O sismo de 1 de Novembro de 1755

Este texto foi publicado em 1 de Novembro de 2009 na série «A máquina do tempo».

Eram as 9,30 do dia 1 de Novembro de 1755. Dia santo, grande parte da população de Lisboa encontrava-se nas igrejas. Subitamente, um rugido medonho subiu das entranhas da terra e sucessivos abalos destruiram em minutos uma das maiores e mais ricas cidades da Europa. Aos abalos sucedeu um pavoroso tsunami e um enorme incêndio. O cálculo do número de vítimas mortais vai em alguns autores até quase às cem mil (a cidade teria 275 000 habitantes).

O primeiro abalo, o mais forte terá durado entre três minutos e nove minutos, pensando-se que terá atingido o grau 8,7 na escala logarítmica de Richter. Abriu fendas com cinco metros de largura. Minuto e meio depois, uma violenta réplica provocou o tsunami com vagas que atingiram os 20 metros e devastaram o que o abalo deixara de pé. Horas depois, desencadeou-se um forte incêndio que completou a destruição. A Sul, a região de Setúbal e o Barlavento algarvio foram também grandemente afectados.

É muito difícil imaginar como seria hoje Lisboa se não tivesse sido flagelada pelo terramoto de 1755. É praticamente incalculável o valor do que se perdeu – conventos, palácios, igrejas, o Castelo, a sumptuosa Ópera do Tejo, a Casa da Relação, o Paço da Ribeira (e a sua valiosa biblioteca de 70 mil volumes), a Torre do Tombo, o Hospital de Todos-os-Santos as livrarias do marquês de Louriçal e dos conventos de S. Domingos, do Carmo, do Espírito Santo, documentos, quadros, baixelas valiosas… Sabemos o que se ganhou, a nova cidade pombalina , construída em cima das ruínas da urbe medieval.

O terramoto impressionou vivamente a Europa da época. Numerosas obras literárias se inspiraram ou se referiram ao cataclismo – entre muitos outros, nomes com os de Voltaire, Kant, Humboldt, Goethe, Le Brun, padre Feijoo, Charles André, Goldsmith, Baretti, Lemercier.

Em 26 de Janeiro de 1531, Lisboa fora abalada por um outro sismo de grande intensidade. Segundo descrições coevas, terá durado «o tempo de um credo», durante o qual ruíram cerca de mil e quinhentas casas e numerosas igrejas. Há uma colorida descrição de Garcia de Resende. Gil Vicente esforçou-se por explicar as causas naturais da catástrofe, contrapondo-as à generalizada opinião de que ela significou «um castigo de Deus» pelos desmandos dos homens.

Comments


  1. Como diz o Luis “Serviço público”, não há dúvidas. Bom texto Carlos.

  2. Luis Moreira says:

    Carlos, fala com o teu amigo editor para saber se conseguimos encontrar o livro que trata, exactamente, como seria hoje Lisboa se não tivesse havido o terramoto.

  3. Carlos Loures says:

    Eu devo ter esse livro. Não deve ser bem como dizes, porque dificilmente alguém pode saber como seria Lisboa se não tivesse havido o terramoto – deve ser «Como era Lisboa antes do Terramoto» e, com esse tema, tenho mais do que um – por exemplo o do Borges Coelho.

  4. Luis Moreira says:

    Há um que versa esta matéria, em que o autor desmonta o que foi feito depois do terramoto e fica com Lisboa sem as obras do Marquês…

  5. Carlos Loures says:

    Pois então, esse não conheço e não o tenho de certeza. Vou investigar. Se entretanto te lembrares de alguma coisa – título, autor, editora – diz-me, por favor.

  6. Frederico Mendes Paula says:

    Uma achega: existem inúmeras publicações com gavuras de Lisboa pré-terramoto, que é claro não são suficientemente claras para ver como seria a Cidade nessa altura. Em termos de plantas existe uma espécie de vista/planta datada de 1550 da autoria de G. Braun bastante deformada em termos de proporções. O Projecto de Reconstrução da Cidade de 1758 implanta os novos quarteirões sem indicar a pré-existência e não foi integralmente cumprido. O elemento gráfico que para mim é o mais interessante é a Planta da Cidade de Lisboa de 1780 que apresenta a sobreposição entre o que existia antes do terramoto e o que foi construído depois. Esta planta é colorida e está publicada numa colecção editada pela Câmara Municipal de Lisboa.

  7. Carlos Loures says:

    Tenho uma razoável biblioteca sobre Lisboa e conheço essa planta (creio que está reproduzida na obra que em 2005 foi publicada em co-edição pelo Público e pela Fundação Luso-Americana (4 volumes) – «1755 – O Grande Terramoto de Lisboa».) Não conheço é o livro de que o Luís Moreira já me tem falado por diversas vezes – o tal «Como seria Lisboa…». MUito obrigado, Frederico.

  8. Nuno Castelo-Branco says:

    Podem dar uma vista de olhos aqui: http://www.museudacidade.pt/investigacao/projectos/Paginas/Projecto1.aspx

    Aqui: http://www.destakes.com/redir/34efc7f02955cc2d81d308d348f98d88

    Aqui: http://abnoxio.weblog.com.pt/arquivo/2008/08/lisboa_antes_do_terramoto

    Aqui: http://images.google.com/images?client=safari&rls=en&q=lisboa+antes+do+terramoto&oe=UTF-8&um=1&ie=UTF-8&ei=S3lbS4-uI9HV4gbiycmABQ&sa=X&oi=image_result_group&ct=title&resnum=1&ved=0CBUQsAQwAA

    Aqui: http://nisee.berkeley.edu/lisbon/

    Aqui: http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?channelid=00000228-0000-0000-0000-000000000228&contentid=AB5BC3BC-931D-4D03-A4B5-E135BB83CC46&h=9

    E este aqui É MUITO BOM! Vejam bem e carreguem nas setas.
    http://www.slideshare.net/GwynethLlewelyn/city-and-spectacle-a-vision-of-preearthquake-lisbon-presentation-for-vsmm-2009

    Sinceramente e sem querer ser um desmancha prazeres, creio que teríamos passado bem sem 1755. Morreram muitos milhares de pessoas essenciais ao normal funcionamento da sociedade, perdeu-se um impressionante património – só o Paço da Ribeira estava atulhado de preciosidades de séculos -, e principalmente, Portugal afundou-se na impotência. A reconstrução custou uma fortuna e o zelo do marquês, embora competente, também serviu para uma especulação desenfreada de que ele próprio foi o principal beneficiário.

    A Biblioteca da Ribeira era uma das melhores do mundo e nem sequer falemos na colecção única – perdida na quase totalidade – de partituras e todo o tipo de obras referentes à música que outrora pertencera a Vila Viçosa. Em 1641 veio para Lisboa, dada a melomania de D. João IV (aliás, um excelente músico). Outra colecção perdida, foi a da Armaria da Ribeira, no Paço, capaz de equipar 30.000 homens com artefactos antigos e mais modernos. Dizia-se que era de um valor incalculável. Porcelanas, prataria (a primeira baixela Germain e o grande trono de prata maciça), as jóias da Coroa, a colecção de pintura (inestimável), tudo se perdeu. As igrejas e conventos da cidade, também se encontravam atafulhados de raridades de arte sacra e profana. As grandes casas senhoriais também desapareceram. Contudo o mais importante – para mim -, consistiu na perda da própria cidade que era uma das maiores da Europa, estando entre as cinco primeiras. Única, multifacetada, cheia de gente proveniente de todos os continentes, com um comércio importantíssimo perdemos definitivamente a cidade medieval e renascentista em toda a sua tipicidade que hoje nos encantaria. É certo que a reconstrução foi bem concebida, embora me pareça um tanto ou quanto acanhada, se compararmos com outras cidades europeias da época (S. Petersburgo, por exemplo). Mesmo o espaço é à portuguesa e as grandes praças talvez sejam a excepção.
    Não podemos imaginar o que teria sucedido à cidade se 1755 não tivesse acontecido. Como iria o Iluminismo pombalino encarar a extensão da urbe? Para norte – como aconteceu – ou seguindo as margens do Tejo? O que seria hoje a zona da Avenida da Liberdade, e a zona das Av. Novas? Não podemos saber.

  9. Carlos Loures says:

    Foi sem dúvida uma grande catástrofe. Não desmancha prazer nenhum – penso que perdemos mais do que ganhámos e não faltava espaço livre para onde a cidade se podia ter expandido, conservando o seu valiosíssimo tecido urbano medieval. O que não tira valor ao que o Marquês de Pombal fez, reconstruindo a cidade. Conheço S. Petesburgo, é uma cidade maravilhosa e a Lisboa pombalina não se lhe compara em magnificência. No entanto, o Terreiro do Paço é uma bela praça em qualquer parte do mundo.

  10. maria monteiro says:

    Nos meus “passeios” também posso procurar o tal livro

    • Luís Moreira says:

      Sim Maria, saiu há relativamente pouco tempo. No ano passado, 2005, quando houve uma comemoração do fenómeno…

  11. maria monteiro says:

    tenho ideia dum livro ou revista edição especial cujo tema era exactamente Lisboa antes do terramoto. Primeiro vou vasculhar em casa e procurar na minha irmã…

  12. Ricardo Esquimo says:

    Olá,
    Seria possivel saber com mais precisão de onde foi retirado este texto? É muito interessante e gostava de o referir num trabalho da faculdade mas para tal precisava de ter uma referência bibliográfica adequada.

    Obrigado

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