No Centenário: o outro Ultimatum


A tentativa francesa de criação de um império colonial teve início no século XVI, quando uma expedição fundou a França Antártica (Rio de Janeiro, 1555) e mais tarde, a França Equinocial (Maranhão, 1612). A resposta portuguesa frustraria estes planos de estabelecimento na América e assim, a par das guerras pela hegemonia na Europa, os franceses foram conseguindo ao longo de todo o século XVII, fundar entrepostos comerciais na costa hindustânica e na zona compreendida entre a Birmânia e a China. Desta forma, os emissários de Luís XIV ganharam uma desmedida preponderância no Sião, até uma violenta reacção local eliminar quaisquer veleidades em transformar o reino numa colónia. Na Índia, o inicial ímpeto de conquista esboroou-se com a derrota na Guerra dos Sete Anos que conduziu à perda de todos os territórios no subcontinente – com a excepção daquilo a que Paris passou a designar de comptoirs que se manteriam até à independência da U.I. em 1947 – e principalmente, à eliminação e conquista inglesa da importante colónia do Quebec. Desta forma, nos primeiros momentos do império de Bonaparte, a França possuía uma presença residual nas Caraíbas e na costa indiana, além de alguns arquipélagos no Índico. Perdidas as ilusões de unificação europeia sob a égide do Grande Corso, a Restauração dos Bourbon procurou aproveitar o despertar do nacionalismo, encetando uma política de controle da margem sul do Mediterrâneo, onde pequenos Estados vagamente dependentes da Sublime Porta, exerciam sobretudo actividades corsárias, criando uma permanente perturbação e insegurança à navegação e comércio. O governo de Carlos X faz desembarcar uma expedição militar em solo argelino (Sidi-Ferruch, Junho de 1830), tomando Argel em Junho. Foi este o marco que deu início à edificação do importante conjunto territorial, espalhado por três continentes e que durante cerca de sete décadas foi conhecido como Império Colonial Francês.

A derrota do Império de Napoleão III frente aos contingentes alemães (1870-71), consistiu talvez, no principal factor do momentâneo reconhecimento da perda da luta pela hegemonia na Europa, consumadas as unificações da Itália (1860-70) e da Alemanha. Paris considera, finalmente, a imperiosa necessidade de participar num sistema de alianças que garantisse a segurança face ao poderoso II Reich e contando com a contemporização de Bismarck – que pretendia afastar os franceses dos assuntos europeus -, reentra na cena política internacional, participando na partilha do mundo em esferas de influência. Nos finais do século XIX, a França contava já com uma posição preponderante no Magrebe (Argélia em 1830 e Tunísia em 1881) e iniciava a disputa pelo controle do império xerifino de Marrocos, situação esta resolvida com a Alemanha após o episódio de Agadir (1911).

A subordinação da vasta zona semidesértica da África Central (década de 80) e a conquista da grande ilha de Madagáscar, avolumaram as tensões com os ingleses que viam chegar um inesperado concorrente à posse do vital e estratégico continente africano, quando já tinham ocorrido litígios devido à ocupação do Vietname, Laos e Camboja (a Indochina Francesa). Paralelamente à política expansionista ditada pelos interesses económicos e pela situação de impasse criada na Europa, as derradeiras décadas de oitocentos assistiram à proliferação de numerosas sociedades de exploração de territórios que baseando-se formalmente no desejo de alargamento científico de conhecimento do planeta, estabeleciam também as suas actividades, em alegadas intenções civilizacionais e de conversão religiosa. Deste modo, os debates entre potências europeias, passaram a centrar-se sobre reivindicações territoriais fora do continente, onde a França conseguiu a colaboração de Bismarck, o incontestável condutor da política de equilíbrio continental. A doutrina do Chanceler de Ferro indicava a Europa como centro do poder mundial e assim, esta secundarização da luta pela obtenção de colónias, condenou os alemães à posse de territórios de escasso valor económico (Camarões, Togolândia, Sudoeste Africano e o arquipélago das Marianas, no Pacífico). Apenas o Tanganica (com o Ruanda e o Burundi) possuía alguma relevância, mas encontrava-se delimitado pelos portugueses (Moçambique), belgas (Congo) e ingleses (Quénia e Uganda). O Congresso de Berlim (1878) estabelecera os novos parâmetros necessários para o reconhecimento da soberania, implicando a efectiva delimitação, ocupação e reconhecimento internacional dos territórios reivindicados.

Ao longo de duas décadas, os franceses foram avançando e submetendo os territórios que do Senegal e em direcção a leste, vão abrindo o caminho em direcção ao Alto Nilo, o que inevitavelmente unificaria todas as possessões coloniais situadas entre o Atlântico e o Mar Vermelho (Djibuti). Este movimento forçaria a intersecção com os ingleses que estabelecidos no Egipto, iniciavam a penetração em direcção à África Central, subindo o curso do Nilo. Sendo o Egipto um Estado formalmente independente mas incluído na esfera de influência do Império Britânico, o Sudão surgia como um território fulcro dessa expansão em direcção ao Lago Vitória, pretendendo Londres unificar toda a zona compreendida entre o delta (Alexandria) e o Tanganica alemão (Egipto, Sudão, Quénia eUganda). O conflito com as repúblicas boéres na África do Sul, colocou os britânicos numa situação de possível conflito com as outras grandes potências europeias com quem tinham disputas territoriais. Assim, os interesses ingleses colidiam com a Rússia no Afeganistão e com a França, Portugal e Alemanha em África. Resolvida a questão portuguesa com o Ultimatum de 1890 – ditando o reconhecimento da posse britânica das Rodésias e do Niassalândia -, o principal obstáculo à política de criação de um eixo entre o Cabo e o Cairo, tornava-se assim, nas expedições enviadas pela França ás zonas limítrofes do Alto Nilo.

Em 1895, o jovem capitão Marchand concebe o plano de atravessar a África , com o fim de instalar a presença francesa na região do Alto Nilo, impedindo os ingleses de realizar o sonho britânico da ligação do seu domínio sul-africano, ao protectorado egípcio. Em França, existia uma opinião discordante da política prosseguida e que tinha conduzido ao domínio do Egipto por Londres. Desde os tempos da campanha de Napoleão, a terra dos faraós era considerada por muitos, como uma parte importante da política externa francesa e a abertura do Canal de Suez por Lesseps, mais enraizou a certeza de um infalível resvalar do país para a órbita do império colonial francês. No entanto, em 1882 os ingleses instalam-se formalmente no Egipto e iniciam a subida do Nilo em direcção a sul, deparando com grandes dificuldades criadas por um auto-proclamado profeta iluminado, conhecido pelo Mahdi, que conseguiria derrotar expedições britânicas, matar o general Gordon, capturar Cartum (1885) e estender a insurreição a todo o vale do Nilo, ameaçando arruinar o Egipto, desviando as suas águas. A França decide aproveitar a situação e o comissário-geral no Congo, Savorgnan Brazza, encarregou Liotard da conquista de todos os territórios a este de Ubangui, abrindo o Nilo à ocupação francesa. O chefe do governo britânico, lord Salisbury, convoca então o representante francês em Londres, informando-o da decisão inglesa em conquistar o Sudão, obrigando Paris a reagir e a organizar rapidamente uma expedição que teria Fachoda como destino. Em 1896 Marchand desembarca no Congo francês e após um inegável esforço moral e físico, consegue chegar ao Alto Nilo em 1898, vencendo todo o tipo de adversidades, numa epopeia que exaltou os sectores ardentemente nacionalistas, que numa França que vivera as incertezas populistas do Boulangismo e que se encontrava mergulhada no caso Dreyfus, tinha uma imperiosa necessidade de galvanizar as massas, unificando-as em torno do instável regime da III república. Em 10 de Julho de 1898, a expedição Marchand chega a Fachoda, após uma penosa marcha de 5000 quilómetros. O capitão toma posse da localidade em 12 de Julho, declarando-a território francês e hasteando a tricolor junto nas margens do Nilo. Ordenou que fosse construído um forte e procurou que o chefe da tribo local dos Chiluques assinasse um tratado de reconhecimento da soberania francesa. Em plena crise mahdista, o entreposto foi atacado em 25 de Agosto, conseguindo os franceses repelir a investida. Quatro dias depois, impressionado pela derrota infligida aos mahdistas, o sultão chiluque coloca formalmente o seu povo sob a protecção francesa. A conquista do Alto Nilo parecia um facto consumado, delirantemente celebrado em toda a França. Não se tratava de uma mera reivindicação como aquela anunciada pelos portugueses com o Mapa Cor de Rosa, mas de uma efectiva exploração, conquista e proclamação de soberania.

Em 19 de Setembro, Marchand recebe uma carta de Herbert Kitchener, anunciando-lhe a decisiva vitória inglesa em Omdurman, a prisão do emir Said Sagheir e a liquidação do poder derviche no Sudão, escapando o Mahdi, abandonado pelos seus partidários. Nesse mesmo dia, surge o navio que conduzia o general inglês, acompanhado por quatro canhoneiras que rebocavam barcaças carregadas com 2000 soldados e cinquenta peças de artilharia. Kitchener declara que a presença de Marchand em terras pertencentes ao Quediva do Egipto, pode acarretar uma guerra entre a França e a Inglaterra, mas o capitão francês responde ter ordens do governo para ali se manter
Num momento em que a perturbação política leva à sucessiva mudança de governos em Paris, torna-se improvável uma firme resposta francesa, pelo que Kitchener decide aguardar os acontecimentos, evitando o conflito imediato e dando oportunidade às consequentes manobras diplomáticas. Limita-se então a declarar o bloqueio da guarnição francesa, interditando o acesso de munições e armas. Dependente da opinião pública, o governo francês condecora Marchand em 9 de Outubro, promove-o a major, ao mesmo tempo que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Delcassé, já perdera todas as esperanças na resolução do conflito a favor dos interesses da França, pois a presença de Marchand em Fachoda, significava claramente a guerra com a Inglaterra. O enviado do major, o capitão Baratier, tentou contactar os “patriotas” e promover uma campanha de fervor nacionalista, conseguindo as assinaturas de cem deputados, para uma petição que repudiava o recuo do governo. Naquele preciso momento, os ânimos estavam exaltados ao rubro em ambos os lados da Mancha e o Chanceler do Tesouro, Sir Michael Hicks, chega a declarar que …” seria uma calamidade que depois de uma paz de oitenta anos, nos envolvêssemos numa grande guerra. Mas há males piores que a guerra”. Na verdade, os patriotas que empunhavam a tricolor nas praças, julgavam que a simples manifestação de repúdio levaria a Inglaterra a contemporizar. Assim, o predecessor de Delcassé, dizia que …“a este povo repugna o sacrifício. Uma só palavra de guerra ou conflito assusta-o. Quer, sem riscos, ser o primeiro em tudo”. Simultaneamente, o presidente Félix Faure escrevia: “temos actuado como doidos em África, arrastados por esses irrrsponsáveis que se chamam os coloniais”. As febris consultas às restantes grandes potências, demonstram à evidência, o isolamento da França, esquivando-se a Rússia e a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) à possibilidade de um conflito com a Grã-Bretanha, a incontestável senhora dos mares.

Enquanto isso, a rainha Vitória – tal como fizera em 1890 quando do Ultimatum a Portugal – declara aos seus ministros que …“a guerra não é concebível por um pequeno motivo. Os franceses foram apanhados num terrível beco sem saída. É preciso ajudá-los a sair dele”.
A consequência da firmeza britânica, impeliu o governo francês a invocar um mero pretexto – pouco convincente para a opinião pública – de ordem sanitária, para a retirada da missão Marchand. Urgia repatriar a expedição e assim, Delcassé anuncia em 3 de Novembro: “em presença do estado sanitário da missão Marchand, o governo acaba de decidir que abandonará Fachoda”. Poucas semanas decorridas, a bandeira francesa era definitivamente arriada no Nilo.

O que torna este episódio relevante para os portugueses, é o facto de uma considerada grande potência – a França, possuidora do segundo exército e da ainda segunda marinha do mundo e modelo de todas as “virtudes republicanas” almejadas pelos seus seguidores do p.r.p. -, ter cedido sem combate. Imitando as manifestações de oito anos antes nas ruas de Lisboa, Paris indignou-se, mas cedeu. A única diferença, consiste no simples facto de Fachoda ter cumprido todos os requisitos exigidos pelo Congresso de Berlim. Território explorado, ocupado e formalmente anexado, parecia inevitável a sua posse pela França. Na realidade, o Ultimatum britânico a Paris, foi infinitamente mais humilhante que aquele enviado a Lisboa. No entanto, a grande lição a tirar do episódio, consiste na ausência de um total aproveitamento populista pelos minoritários partidários da destruição do regime. Em Portugal vingou a demagogia que seria aliás, apanágio e razão de ser da república de 1910.

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Muito interessante. Excelente trabalho. No que se refere à demagogia, ela estava generalizada. Como sabe, a palavra «demagogo» não tinha na época um sentido pejorativo – um «grande demagogo», era um grande orador, um hipnotizador de massas, por assim dizer. No caso de Fachoda, pode além de tudo o que diz e que está muito correcto, um certo espírito de negócio que, poucos anos depois 8salvo erro, em 1904) levou à chamada «Entente cordiale». Por outro lado, a Grã Bretanha sabia que humilhar e enfraquecer demasiado a França, facilitaria o reforço das posições germânicas… Enfim, muito se pode dizer sobre este tema. O seu texto está muito bom.

  2. Luis Moreira says:

    Caro Nuno, Serviço Público no Aventar!

  3. Nuno Castelo-Branco says:

    Muito obrigado, Carlos.
    Deixou uma nota muito interessante e que convém sublinhar. Anos mais tarde, quando Eduardo VII chegou a Portugal para a sua primeira visita oficial ao estrangeiro – o que foi considerado como uma especial atenção que bem merecíamos -, tal se deveu também ao périplo que culminaria com a viagem a Paris, onde estabeleceu as bases da Entente Cordiale. Rui Ramos, na sua biografia de D. Carlos – e no seguimento da obra de Rocha Martins -, faz uma boa síntese da situação internacional na época.
    Sinceramente, cada vez me interessam menos os aspectos visíveis de todas estas tricas e mexericos da politiquisse partidária, sem a qual infelizmente não podemos passar. Paciência. Pelo menos, aqui no Aventar, passo os olhos por textos que ficam. E olhe que não são poucos. Estou muito satisfeito com esta “camarilha” subversiva. Muito, mesmo! 🙂

  4. Carlos Loures says:

    É uma pandilha gira, é. Tem de quase tudo. No «quase» há uma parte que faz falta – a posição israelita que convinha ser defendida sem fanatismos sionistas – e uma outra posição, muito difíicil de compreender – a causa cigana.

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