Em cinco séculos, nada mudou.


Portugal parece ter despertado de uma longa e ruinosa letargia de mais de duas décadas e o governo tem nos últimos dois anos, mostrado um inusitado afã na promoção das empresas portuguesas no além-mar. Desde o fim do Império, o país habituou-se à miragem de uma Europa pródiga em dinheiros e possibilidades de enriquecimento fácil. A miragem era afinal nada mais que isso mesmo, esgotadas as ilusões de uma caminhada triunfal em direcção a um almejado Estado à imagem das “ominosas monarquias escandinavas”, sempiterno modelo a seguir pelos iniciados nas coisas da política económico-social do defunto século XX.

A decepção avoluma-se há mais de uma década. O país não assistiu ao verdadeiro arranque dos prometidos “Silicon Valley” do extremo oeste peninsular. Portugal debalde esperou pela terminal-central de contentores que veria desembarcar as riquezas da infrene indústria de consumo chinesa. Fecharam fábricas de automóveis e de químicos. Liquidaram-se empresas vidreiras da época do despotismo esclarecido do josefismo-pombalino. O comércio com o antigo Ultramar estiolou numa exasperante inércia e as delegações do ICEP confirmaram aquilo o que delas sempre pensaram os portugueses interessados, isto é, a existência pela necessidade da presença meramente formal. quanto à agricultura, as sapiências de outros tempos condenaram-na a coisa inútil e pronta para o sacrifício em prol do turismo rural, campos de golfe e lotes de terreno destinados ao imobiliário. Viu-se no que deu esta loucura.

O regime encontrou uma fugaz válvula de escape no mercado espanhol, hipotecando a solvência do país à esperada constante do crescimento económico e financeiro do vizinho. Portugal encontra-se hoje mais dependente de uma só nação estrangeira, como jamais se verificou na sua história secular, nem mesmo quando dos piores momentos de ligação à Grã-Bretanha. É a verdade, simples, dura, implacável.

Os governos parece terem finalmente compreendido o dilema que desde sempre se colocou à simples existência de Portugal como Estado soberano, mesmo que essa soberania tenha que ser hoje encarada de uma forma distinta daquela a que a História nos habituou. A verdade é que a Europa existe por causa da visível sobrevivência das suas nações e dos seus Estados. É uma realidade indesmentivel e que tenderá – ao contrário daquilo que os arautos do federalismo procuraram fazer atroar de leste para oeste e de norte para sul – a vincar-se ao longo dos próximos anos. Os interesses são díspares e não é inimaginável concluir a divergência entre os componentes do chamado núcleo duro de “grandes potências” do tacitamente aceite Directório da UE.

As visitas governamentais e empresariais ao Brasil, Venezuela e Angola, incluem-se nessa frenética procura de salvação daquilo que realmente importa. Os investimentos em Espanha ou noutros países parceiros da União são decerto importantes, mas irrelevantes, se comparados com as economias em constante crescimento e potencialmente riquíssimas em termos de fornecimento de matérias primas e possibilidades de fixação de produtos portugueses. Os argumentos de índole meramente política e sentimental e ao sabor dos media de ocasião – os ditadores, a plutocracia reinante na China ou Angola, por exemplo -, são pertinentes, mas completamente irrelevantes em termos de solubilidade dessas próprias questões. Portugal, nada pode fazer, no que que respeita a uma intervenção nos assuntos internos daqueles Estados que surgem como potenciais clientes-fornecedores . Nada pode, nem deve procurar esse quimérico e perigoso poder de interferência.

A oposição procura agitar a o calendário político, apontando folclores exibicionistas e claras ligações perigosas. Contudo, chegou o tempo das oposições se conformarem a ser aquilo que a política lhes destina, isto é, a servirem de gabinetes de estudo e constante procura de soluções benéficas ao interesse de todos, do país. Durante décadas Portugal manteve relações normais com terríveis ditaduras como a russa, chinesa, norte-coreana, iraniana, de todo o antigo bloco-leste, o reino árabe saudita, iraquiana, líbia etc. Neste rol podemos também incluir a generalidade dos Estados saídos das independências de 1975. Nunca ninguém colocou objecções de consciência a tal tipo de tráfico diplomático, político e económico. Estranho é, agora num mundo em evolução acelerada e imprevisível, encontrar escolhos a colocar diante de oportunidades únicas. O relacionamento de Portugal, país democrático e com um regime relativamente estável, com outros Estados que não cumprem cabalmente aquilo que se considera ser apanágio da moderna civilização ocidental, confirma a praxis normal de todos os parceiros da União Europeia, disso não tenhamos qualquer tipo de ilusões.

Sou um português não-europeu e isso evidencia-se por cem anos de permanência familiar em África. A Europa como realidade política continental, nada me diz, nem me interessa. A Europa serve-nos de enquadramento de uma história quase milenar e vejo-a em termos meramente funcionais. Enquanto valer, serve e apenas isso. O sacro egoísmo do interesse nacional deve manifestar-se tal como acontece na generalidade dos países que connosco partilham a existência da UE. Disso não tenho qualquer tipo de dúvidas ou de hesitações meramente sentimentais. Portugal não reivindica qualquer tipo de aventuras territoriais no continente europeu e a sua história secular confirma-o. Sempre desprezámos e olhámos com mal disfarçado espanto, as constantes lutas de outrém, para a posse de uma “fronteira natural” no Reno, no Vístula, no Niémen ou do Dniéster. Com espanto e até com uma certa mofa, pois o Amazonas, o Congo ou o Zambeze, fazem empalidecer resquícios medievais e feudalizantes de territórios que pouco acrescentaram à garantia de preservação da existência dos contendores por essas insignificâncias. O simples e bem evidente crescimento da lusofonia, prova a justeza de uma política secular de não comprometimento com as questiúnculas intestinas europeias. E assim deverá ser.

Portugal deve voltar aos seu ambiente histórico tradicional, isto é, a África, à América e à Ásia. A Europa é um mero complemento de status internacional, de segurança e de enquadramento de um desejável modelo político e social, nada mais que isso. Parece que os governos compreenderam a insofismável realidade. No interesse de todos, no interesse de Portugal. E se no caminho tropeçarmos num ou outro déspota de momento, paciência. Protestaremos mas iremos em frente. É a lição de cinco séculos.

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