O 11 de Março (Memória descritiva)


O que se passou, há 35 anos, em 11 de Março de 1975? Algo que se esperava desde a Revolução – uma reacção revanchista da direita. Que essa reacção estava iminente era evidente para quem lesse o que se escrevia, ouvisse o que se dizia. A instabilidade social, a luta entre partidos, a deriva para a esquerda, com o primeiro-ministro Vasco Gonçalves em rota de colisão com Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do COPCON, reflectindo as inconciliáveis posições das duas principais vertentes da esquerda militar.

A Revolução assumia contornos marxistas, alarmando os conservadores. A estes meios terá chegado a informação (oriunda dos serviços secretos espanhóis) de que estava planeada uma operação de grupos de extrema-esquerda, a “Matança da Páscoa”, na qual seriam mortos cerca de 1500 civis e militares entre os quais o general Spínola. Miguel Champalimaud e o tenente Nuno Barbieri, que colheram a informação, o coronel Durval de Almeida, José Maria Vilar Gomes, João Alarcão Carvalho Branco, José Carlos Champalimaud, reuniram-se para a discutir. Convencido da sua veracidade (provável manobra de intoxicação da secreta espanhola), Spínola decidiu avançar com um golpe. Alguns oficiais secundaram-no e a conspiração passou das reuniões para o terreno. As coisas foram mais ou menos como se segue.

Na madrugada de 11 de Março, começaram a afluir à Base Aérea nº3 (Tancos) viaturas com elementos ligados ao movimento, incluindo António de Spínola. Reuniram-se em casa do major Martins Rodrigues.

8:00 – O coronel Moura dos Santos, comandante da Base, perante oficiais e sargentos, fez um briefing explicando os objectivos políticos, alvos a atingir e meios a utilizar. Os majores Mira Godinho e Neto Portugal e o capitão Brogueira reuniram com os comandantes e pilotos, distribuindo as missões que a cada uma cabia.

8.30 – Os oficiais, sargentos e praças da Base Aérea nº 3 foram informados de que a instrução normal do princípio da manhã fora cancelada. Perto, no regimento de Caçadores pára-quedistas, o coronel Rafael Durão reuniu os oficiais para lhes explicar a operação, dizendo ter recebido ordens do CEMFA (Chefe de Estado Maior da Força Aérea), o que não era verdade
.
9:00 – Em Tancos, entrou em cena o general Spínola que, no seu estilo grandiloquente, falou em nome da «pureza do processo de 25 de Abril», dizendo que para evitar «a prostituição das Forças Armadas», era preciso dizer “basta!” à escalada comunista. Enquanto o general perorava, na pista, aviões T-6, helicópteros e helicanhões eram abastecidos e municiados.

9:40 – Na Base Aérea nº 6 (Montijo) , o coronel Moura de Carvalho, comandante da base, colocou em estado de alerta todos os meios aéreos.

10.30 – O major Casanova Ferreira, comandante distrital da PSP de Lisboa, deu conhecimento do golpe a alguns oficiais daquela corporação.

10:45 – De Tancos, descolaram os seguintes aviões: dois T-6 armados com metralhadoras e ninhos de foguetes anti-pessoal, pilotados pelo major Neto Portugal e segundo-sargento Moreira, tendo como alvos, além do R. A. L. 1, as antenas da R. T. P. e Forte do Alto do Duque; dez 10 Allouette III, transportando um grupo de 40 pára-quedistas. Dois dos helicópteros estavam armados com canhão, tendo como missão o bombardeamento do R.A.L.1. Eram pilotados pelos major Zuquete e major Mira Godinho, aos canhões estavam os alferes Oliveira e primeiro-cabo Carapeta. Na operação inseria-se o lançamento sobre Lisboa de panfletos, missão que foi executada por dois dos heli-transportadores, pilotados pelos capitão Oliveira e tenente Jacinto. Os restantes heli-transportadores eram pilotados pelos alferes Chinita, alferes Afonso, alferes Mendonça, segundo-sargento Ladeira, segundo-sargento Souto e furriel Emaúz; três Noratlas com 120 pára-quedistas destinados a cercar o R.A.L.1.- dois T-6 desarmados, com missão de intimidação. Eram pilotados pelo capitão Faria e alferes Melo, ambos da B.A.7 e em diligência na B.A.3.

11:00 – O comandante da B.A.5 (Monte Real) o coronel Naia Velhinho, recebida uma indicação vinda de Lisboa por via normal, colocou a base em estado de prevenção rigorosa.

11:15 – A B.A.6 (Montijo) entrou também em prevenção rigorosa.

11:30 — Todas as Unidades da Força Aérea passaram a prevenção rigorosa. A esta hora chegaram à B.A.5, num Aviocar vindo de Tancos, o coronel Orlando Amaral e o tenente-coronel Quintanilha. Recebidos pelo comandante da Base, e na presença dos majores Simões e Ayala, enunciaram os tópicos da operação. Invocando o general Spínola, pediram a Velhinho que enviasse aviões F-86F para fazer passagens baixas de intimidação sobre o RAL1, a Avenida da Liberdade e o quartel-general do COPCON. Desconfiado, o comandante telefonou CEMFA, não obtendo resposta conclusiva. Entretanto o major Simões fez um briefing com os pilotos da esquadra dos F-86F, repetindo o que escutara no gabinete do comandante da base. Alguns oficiais manifestaram-se imediata e abertamente contra, recusando-se a aderir àquilo que, desde logo, configurava um golpe de direita.

11:45 — Chegaram à B.A.3, de helicóptero, o brigadeiro Lemos Ferreira e o tenente-coronel Sacramento Marques, delegados do C.E.M.F.A. e C.E.M.E., procurando esclarecer a situação.

11:45,/11:50 – O RAL.1 começou a ser atacado pelos T6 da Base Aérea nº 3, sendo atingidas as casernas dos soldados e os principais edifícios do aquartelamento. Morreu o soldado Joaquim Carvalho Luís e houve 15 feridos e muitos estragos nas instalações da unidade. Neste, ataque foram consumidas 220 munições de metralhadoras calibre 7,7mm e 99 foguetes Sneb 37mm anti-pessoal dos T-6 e 318 munições de MG-151 de 20mm dos helicanhões.

11:50 – Na base do Montijo aterraram dois helicópteros Alouette III, estando um armado. O héli desarmado aterrou numa das ruas de acesso à placa, tendo deixado um pára-quedista ferido e cujo piloto, o alferes Chinita, também ferido, viria a ser recuperado pelo heli-canhão uns metros mais à frente.
12:00 – Tropas pára-quedistas, do Regimento de Pára-quedistas de Tancos, sob o comando do major Mensurado cercaram o RAL 1. À mesma hora o COPCON iniciara a movimentação para neutralizar o golpe, ocupando o Aeroporto e encerrando-o ao tráfego civil No Quartel do Carmo, oficiais da G.N.R. no activo e outros afastados do serviço, comandados pelo major Freire Damião, prenderam o comandante-geral e outros oficiais fiéis ao MFA.

12:05 – As forças do RAL 1, comandadas pelo capitão Diniz de Almeida, tomaram posições de combate e estabeleceram um perímetro de segurança, ocupando prédios em frente do quartel.

12:20 – Da Base de Tancos descolaram três helicópteros Allouette, com 12 elementos para sabotar as antenas do Rádio Clube Português, em Porto Alto. Um deles estava armado com canhão, sendo pilotado pelo segundo-sargento Leitão, tendo ao canhão o segundo-sargento Bernardo de Sousa Holstein. Os outros dois eram pilotados pelo alferes Laurent e segundo-sargento Serra. A esta hora, da Base do Montijo descolaram cinco helicópteros com destino a Tancos tendo um deles levado o pára-quedista ferido ao Hospital da Força Aérea no Lumiar e juntando-se aos outros na Chamusca.

12.45 – No exterior do RAL 1 ocorreu o diálogo entre o capitão Diniz de Almeida e o capitão pára-quedista Sebastião Martins gravado pelas câmaras da RTP: “Diniz de Almeida: – porque é que o camarada não vem comigo ao COPCON? Reconhece ou não a autoridade do COPCON? o General Carlos Fabião, o Chefe do Estado Maior do Exército? Os nossos chefes deram-nos ordens contrárias…A si de atacar…a mim de me defender…Porque não deixamos que eles discutam o assunto? Sebastião Martins: – As Forças Armadas não estão consigo. Diniz de Almeida: – Se assim for, não terei a mínima dúvida em me render à maioria. Mas, que eu saiba, o Exército está connosco, a Marinha está connosco, só vocês é que não. Sebastião Martins: – Vamos ver. Vamos então esperar que os nossos chefes decidam.” Os dois comandantes, Coronel Mourisca do RAL 1 e Major Mensurado dos pára-quedistas deslocam-se ao Estado Maior da Força Aérea para esclarecer a situação e tentar um acordo, o que só foi obtido pelas 14.30 horas.

12.45 – Lançados apelos à mobilização popular pela Intersindical. Levantaram-se barricadas nas estradas de Vila Franca e Setúbal. Organizaram-se piquetes de trabalhadores em locais estratégicos: Bancos, Emissora Nacional, etc. A população, em diversos pontos do país, acorreu aos quartéis, pedindo armas e colocando-se à disposição dos militares.

12:50 – Começaram as reacções oficiais ao golpe. A 5.a Divisão emitiu um comunicado a todas as Unidades do Exército, Armada, Força Aérea, G.N.R., P.S.P. e G.F.: “O COPCON, a Comissão Coordenadora do M.F.A. e a 5.a Divisão do E.M.G.F.A. alertam todas as unidades para se colocarem em estado de mobilização para destruir forças rebeldes contra-revolucionárias que neste momento atacam unidades do M.F.A..” Este rádio foi seguido de outro semelhante enviado para comandos militares das Ilhas Adjacentes e de África. Vendo o golpe fracassar, Spínola tentou aliciar, pelo telefone, o major Jaime Neves, comandante do Batalhão de Comandos nº 11. Este respondeu que só obedeceria à hierarquia a que estava sujeito. O general ligou depois para o tenente-coronel Almeida Bruno que se recusou a atender. Desesperado, ligou ao tenente-coronel Ricardo Durão tentando obter deste e do capitão Salgueiro Maia, a adesão da Escola Prática de Cavalaria. Durão e Maia não atenderam.

13:00 – O RCP deixou de transmitir em onda média, de Lisboa, continuando a emitir em frequência modulada e onda média do Porto. Um grupo de civis armados, comandados por dois militares atacou o emissor, transportados em dois helicópteros, seguindo num o major Silva Marques, António Simões de Almeida, João Alarcão Carvalho Branco e José Carlos Champalimaud e no outro o 1°tenente Nuno Barbieri, José Maria Vilar Gomes, Eurico José Vilar Gomes, António Ribeiro da Cunha e Miguel Champalimaud. Deste ataque resultou a paralisação da emissão e a destruição de material. De Tancos descolaram T-6, pilotados pelos segundo-sargento Gomes da Silva e furriel Falcão. Armados com metralhadoras e ninhos de foguetes anti-pessoal tinham por missão o ataque ao R.A.L.1. À mesma hora descolou um Allouette, armado com um canhão, pilotado pelo alferes Jofre, com o alferes Figueiredo ao canhão tendo por missão o ataque ao R.A.L.1. e outros possíveis objectivos.

13:10 – A Emissora Nacional interrompeu a programação normal, passando a transmitir do Centro de Esclarecimento de Informação Pública da 5.a Divisão, emitindo comunicados aconselhando a população de Lisboa a manter-se calma e vigilante em união com o M.F.A.

13:20 – O major Rosa Garoupa ligou ao major Casanova Ferreira comandante da P.S.P. de Lisboa, pedindo-lhe a ocupação da Rádio Renascença (em greve) e que pusesse “no ar” os comunicados dos golpistas. O que não foi feito.

13:22 – De Monte Real descolou a primeira parelha de F-86F, comandada pelo major Ayala, a qual cumpriu a missão que fora pedida ao coronel Velhinho, sendo os aviões alvejados no COPCON.

13:30 – Foi transmitido pelos estúdios de Lisboa da E.N. o primeiro comunicado da 5.a Divisão lido pelo capitão Duran Clemente. Protegida por forças do COPCON, a Rádio da Madeira começou a transmitir. De Tancos descolou um helicóptero Allouette III para transportar o brigadeiro Morais, de Tomar para a E.P.C. trazendo no regresso, além deste, o tenente-coronel Ricardo Durão e o capitão Salgueiro Maia. Aterraram cinco helicópteros Allouette IIl, vindos da B.A.6. Uma força da G.N.R. constituída por moto-blindados surgiu junto do G.D.A.C.I., tentando desactivar a antena da R.T.P. em Monsanto. Interceptada e intimada a retirar por forças do COPCON, obedeceu imediatamente.

13:50 – De Tancos descolou um helicóptero Allouette III, pilotado pelo tenente-coronel Quintanilha, acompanhado pelo major Cóias. Foram à B.A.5, seguidos por dois Aviocar com pára-quedistas. Tentou forçar a neutralidade da base, ameaçando que os pára-quedistas a ocupariam. Em seguida, quando alguns sargentos, alertados por Lisboa, tentaram prender Quintanilha, este evadiu-se no helicóptero seguido pelos Aviocar que se tinham mantido sobrevoando a base de Monte Real. As três aeronaves regressaram a Tancos.

14:00 – Em Monte Real, descolou a segunda parelha de F-86F, comandada pelo capitão Calhau, o qual acabaria por sobrevoar os mesmos pontos de Lisboa da primeira e a estrada Santarém-Lisboa. A ambas as parelhas foi dada ordem de não abrir fogo. A Rádio Renascença interrompeu a greve iniciada 22 dias antes, passando a transmitir em simultâneo com o RCP. A Rádio Ribatejo, a Rádio Alto Douro e a Rádio Altitude, transmitem ao mesmo tempo.

14:30 – De Tancos descolaram para Lisboa dois T-6, armados com metralhadoras e ninhos de foguetes anti-pessoal, pilotados pelo segundo-sargento Jordão e segundo-sargento Carvalho, tendo a missão de ataque a objectivos não apurados. A mesma hora, descolaram dois aviões Noratlas, transportando uma companhia de pára-quedistas (75 homens) para Lisboa, para reforço da companhia anterior. Ainda à mesma hora, descolaram dois aviões Aviocar, transportando 25 pára-quedistas para a B.A.5.

Às 14:40 , as forças pára-quedistas levantaram o cerco ao RAL 1. Militares e civis confraternizaram. Ricardo Durão deslocou-se com Salgueiro Maia a Tancos para dialogar com Spínola. O general admitiu o malogro do golpe.

Às 14:45 a E.N. emitiu o primeiro comunicado do Gabinete do Primeiro-Ministro: “Esclarece-se a população terem-se verificado hoje, de manhã, incidentes envolvendo forças militares reaccionárias em tentativa desesperada de travar o processo revolucionário Iniciado a 25 de Abril. Tais incidentes consistiram numa tentativa de ocupação do R.A.L.1, envolvendo meios aéreos e terrestres. A situação encontra-se sob controle, pelo que se apela para que a população se mantenha calma, sem abrandar contudo a sua vigilância. A aliança entre o Povo e as Forças Armadas demonstrará, agora como sempre, que a revolução é irreversível”.

15:00: Em Tancos descolou um Allouette III, armado com canhão, tendo como missão o ataque às antenas da Emissora Nacional. Era pilotado pelo segundo-sargento Souto e Silva e levava ao canhão o capitão Jordão. À mesma hora, descolaram dois T-6, desarmados, pilotados pelo alferes Melo e alferes Correia, com a missão de intimidação.

O Diário de Lisboa foi o primeiro jornal a sair com a cobertura dos acontecimentos. Faria três edições. Em Tancos, soldados e sargentos da B.A.3 amotinaram-se contra os conspiradores, atacando as viaturas civis utilizadas pelos golpistas e encontrando armamento. O general Tavares Monteiro foi depois preso naquela unidade por soldados, sargentos e oficiais milicianos.

15:10: a Radiotelevisão Portuguesa noticiou a síntese dos acontecimentos.

15:15 – Os pára-quedistas que atacaram o R.A.L.1 depuseram as armas, juntando-se aos militares da unidade.

15:30 — Em Tancos, descolaram dois aviões T-6, armados com metralhadoras e ninhos de foguetes anti-pessoal, pilotados pelo segundo-sargento Brandão e pelo furriel Bragança, para ataque a alvos não identificados..

À mesma hora, descolaram dois Allouette III, um transportando para o Regimento de Pára-quedistas o general Spínola e alguns elementos e outro armado com canhão para protecção daquele oficial durante a sua permanência naquela unidade. Eram pilotados pelo major Zuquete e major Godinho.

17:15 – Vasco Gonçalves, dirigiu, pela TV e Rádio, uma alocução aos portugueses, denunciando a acção como “um golpe contra-revolucionário”

15.25 – Entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho na televisão: A situação está perfeitamente calma. Os responsáveis do sucedido serão exemplarmente castigados. As Forças Armadas, estão totalmente serenas e com o MFA.

16:00: – Mensagem do Presidente da República: “que desta lamentável aventura saia mais uma vez reforçada a unidade Povo-MFA e que a população portuguesa dê mais uma vez ao mundo um exemplo da sua maturidade cívica”.

16:20 – De Tancos descolaram quatro Allouette III, um equipado com canhão, protegendo os restantes e nos quais alguns militares efectuaram a evasão.

17:00 – Renderam-se, libertando os oficiais detidos, os revoltosos do Carmo. O general Freire Damião, o tenente-coronel Xavier de Brito, o major Rosa Garoupa e o tenente Gomes, pediram asilo político na Embaixada da RFA.

17:15 – Discurso de improviso do Primeiro-Ministro: “Uma minoria de criminosos lançou homens das Forças Armadas contra as Forças Armadas, o que é o maior crime que hoje se pode perpetrar em Portugal”.

17:30 – Novo comunicado da 5ª Divisão em que se fazia “o ponto da situação militar no país regressado à normalidade”. O general Pinto Ferreira foi à janela do Carmo, já livre, e reafirmou a confiança nos seus homens que, segundo ele, foram enganados».

17:45 – Mensagem do Ministro da Comunicação Social, Correia Jesuíno, à imprensa.

19:00 – (Badajoz) Spínola, acompanhado de sua mulher e de 15 oficiais, chegou à Base Aérea de Talavera la Real (Badajoz), sede da “Ala 23”, unidade de instrução de caça e ataque da força aérea espanhola, demonstrando algo que se sabia – o regime de Franco estava disposto a apoiar uma revolta que extinguisse as chamas da revolução portuguesa.

19:30 – Em conferência de imprensa Otelo Saraiva de Carvalho afirmou que os acontecimentos corresponderam a “mais um assalto das forças contra-revolucionárias à jovem democracia portuguesa”.

20:00 – Milhares de pessoas agitando bandeiras e gritando “unidade” e “soldado amigo o povo está contigo” desfilaram em Lisboa, do Campo Pequeno ao Rossio. Idênticas manifestações decorreram por todo o país.

21:00 – Mensagem do Presidente da República, incluindo uma lista dos implicados no golpe -António de Spínola, Alpoim Calvão, António Ramos, Neto Portugal, Rosa Garoupa, Rafael Durão, Freire Damião, Tavares Monteiro e Xavier de Brito e outros.

23:50 – Realizou-se uma reunião Extraordinária do MFA, durante toda a noite. Pela primeira vez participaram sargentos e praças dos três ramos das Forças Armadas. Foi decidida a institucionalização do MFA, a constituição do Conselho da Revolução (CR) e realização de eleições. No comunicado final afirmava-se: “a assembleia reconheceu o valor e o espírito de sacrifício com que o RAL 1 suportou e reagiu ao intempestivo ataque de que foi vítima e manifestou a todo Povo Trabalhador Português, que dos seus locais de trabalho acorreu a tomar o seu lugar ao lado do Movimento das Forças Armadas, o seu reconhecimento de que na Revolução Portuguesa o Povo e o Movimento das Forças Armadas caminham unidos e firmes para o desenvolvimento e progresso social do país”.

Comments

  1. maria monteiro says:

    O RAL 1 faz parte da minha zona de residência, nessa manhã estava em casa e assim que pude juntei-me à população que de Moscavide e dos Olivais ia a pé para junto dos acontecimentos ….

  2. Luis Moreira says:

    Era a maneira de controlar as armas. O povo metia-se entre os militares e impedia os tiros. Já no 25 de Abril isso foi evidente na Baixa de Lisboa. Havia muita gente que estava ali a cumprir missões.

  3. Carlos Loures says:

    Na prática, o resultado era esse – a presença dos populares inibia os militares de desatarem aos tiros (No 25 A, no Carmo, teria sido uma horrível mortandade). Mas da parte dos populares, não era premeditado, era pura curiosidade, a bisbilhotice congénita dos portugueses. Talvez tenha sido essa veia bisbilhoteira que nos levou a descobrir o que havia para lá do Oceano. Embora pudesse haver quem estivesse cumprindo missões – refiro-me à multidão.

  4. Pisca says:

    Uma das questões já levantadas sobre o 11 de Março, foi o caso da reportagem da RTP feita na altura
    Chegaram a dizer que já estava tudo combinado
    Conta o Adelino Gomes, algures, que estando na RTP, ainda nas Linhas de Torres, e sabendo do granel armado, pede para ir com um operador de câmara ver o que se passava.
    A resposta é que não, tudo tinha que ser pedido de véspera e autorizado pelas vias burocráticas
    Parece que mandou tudo às malvas e sairam porta fora, com o resultado que se viu.
    Já li também uma outra versão que mais alguém teria estado nessa reportagem, mas não consigo localizar

  5. ricardo says:

    Fiquei espantado quando, não há muito tempo, ajudava o meu filho para um teste de História e constatei que no cap. que se refere á queda do estado novo/Revolução/Constituição de 76, o 11 de Março é esquecido. Nem uma referência…
    Vá lá que se lembraram do 1º de Maio de 74.

  6. ricardo says:

    Imprimi o post e dei ao meu filho para juntar aos seus apontamentos de História.

  7. Carlos Loures says:

    Pisca, não creio que tenha sido combinado. O Adelino Gomes estava muito por dentro das coisas. Creio que foi um dos jornalistas que acompanhou as reuniões do MFA antes da Revolução. É natural que o Diniz de Almeida lhe tenha telefonado logo que o Ral1 começou a ser bombardeado. Se virmos as horas a que as coisas ocorreram, houve cerca de três quartos de hora entre o começo do bombardeamento e a preparação do ataque dos páras. O Adelino estava no Lumiar – não é muito longe. Ricardo, estimo que o meu trabalho seja útil a um valoroso estudante.

  8. ricardo says:

    Carlos Loures, claro que foi útil. O meu filho já leu o post e esteve aqui a ver o video. O trabalho complementou o que eu já lhe tinha explicado.
    Obrigado

  9. Pisca says:

    Só queria reforçar que a reportagem foi possível porque mandaram às urtigas as burocracias e sairam porta fora com o material para a fazer

  10. Carlos Loures says:

    Sobre isso, amigo Pisca, não existem dúvidas.

  11. Leónidas says:

    Nãohouve uma tentativa frustrada de pilotos revolucionários em Monte Real, que tentaram contrariar as parelhas que já estavam já no ar e foram sob ameaça de fogo, já dentro dos aviões e na pista , forçados a se render?

    • Luís Moreira says:

      Houve movimentações na base aérea sim, mas julgo que não foi preciso ir mais além.

    • José Rodrigues says:

      Estes aviões nunca aterraram em Monte Real eu mesmo estive no bloqueio com viaturas militares ( autocarros, mercedes 1920 e outras diversas viaturas) ás pistas para evitar que algum avião tocasse a pista, a única aeronave que lá aterrou foi o alouette III com elementos que tentaram dissuadir o Comandante da Base não conseguindo.

  12. fiz parte desse ataque ao ral 1 como militar paraquedista , e até hoje nunca houve um esclarecimento profundo , nem ao país nem aos intervenientes , li e aprecio o rigor do que aqui foi escrito ,mas continuo quase em branco ,só sei que tinha de ir para o ral 1 com os restantes camaradas desalojar forças reaçionárias comandadas por tupamaros ao que julgo serem forças de élite chilenas , pois nada disso era verdade ..

    • antonio moreira says:

      Antonio Moreira
      eu tambem fui de helio de tancos até lisboa saltei do helio para a rua subi para um terreno agricula que lá havia e com uma hk35 fiz alguns disparos pelo telhado do RALIS depois chegaram alguns civis junto de nós e ficamos quietos até ao final mas á mais historia isto é só uma dica sou o paraq. 871/72 zé da porta darmas

  13. gertrudes salvadora preto says:

    Apanhei um susto! Trabalhava na ANA-Aeroportos de Portugal, perto do RALI 1. O chefe não deixou sair o pessoal (Deus o tenha) não era muito democrata. Ficamos até noite alta!!!

    • António Bárbara says:

      Era na altura Aspirante a Oficial Miliciano nas Caldas da Rainha e tinha ido almoçar a um restaurante da cidade quando um brigada da PU me foi chamar porque o quartel ia entrar de prevenção! Fui a correr à pensão onde me hospedava e peguei na meu revólver pessoal (Smith & Wesson) e corri para o RI5. Estava tudo em polvorosa (lembro que ali nasceu o “25 de Abril” em 16 de Março de 1974!) até porque ali estagiavam 6 oficiais do quadro de Cavalaria de Santarém e dado que se constava que Santarém estaria ao lado dos “contra-revolucionários”. Algumas viaturas saíram em direcção a Lisboa, mas terão voltado para trás, na sequência do que entretanto se verificou!
      Estranho que neste relato se faça apenas menção à Força Aérea e Tropas Para-quedistas, parecendo que as restantes forças armadas se mantiveram à parte de tudo isto ou, que o seu peso ou importância eram irrelevantes (!!!)
      O Coronel Pinto Ferreira (graduado em General para poder chefiar a GNR) que tinha sido meu comandante também no RI5. aparece como um grande democrata, passando um valente raspanete aos gordos oficiais (fascistas?) da GNR em formatura no “saudoso” Quartel do Carmo que o aprisionaram, passando para a opinião pública que seria uma vítima, mas só quem com ele conviveu, como eu, pode desconfiar que se trataria duma revanche em relação ao trato com que a eles se dirigia (?). Lembro-me, por exemplo, de um seu dito em reprimenda a um acto ocorrido na Messe de Oficiais … “comandei todo o tipo de homens; oficiais, sargentos e praças e, até … pretos …” !!!

  14. Ricardo Martinho da Costa says:

    Aspirante miliciano na Escola Prática de Cavalaria, a fazer a ronda à guarnição, no dia 11 de março de 1975.
    Não sei se o general Spínola tinha ou não tinha telefonado ao tenente coronel Ricardo Durão e ao Capitão Salgueiro Maia. Também não sei se estes atenderam. O que sei, porque estive lá, foi a realização, urgente, de uma reunião de oficiais, convocada pelo comandante da EPC, Coronel Alves Morgado. A reunião realizou-se depois de duas passagens rasantes à parada de um helicanhão. A sala dividiu-se em dois grandes grupos de oficiais: junto à secretária estava o comando da escola e os oficiais do quadro permanente; ao fundo da sala, situava-se o grupo dos oficiais milicianos, entre os quais o tenente Carlos Beato. Ao meio da sala, sentado nas costas de uma cadeira, estava o capitão Salgueiro Maia ladeado do tenente Pala.
    O grupo dos oficiais milicianos, liderado pelo tenente Beato, dialogaram depois com o capitão Salgueiro Maia no sentido da Escola Prática de Cavalaria não entrar em “aventuras”. “Só há um 25 de Abril”. O comando da escola foi detido e o Salgueiro Maia foi enviado a Tancos para saber diretamente do presidente da República o que estava a acontecer…

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