Memória descritiva: Luta armada contra a ditadura (5) – debate com operacionais da LUAR, BR e ARA-


Este debate surge na sequência (e como corolário) de uma série de quatro textos que aqui publiquei sob o título «Luta armada contra a ditadura». Nesses textos, sumarizei os movimentos mais relevantes verificados desde o 28 de Maio de 1926 até ao 25 de Abril de 1974. Numa descrição cronológica (e necessariamente incompleta) englobei os movimentos de natureza militar, os de iniciativa civil, e alguns em que ambas as componentes intervieram. Nos dois últimos textos, tentei sintetizar a acção de organizações clandestinas que, desde o final dos anos 60 e até à Revolução, desenvolveram uma série de acções de sabotagem que constituíram um elemento decisivo no desgaste de um regime fragilizado pela Guerra Colonial, pelas greves, pelas lutas estudantis e por um crescente descontentamento da população.

No arranque deste debate que ficará depois aberto a todos os leitores, vou entrevistar elementos das três organizações que até a 25 de Abril de 1974, moveram essa resistência armada – A LUAR, as BR e a ARA. São eles, por ordem alfabética, Carlos Antunes, comandante operacional das Brigadas Revolucionárias; Fernando Pereira Marques, elemento do comando da LUAR que tentou ocupar a cidade da Covilhã no Verão de 1968 e José Brandão, que integrou a ARA, a organização armada do Partido Comunista Português. Todos eles meus amigos de longa data. É uma conversa entre amigos, portanto, esta que transcrevo da gravação.

Antes de mais, as resenhas biograíficas dos três participantes:

Fernando Pereira Marques

Fernando Alberto Pereira Marques, nasceu em Coruche em 1948. Militante da LUAR, participou na tentativa de tomada da cidade da Covilhã, em Agosto de 1968, chefiada por Hermínio da Palma Inácio, na sequência da qual foi preso pela PIDE. É doutor de Estado em Sociologia pela Universidade de Amiens (França) e professor universitário. Foi dirigente nacional do Partido Socialista e deputado à Assembleia da República. É autor de diversos livros de ensaio e investigação entre os quais se destaca: «Exército e Sociedade em Portugal» (1989), «Do Que Falamos quando Falamos de Cultura» (1994), «Exército, Mudança e Modernização na Primeira Metade do Século XIX» (1999), «A Praia Sob a Calçada – Maio de 68 e a “Geração de 60”», (2005).

José Brandão

José Augusto de Jesus Brandão, nasceu em Lisboa em 1948. Operário metalúrgico, entre 1969 e 1971 esteve na guerra em Moçambique. Ligado à ARA a partir de 1972, participou em diversas operações de reconhecimento de objectivos. Esteve preso pela PIDE em 1973. Após a revolução de Abril, foi empregado na Carris e dirigente sindical. Militante do PS, foi membro da Comissão Nacional entre 1980 e 1988 e, entre 1985 e 1987, pertenceu à Comissão Política.

Historiador, especializado na violência armada no período contemporâneo, tem uma vasta obra publicada, da qual se salienta: «Sidónio – Ele Tornará Feito Qualquer Outro» (1.ª ed. 1983), «Carbonária – O Exército Secreto da República» (1.ª ed. 1984), «100 Anos por 1 Dia», (1987), «.A Noite Sangrenta» (1991),«Suicídios Famosos em Portugal» (2007); «Portugal Trágico – O Regicídio»,(2008), «Cronologia da Guerra Colonial» (2008) e «A Vida Dramática dos Reis de Portugal» ( 2008).

Carlos Antunes

Percurso político iniciado em 1955, no Porto, com a adesão ao Partido Comunista Português (PCP); em 1958, designado responsável pela organização clandestina do PCP na província do Minho; em 1959, passagem à clandestinidade, em Lisboa, tornando-se funcionário clandestino do Secretariado do Comité Central do PCP; em 1963, torna-se membro da direcção da Rádio Portugal Livre, instalada na Roménia. Permanece nesse país até 1966;no final de 1966, torna-se responsável pela organização do PCP no estrangeiro e instala-se clandestinamente em Paris. Álvaro Cunhal, Secretário-geral do PCP instala-se também em Paris, tentando os dois uma reorganização do partido. Em 1968, com o desaparecimento de Salazar e a chegada ao poder de Marcelo Caetano, acentuam-se as divergências entre Carlos Antunes e Álvaro Cunhal, o que dá origem a cisão por parte de Carlos Antunes.

Em 1969, cria-se um núcleo inicial que dará origem às Brigadas Revolucionárias e ao Partido Revolucionário do Proletariado. Regresso a Portugal numa situação de clandestinidade, tornando-se responsável pela criação e orientação das Brigadas Revolucionárias. Entre 1969 e 1974, foi líder das acções das Brigadas Revolucionárias. Em 1973, participa na criação do Partido Revolucionário do Proletariado. Em 1974 publica o «Dossier Brigadas Revolucionárias». Em 1977, foi acusado de autoria moral de várias acções armadas, assim como de movimentos e acções revolucionárias. Entre 1977 e 1982, permanece em prisão preventiva. Cerca de cinco anos após a libertação, é julgado e absolvido.

Organizador e conferencista do Seminário decorrido no Museu da República e Resistência, em Lisboa, sobre a luta armada em Portugal entre 1926 e 1974. Co-autor do livro «Ecosocialismo – Uma alternativa verde para a Europa», editado em vários países da Europa, em 1990.

«Mais do que uma ideologia comum, o que juntou à ARA um bom número de activistas operacionais foi o desejo de passar à acção directa»., disse José Brandão, ex-operacional da ARA,

Carlos Loures (Aventar): O Partido Comunista Português, mesmo depois do XX Congresso do PCUS, em que muita coisa mudou nos PCs, considerava a luta armada como uma forma «aventureirista», «divisionista», «guevarista», «castrista», «blanquista», de enfrentar o regime. Que pressupostos ideológicos estavam por detrás da vossa luta das Brigadas, Carlos Antunes?

Carlos Antunes (Brigadas Revolucionárias): O Partido Comunista Português rectificou a linha política saída do V Congresso em que considerava a possibilidade da passagem ao socialismo por via pacifica, que era o resultado mecânico da colagem às teses do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Admitindo que só era possível derrubar o regime fascista português pela violência, começou-se então a falar na via insurreccional.

CL – E que efeitos teve essa decisão na prática?

CA – Pois, uma coisa é falar, outra muito diferente é praticar. Os anos foram passando e a prática neste domínio não aparecia. Houve uma fase de contestação desta situação por todos quantos aderiram ao marxismo-leninismo, digamos, ao maoísmo, mas que foi sol de pouca dura, porque sobre ele se abateu a repressão que os deixou durante anos completamente desorganizados. Entretanto, no interior do partido cada vez se exigia mais a necessidade de acções armadas, sobretudo de sabotagem à guerra colonial. É neste contexto que se dá a nossa cisão com o Partido Comunista e se começa a organizar as primeiras Brigadas Revolucionárias.

CL – Já desenvolveremos mais esse aspecto, Carlos. Fernando, qual era o suporte ideológico da LUAR?

Fernando Pereira Marques (LUAR) – Além do PCP, muitos outros acusaram a LUAR de vários “ismos” dado que, precisamente, a nova organização privilegiava o carácter antifascista, colocando-se fora de disputas teóricas estéreis sobre quem era a verdadeira “vanguarda da classe operária”. Isto não significou que, progressivamente, não se fosse definindo uma orientação claramente socialista não-dogmática e democrática, patente em vários documentos, no jornal “Fronteira” que se editou no estrangeiro e na acção desenvolvida, quer na emigração – em vários países – quer no interior do país, até criando pontes com meios, como o dos chamados “católicos progressistas”.

CL – Qual era, então, o tipo de militantes que a LUAR reuniu no princípio? Que experiência tinham da luta clandestina?

FPM – Estas mesmas razões levaram a que, entre as suas fileiras, não houvesse militantes com experiência de clandestinidade e de organização, como tinha por exemplo quem passara pelo PCP, e, por isso, muitos erros se cometeram e muitos projectos foram falhados. Mas tal não impediu que se tivesse marcado indelevelmente uma nova etapa na luta contra o Estado Novo, quer durante o salazarismo, quer na sua última fase marcelista.

CL – José Brandão, ponho-lhe a mesma questão que coloquei ao Carlos e ao Fernando, ainda que se suponha que os militantes da ARA, seguiam ideologicamente os princípios que norteavam o PCP…

José Brandão (ARA): – Bem, não foi bem assim. Porque, mais do que uma ideologia comum, o que juntou à ARA um bom número de activistas operacionais foi o desejo de passar à acção directa, particularmente por parte de militantes e simpatizantes com preparação e experiência militar na guerra colonial. Onde o PCP era especialmente ideologia, a ARA era sobretudo acção armada. Os actos de sabotagem que praticou não tinham, nem podiam ter, a ilusão de derrubar o regime, tão só de o corroer. Mas a ideologia estava subjacente.

(Continua)

Comments

  1. Obrigado Carlos por este belo trabalho e este esforço de memória que nos leva a calibrar, a revitalizar e dinamizar melhor o nosso passado, em favor de um futuro com algumas migalhas de esperança. Um abraço

  2. Carlos Loures says:

    Tentei, sobretudo, fazer um trabalho (talvez não completamente isento, uma vez que tenho uma perspectiva bem clara sobre o tema e, nestes casos, a isenção total é impossível), mas, pelo menos tanto quanto possível, objectiva. Nesse esforço de objectividade, fui ajudado pelos meus entrevistados. Na realidade, começamos a ter já alguma distância dos acontecimentos e ela pemite-nos fugir ao sectarismo que caracterizaria as nossas opiniões se tivesem sido emitidas há trinta anos. Um abraço, Adão.

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