uniformização ortográfica, o que permitiria acabar com a angústia da escolha de uma ortografia em instituições internacionais e operaria o milagre das edições únicas de livros nos países aderentes.

Não é, portanto, invulgar, ouvir a frase “Agora, escrevemos todos da mesma maneira.” Ora, isso não é verdade sob nenhum aspecto, o que inclui o sintáctico, o lexical e, surpreendentemente, o ortográfico. Fazendo de conta que os dois primeiros não têm importância, é importante ir repetindo e demonstrando o último: mesmo depois do AO90, Portugal e Brasil não têm a mesma ortografia, o que deveria constituir prova suficiente do falhanço do chamado acordo.

No Público de hoje, surge um texto de Maria Regina Rocha, professora e consultora do Ciberdúvidas, em que são apresentados alguns factos que surpreendem mesmo os que já estavam surpreendidos: a autora, recorrendo ao Vocabulário de Mudança, informa-nos de que, com o AO90, aumentam as diferenças ortográficas entre Portugal e o Brasil. Deixem-me, apenas, realçar: aumentam. [Read more…]

Contra o Acordo Ortográfico: não há uniformização ortográfica

A tese deste texto é a de que o AO90 não produz uniformização ortográfica, e isso, de certo modo, já ficou demonstrado no texto anterior e é reconhecido, aliás, na Nota Explicativa do Acordo Ortográfico, 4.4. (acerca dos casos de dupla grafia). Ora, a verdade é que um dos objectivos do AO90 consistia em criar uma ortografia comum, para que todos os falantes lusófonos pudessem escrever a uma só ortografia.

Em primeiro lugar, é curioso notar que o próprio texto do AO90 contém a demonstração cabal desse falhanço, quando se verifica que são utilizadas duplas grafias como “antropónimos/antropônimos” ou “fónico/fônico”, de modo a respeitar ortografias que continuarão a ser diferentes. Leia-se o seguinte exemplo retirado da Base I:

2.º As letras k, w e y usam-se nos seguintes casos especiais:

a) Em antropónimos/antropônimos [sic] originários de outras línguas e seus derivados: Franklin, frankliniano; Kant, kantismo, Darwin, darwinismo; Wagner, wagneriano; Byron, byroniano; Taylor, taylorista;

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