Memória descritiva: Luta armada contra a ditadura (6) – debate com operacionais da LUAR, BR e ARA-

«Muitas pessoas de outros estratos, como os católicos, que se tinham radicalizado por via da luta anti-colonial, aderiram às Brigadas e deram um contributo importante sem que as questões ideológicas tenham contribuído para nos afastar», disse Carlos Antunes, dirigente operacional das BR.

CL – Já agora, e embora possa parecer uma pergunta um tanto provocatória, não resisto à tentação de lha colocar – se a acção directa sempre foi condenada pelo PCP, como se explica que o Partido tenha criado uma organização destinada a conduzir um tipo de luta que reprovava?

JB – As condições históricas justificam essa contradição. Desde 1962 que a luta contra a ditadura se vinha radicalizando aceleradamente. Junto da direcção do PCP cresciam as pressões para a luta armada. Pressões exteriores decorrentes do ambiente político e pressões da própria organização. Em 1964 Álvaro Cunhal mostrou-se favorável às «acções especiais» no contexto da «luta de massas» e empenhou-se, ainda que de forma cautelosa, na criação da estrutura que as pudessem desencadear sem envolver directamente as organizações do PCP. A ARA apareceu em 1970 principalmente porque o PCP não podia deixar o espaço da resistência armada nas mãos de outras organizações como a LUAR ou as BR, que entretanto surgiam.

CL – Pois, essa é a resposta mais honesta e mais óbvia, mas, estou certo, não seria aquela que o PCP daria…

JB – Claro que não. Mas, como diz, é a única resposta correcta e credível.

CL – E o José já não é militante do PCP…

JB – Pois, é verdade. Mas veja, naquela altura o jornal «Avante» não ia querer repetir a mesma conduta que tivera aquando do aparecimento da FAP – Frente de Acção Popular, em Abril de 1964, e em que o órgão comunista denunciou publicamente a entrada no país de alguns dirigentes desta dissidência liderada por Francisco Martins Rodrigues, que defendia a acção armada como única via de derrube do regime salazarista, sendo que os principais dirigentes e outros militantes foram presos pela PIDE. Contudo seria a partir deste pressuposto, de que o regime só cairia pela violência e nunca pela luta legal, que iriam surgir as organizações armadas que fazem o PCP dar luz verde ao aparecimento da ARA.

CL – Mas…

JB – Se não se importava gostava de desenvolver um pouco mais este tópico. Posso?

CL – Claro que pode.

JB – A existência da ARA foi sempre um engulho que a direcção do PCP nunca deixou de evidenciar. Tinham uma espécie de vergonha da organização que vivia na sua sombra e da qual eram responsáveis. Mesmo depois da liberdade do 25 de Abril de 1974 a direcção comunista procurou por todos os meios afastar do seu seio a mais diminuta ligação à ARA. Alguns dos operacionais que tinham sido presos pela PIDE/DGS em 1973 e que não eram membros efectivos do PCP foram mesmo travados de entrar para militantes e aconselhados a irem para o MDP/CDE. O Partido de Álvaro Cunhal não queria aparecer relacionado com bombas e atentados com medo de perder votos na democracia que dava os seus primeiros passos. Ainda em 1986, as Edições Avante publicaram um livro sobre a vida de Francisco Miguel, um dos principais dirigentes e activista da ARA, onde não era feita a mínima referência a esta sua participação na luta armada, sendo o mesmo apresentado como um vulgar reformado vindo de África, pacatamente dedicado à sua horta, ás suas flores e aos seus coelhos. Só em 1999 e com a publicação em perspectiva do livro de Raimundo Narciso, apareceu o Jaime Serra a contar a sua história da ARA com ligação ao PCP.

CA – Era o comportamento característico do PC.

JB – Sem dúvida. Todavia, é curioso que, em vários casos houvessem mesmo algumas desconfianças sobre a real disposição do partido de finalmente passar à acção armada. A lentidão na passagem à prática das acções armadas deve-se fundamentalmente a problemas políticos ligados à orientação, vinculada à política de blocos, do PCP. Só com a entrada de dirigentes como Gabriel Pedro, Jaime Serra, Francisco Miguel, Raimundo Narciso, Joaquim Gomes, Rogério de Carvalho e Ângelo Veloso e alguns outros foi possível ganhar a autoridade política necessária para vencer todas as resistências da direcção e da organização do partido ao lançamento de acções armadas. Gabriel Pedro foi, sem dúvida, um elemento chave na criação da ARA. Nasceu em 1898. Faleceu em 1972, em Paris. Natural de Lisboa. Pai de Edmundo Pedro, de mais dois filhos e uma filha. Deportado para Timor, em 1925 e para a Guiné-Bissau, em 1928, evadiu-se ambas as vezes. Preso 9 anos no Campo de Concentração do Tarrafal. Exilado em Paris veio a Portugal clandestinamente participar na acção do Cunene. A Gabriel Pedro cabia o mais importante papel desta operação.

CL – E, já agora, como e quando, com quem, iniciaram as vossas acções?

JB – A primeira acção da ARA foi a sabotagem do navio Cunene, em Outubro de 1970 – o PCP recorreu a um velho quadro do partido. Velho no sentido literal, com 72 anos… Era um homem muito rijo, profundo conhecedor do rio Tejo. Tinha uma história política muito interessante. Entrou e saiu do PCP várias vezes sendo militante quando faleceu. Outro operacional de destaque na ARA foi Raimundo Pedro Narciso. Aderiu ao PCP e andou vários anos na clandestinidade, de 1964 e 1974. E foi na clandestinidade que integrou a Acção Revolucionária Armada (ARA), pertencendo ao Comando Central de 1970 a 1974. Raimundo explicou que aceitava passar à clandestinidade por lhe ter sido garantido que, finalmente, o partido iria passar às “acções especiais”, sendo-lhe destinado um papel na direcção dessa “frente de trabalho”.

CL – E as cúpulas do Partido aceitavam assim, sem mais nem menos, a prática de actividades que sempre designou como «aventureiristas»?

JB – Não, completamente. Conforme se refere no livro que Raimundo Narciso publicou em 2000, ARA – A história secreta do braço armado do PCP, a direcção do PCP mostrou resistências à luta armada. Houve resistência de quadros superiores e intermédios porque era essa a orientação ideológica vinda de cima. Álvaro Cunhal estava na origem da organização mas não queria que as cabeças «esquentassem» com a luta armada, que não estava inscrita na táctica política delineada. Aliás, dava-se combate político e ideológico às forças – como grupos maoístas – que defendiam a luta armada. Depois da primeira acção (o Cunene), houve organizações do PCP que não aplaudiram. Houve mesmo quem tivesse condenado. Estruturas das universidades de Coimbra e do Porto, por exemplo, e até alguns militantes que estavam nas prisões de Caxias e em Peniche, e que a classificaram como uma acção aventureira.

CA – Claro, o costume.

JB – Sim, tem razão, costume. Na sua qualidade de lutador antifascista, Raimundo Narciso foi medalhado pelo Kremlin em 1965 e vinte anos depois, em Maio de 1985, regressou a Moscovo para mais uma condecoração. Desta vez recebeu-a de Mikhail Gorbachev. Anos depois, viria a compreender, que o comunismo não é reformável e que, se tivesse vencido em Portugal, teria conduzido aos mesmos resultados catastróficos e à mesma negação das liberdades fundamentais e da dignidade humana que se verificaram em todos os países do chamado “socialismo real”. Mas, Raimundo não considera que a sua vida de revolucionário tenha sido em vão! Porque a sua acção, como a da ARA, contribuiu para criar as condições para o derrubamento do fascismo e para a instauração de um regime democrático – o único quadro possível e legítimo para a esquerda na qual continua a militar. Em 1989 Raimundo Narciso afastou-se do Partido Comunista e foi um dos fundadores da Plataforma de Esquerda, em 1990. Foi eleito deputado do PS em 1995. Muitos dos ex-«aristas» foram abandonando o PCP. Alguns aderiram ao PS, outros estão no Bloco de Esquerda, outros deixaram a militância partidária.

CL – Carlos, ponho-te agora a mesma pergunta que fiz há pouco ao Fernando – de onde provinham os primeiros militantes das Brigadas? E como é que surgiu a designação Brigadas Revolucionárias?

CA – Pode-se afirmar que a esmagadora maioria dos militantes das BR provinha do PCP e se afirmava marxista. A propósito do nome a dar à futura organização política deu-se uma discussão em que alguns desejavam que na sua denominação se usasse o termo comunista e outros que achavam que a palavra já estava suficientemente conspurcada. Que nos afirmávamos marxistas e o desejávamos ser não há dúvida mas crescia e desenvolvia-se dentro de nós um espírito anti-estalinista e houve um aprofundamento da leitura histórica dos teóricos como Rosa Luxemburgo e Pannekoek, entre outros.

CL – Mas havia gente oriunda de outras correntes.

CA – Como sabes, muitas pessoas de outros estratos, como os católicos, que se tinham radicalizado por via da luta anti-colonial, aderiram às Brigadas e deram um contributo importante sem que as questões ideológicas tenham contribuído para nos afastar. Diria mesmo que talvez isso nos tenha ajudado a libertar da pecha do sectarismo, sem prejudicar os nossos objectivos.

Comments

  1. Nuno Castelo-Branco says:

    Muito interessante. Estes relatos são hoje quase desconhecidos para as gerações posteriores à época.

    Este meu comentário, vem a propósito do post que aqui deixei a respeito da semi-palerma Canavilhas, senhora bonita, fashion como hoje convém, “liberal” com status, virtuosa dedilhadora de teclas, mas profundamente ignorante. Não interprete aquele texto como mais uma catilinária monárquica, pois há que separar a propaganda, da intenção acerca do relato daquilo que é a verdade histórica.

    Carlos, sabe o que penso acerca do completo fracasso do processo de 1974-75? Em boa parte tal se deve à total incapacidade de o PC e restantes comunistas ou companheiros de viagem, de compreender o país que queriam controlar. Prescindiram da legitimidade histórica que figuras conhecidas poderiam oferecer, em benefício de “massas” ou de “movimentos” que mesmo a terem existido, jamais foram susceptíveis de corporizar uma ideia, ou um movimento de união em torno dela. Desperdiçaram o patriotismo que em Portugal é arreigado, corajoso e está na mente de todos, confundindo-o com o arrazoado nacionalista oitocentista que o PRP aproveitou e que tão bem serviu Salazar. A interpretação patética, fastidiosa e anacrónica que deram do período de 1383-85, consistiu num bom exemplo. Inevitavelmente, surgia – apenas um exemplo -uma adesivagem do rei castelhano a Salazar e os mesteirais de Lisboa – nada de falar no Mestre de Avis, claro… – eram os operários da CUF ou da Marinha Grande, passe o exagero. E por aí fora, andaram andaram a difundir a absurda versão de uma expansão que apenas visava a obtenção de escravos, o roubo e a matança. Da contextualização na época, tanto no aspecto das crenças, da conjuntura política, económica e científica, nada. O Albuquerque surgia como um fascista ipsis verbis e o Infante como um frustrado homossexual sedento de ouro e de terras. Todo o verdadeiro milagre que é a permanência já intemporal de Portugal nos mapas da Europa e do mundo, era relegado ao silêncio mais comprometedor. Como é que queriam então ser encarados como parte do todo?
    Durante séculos, o bastante diversificado povo português viveu do cimento aglutinador de uma história comum. Por exemplo, os republicanos compreenderam-no e usaram do nacionalismo de uma forma tal – exageradíssima – que acabaram por favorecer toda a política educacional da 2ª República do Estado Novo. Mas ganharam a legitimidade histórica que lhes faltava e que pelos vistos, ainda se vê. No dia em que o Parlamento estupidamente rejeitou a moção de repúdio pelo Regicídio (1-2-2008), o sr. Cavaco Silva decidiu inaugurar a estátua de D. Carlos em Cascais, usando de palavras absolutamente correctas para a ocasião. Mais ainda, utilizou as palavras do rei para exortar a população, com o conhecido … “o que é preciso é seguir sempre em frente!” Não sei quem lhe fez o discurso, mas conseguiu passar a mensagem que a AR estupidamente desperdiçou, irritando a maior parte das pessoas que seguiram a notícia pelo telejornal, republicanas ou não. É que se tratava de uma questão de Princípios e os doutos senhores que rejeitaram a óbvia moção – que até os defende em termos de preservação da próprio segurança física! – não souberam fazer a destrinça. Pobre gente, que idiotas temos.

    Quer ver a diferença entre os “intelectuais portugueses” e os seus congéneres além-fronteiras? Aqui está mais um exemplo.

    Em Outubro de 1941, quando os panzer estavam muito próximos do Kremlin e a Luftwaffe bombardeava Moscovo, Estaline não fugiu. Pelo contrário discursou em plena Praça Vermelha, evocando todos os grandes homens da história russa. Alexandre Nevsky, Ivan o Terrível, Pedro o Grande, Suvorov, Kutuzov, Alexandre I, o príncipe Bagration, os generais da I Guerra Mundial (!) e até, pasme-se, a própria Sofia de Anhalt, cem por cento alemã e que é mais conhecida por Catarina a Grande. Apelou à “Santa Igreja Ortodoxa Russa” que logo acorreu à chamada, benzendo regimentos, evocando S. Miguel e S. Jorge, realizando colectas que serviram para formar unidades de tanques T-34, etc. O Metropolita surgia ao lado dos dirigentes do PCUS, naquela clara evidência de continuidade histórica que o sr. Cunhal jamais quis compreender, açulando os seus servidores no sentido exactamente oposto.
    Ninguém regateou apoio ao regime do PCUS, porque era a Pátria que estava em causa. Aliás, Estaline deu à luta, o nome de Grande Guerra Patriótica, onde a Rússia pura e simplesmente passou sobre todo o restante conjunto soviético. Obteve a legitimidade histórica e de que maneira!

    Em Portugal, o que andou a fazer a intelectualidade afim do PC? Exactamente o contrário, como boa herdeira da velha tradição burguesa das conferências do Casino. Demoliram tudo e todos. As interpretações escabrosas da história de Portugal, a iconoclastia pura e simples, a menorização de um povo inteiro. Quatro décadas depois desse trabalho de sapa, pergunto:
    Quantos portugueses com menos de 40 anos terão ouvido falar, ou saberão situar no tempo, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães, o Cabral, Diogo Cão, os descobridores dos arquipélagos atlânticos, Duarte Pacheco Pereira, os Bandeirantes, Pedro Teixeira, D. João de Castro e tantos, tantos outros com que a nossa história está empanturrada, num quase absurdo dicionário de grandes homens e feitos, desproporcional à nossa dimensão territorial e populacional? Quantos monarcas, ministros, escritores, diplomatas, chefes militares foram arrastados na lama ou ignomínia? Os próprios navios da Armada ostentam na sua maioria, nomes que nada tem a ver com os vultos universais da nossa história. Almirantes do século XX (Pereira d’Eça, por exemplo), substituem “gente menor” como o Albuquerque ou o Infante, ou ainda o sempre ignorado D. João II. Consta que o sr. Sampaio esperneou com o nome D. Carlos para o navio oceanográfico, como se independentemente da sua qualidade de monarca, não merecesse a homenagem devida ao oceanógrafo pioneiro! Ao que chegámos…
    O que andaram a fazer para que hoje ninguém encare um estrangeiro de frente, olhos nos olhos? Que erro crasso.

    Lembra-se da programação RTP pós 25 de Abril? Eu tinha 15 anos e ficava absorto com o que se dizia, tal eram as enormidades a respeito de um passado que eles quiseram amesquinhar. O resultado está à vista e pagaram-no bem caro. Pura e simplesmente, a maioria do povo começou a encarar os novos dirigentes como “traidores”. Era o que se dizia à boca cheia, nas ruas, nos cafés, nas escolas. Ou não se lembra do ranger de dentes, primeiro em surdina, mas depois à descarada? Estavam à espera de quê, após mais de cem anos de nacionalismo militante pós 1808 ? Imagine o que teria sucedido, se em vez de exautorarem o Vasco da Gama, o Infante, D. João IV, o Albuquerque e tantos mais, tivessem apelado a esse passado para mobilizar forças, tal como Estaline tão bem soube fazer (e ele nem sequer era russo).

    O Canal de História, que vejo sempre que posso, está a dar um exemplo de como os espanhóis sabem fazer as coisas e quase sempre em nosso prejuízo. Está centralizado em Madrid e distribui a programação para a Península. Ainda ontem, num programa sobre a invasão napoleónica, nem uma palavra sobre a participação portuguesa. Nada. Apenas falava na aliança anglo-espanhola – incrível, mas é verdade – , como se os nossos vizinhos não tivessem sido aliados de Bonaparte, como se jamais tivessem feito guerra a Portugal, como se não tivessem assinado o tratado de Fontainebleau, como se não tivesse sido um aliado da França logo pouco depois da Revolução!
    Do período de 1383-85, nada. Das Descobertas portuguesas – essas sim, relevantes, científicas, de estudo aturado e perfeita organização -, nada. O silêncio absoluto e pior ainda, os locutores portugueses, bisonhos, ignorantes ou simples imbecis, pronunciam correntemente o nome de Magallanes. Apenas um pequeno exemplo, entre tanta estupidez da nossa parte e acintoso abuso de quem controla o Canal de História.
    Quando a programação espanhola impõe programas – como o de Pedro Teixeira (veja o seguinte link http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Teixeira_Albernaz)-, lá está o desfiar do rosário castelhanizante, onde o geógrafo surge como o genial cientista que procedeu ao levantamento de toda a costa peninsular ao serviço de Filipe IV. Do essencial trabalho de Pedro Teixeira – este é outro! http://en.wikipedia.org/wiki/Pedro_Teixeira- no gizar das fronteiras gigantescas do Brasil que hoje existe – sempre e sempre ao serviço daquilo que dentro da união ibérica se chamava a Coroa de Portugal – nem uma palavra. Nada! Das navegações portuguesas, o Canal História apenas apresentou uns dois ou três programas, muito bons, feitos por alemães (em clara comparação com outras gestas que considerava menores, como a espanhola ou francesa, por exemplo), enquanto as ninharias colombianas – a maior mistificação dos Descobrimentos, que habilmente aproveita a coincidência contemporânea do estatuto hegemónico dos EUA – nos massacram semanalmente. É este o Portugal que os senhores Rosas e quejandos insistem em apresentar. O da dissolução e achincalhar de gente que para o bem e para o mal, fez aquilo que o país é.
    Os livros “de História” que são dados às nossas crianças, não passam de um aborrecido amontoado de números, estatísticos, vectores sociológicos de difícil compreensão, interpretações anacrónicas, etc. Para ser compreendida pelos mais novos, a História deve ser vivida como um livro de aventuras, pois de outra forma, as crianças atiram-na para um canto, preferindo o Homem Aranha ao Nuno Álvares. Compare-se com aquilo que a republicana França faz, por exemplo. Existe em Paris, uma clara intenção de demonstrar a continuidade ao longo dos séculos – Joana d’Arc ombreia com Luís XIV, Napoleão I e III, Luís Filipe, Gambetta ou De Gaulle – e o mesmo fazem os ingleses, espanhóis, etc. Aqui, é o que se vê.
    A legitimidade histórica provém dessa necessária continuidade e curiosamente, é um dos argumentos que hoje a Turquia utiliza para ingressar na U.E. Os intelectuais turcos apresentam o país como o directo sucessor do Império Romano do Oriente, passando uma esponja sobre o inegável facto de os Otomanos se terem erguido pela destruição daquele. Mas o que disto podemos reter como relevante, é vermos a diferença na atitude. Os turcos compreendem o que o simples nome Império Romano significa para a Europa de que querem participar.
    Creio que todos os nossos grandes vultos históricos – gostemos ou não gostemos deles – devem ser preservados como elementos essenciais da nossa identidade. Enquanto quem decide “aquilo que se deve pensar e dizer” não interiorizar isso, não vamos a sítio algum.

    Concluindo, faz o Carlos um bom serviço ao preservar a memória histórica. Tantos os “de Direita como os de Esquerda” agradecem.

  2. Nuno Castelo-Branco says:

    Apenas uma nota. Surge o dito Pedro Teixeira em clara confusão com outro Pedro Teixeira, também português, mas Pedro Teixeira Albernaz que ao serviço da Coroa fez o levantamento topográfico da Península Ibérica. É esta confusão que todos induz ao erro. Neste momento, é o governo brasileiro quem promove a figura daquele outro Pedro Teixeira que ao levantar a bacia do Amazonas – contra o estipulado por Tordesilhas – deu a Portugal o domínio do hinterland, abriu o caminho à decisiva acção dos Bandeirantes e alargou o território brasileiro.
    A confusão não pode deixar de ser estranha.

  3. Carlos Loures says:

    Nuno, começo por lhe dizer que este seu comentãrio fornecia material para um belíssimo post. Já sabemos localizar as nossas divergências e, também, o vasto leque de temas em que coincidimos. O Nuno sabe que, embora sendo comunista, não repudio o património histórico que faz de Portugal uma Nação. Sou comunista e patriota e nem vejo onde possa haver contradição. Sabe-se que o comunismo é internacionalista e que, portanto, defende a abolição das fronteiras. Falava-se, no século XIX, no tempo da máquina a vapor, no internacionalismo proletário, acreditando-se, nessa altura, que operários e camponeses seriam uma vanguarda revolucionária. Sabemos hoje que o proletariado, tal como era entendido há século e meio, está em extinção. A exploração capitalista continua, teve mesmo uma aceleração, mas a composição social alterou-se e o proletariado residual não é já a mina de onde os tubarões extraem o seu ouro (no Terceiro Mundo, talvez). Seria necessário que surgisse alguém com a capacidade de Marx e propusesse uma nova forma revolucionária de deter o capitalismo – greves, sindicatos, manifestações, tudo isso, está desadequado relativamente à actualidade. O capitalismo, como animal mutante que é, come greves e sindicalistas ao pequeno-almoço. Neste quadro, o internacionalismo terá de esperar e ser patriota, defender a integridade do território e preservar a memória do que fomos para sabermos quem somos, são imperativos absolutos. Sem o que seremos absorvidos e desapareceremos. Só podemos ser internacionalistas quando, por exemplo, aqui os vizinhos do lado também o forem. Até lá – Portugal, sempre!

  4. Carlos Loures says:

    E muito obrigado pelo seu comentário. Este ano vamos estar em guerra permanente, pois eu irei falando dos marcos históricos que conduziram à proclamação da República e o Nuno irá «desmontando os mitos republicanos» (esquecendo os mitos da supremcia da Monarquia). A propósito, ainda tem dúvidas de que o Regicídio resultou de uam conspiração monárquica?

  5. Carlos Loures says:

    Aqui há uma dúzia de anos, tentei editar um fac-simile do «Atlas» do Pedro Teixeira Albernaz, com o levantamento cartográfico da costa do Brasil. Era preciso um patrocinador, pois não era obra de venda fácil e, por outro lado, era uma edição cara, com elevados custos de impressão. Ainda tive reuniões no Ministério da Cultura, mas nada feito. O dinheiro faz falta para aquelas iniciativas importantes que todos conhecemos.

  6. Nuno Castelo-Branco says:

    Não tenho dúvida alguma acerca da participação de monárquicos no regicídio. De resto, o José Alpoim sabia de tudo e até fez o mesmo que o Afonso Costa, gabando-se do facto. No entanto, não foi aquilo que se poderia chamar uma “conspiração monárquica”, mas sim uma coligação de interesses que reuniu o directório do PRP, os Dissidentes Progressistas- seus aliados tácticos – e o braço armado da Carbonária. Sei bem que é um tema incómodo para todos, mas a bem da verdade histórica – sem colocar em causa o regime -, seria excelente surgir um dos exemplares do famoso e desaparecido processo do regicídio.
    O bicho-homem é sempre assim. Gosta de se gabar à pressa, daquilo que mais tarde o faz arrepender-se. Assim aconteceu com o Alpoim e também com o A. Costa, quando dava a Browning a beijar aos militantes, insinuando ser sua e tê-la emprestado ao Alfredo Costa. Para nem falarmos nos postais onde surgia o Directório do PRP, com o Buíça e o Alfredo Costa.
    É até curioso observar que o oportunismo de Alpoim indignou Unamuno e pouco depois, levaria o político a filiar-se nos Democráticos. Sabemos bem como é, os nossos dias estão cheios de gente desta.

  7. Carlos Loures says:

    A Browning estava há muito tempo em poder do Alfredo Costa (tinha-lhe sido oferecida por «um amigo»); não está directamente ligada ao Regicídio. As armas do Regicídio, as Winchester, foram importadas por um armeiro monárquico. Foram pagas por um monárquico – em suma, todas as pessoas que, inequivocamente, estiveram ligadas ao Regicídio (excluindo os executores) eram monárquicas. A implicação de gente do PRP é uma suposição (legítima, mas não provada). Também eu gostaria de ler o tal processo, misteriosamente desaparecido. Provasse o que provasse.

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