Exposição de João Alexandre

O meu amigo João Alexandre vai expôr na Casa das Artes de Sever do Vouga, tendo-me pedido para escrever um texto para o catálogo. Ele aqui está para quem tiver a pachorra de o ler.

Modus operandi

 Como eu já disse num outro texto sobre João Alexandre, falar dele não é fácil, porque não é fácil falar de um pintor que é, ao mesmo tempo, amigo, filósofo e criador.

O João resolveu dar a esta sua exposição o título Modus Operandi, que é uma expressão latina utilizada para significar um modo de agir ou de operar, mantendo sempre, de uma maneira geral, procedimentos idênticos.

Na verdade, objectivo e positivo como é o João, não poderia escolher melhor título. É que toda a sua obra, desde que o conheço, mais do que em qualquer outro pintor, revela um permanente modus operandi do qual ele não mostra vontade de sair, a despeito de uma imaginação dinâmica e de uma inteligência sempre activas.

Isto não impede que a sua pintura seja de uma singular originalidade, elaborada numa espécie de redundância conceptual, materializada na esfera de uma filosofia palpável, que, pelo facto de ser palpável, não deixa de ser profunda.

Materializada dentro dessa filosofia palpável, a sua pintura parece adquirir, filosoficamente, um carácter quase imaterial, onde não se vislumbram gestos nem mãos. Há uma expressão que já utilizei, mas que me parece tão adequada à pintura do João Alexandre, que não resisto a relembrá-la: a sua pintura vai aparecendo como se o artista soprasse a camada de pó que a cobre, não se sabe se há séculos, há milénios ou há um tempo fora do tempo. Uma espécie de alma para lá da translucidez da estrutura corporal da tela.

O João sabe como ninguém que o sentimento artístico enriquece o sentido da humanização, ajuda o processo de reflexão, ilumina as emoções e os sentimentos, cria uma poderosa afinidade com a consciência, gera uma grande necessidade de identificação com a verdade, desenvolve o sentido da estética e da beleza. E o João também sabe que o sentimento artístico é indispensável para a compreensão da maravilhosa complexidade dos seres e do mundo. O sentimento artístico, a inteligência e a vontade contribuem para que o prazer estético decorra do triunfo sobre o humano, criando sentimentos novos que projectam o homem na ordem universal.

Por isso, a pintura de João Alexandre é um testemunho de que esse mesmo sentimento artístico nasce de um doloroso processo de aprendizagem e descoberta, através de um longo caminho de humildade e de verdade. E não tenho dúvidas de que João Alexandre é um artista feito de curiosidade e uma pessoa cuja grandeza se mede pela grandeza da sua humildade. Não é de somenos importância que o João, senhor de uma insaciável sede de cultura geral, social e científica, e de uma profunda sabedoria dentro da área da pintura, seja um pintor sem presunções e sem vaidades, um pintor profundamente sério dentro da fragilidade e da eterna marginalidade da arte.

Claro que cabe a cada ser humano a necessidade de aprender a sede de infinito e liberdade. Parecendo, falsamente, um conceito elitista, não pode ser a arte a descer ao homem, mas é, certamente, o homem que tem de subir à arte através de um processo cultural mais ou menos árduo e longo. Para tal ele tem de aprender que a arte não é um conjunto de partes mas um todo emaranhado de interacções profundas entre o Homem e a vida, entre o Homem e a estética, entre o Homem e o Universo. Daí a total ausência de ambiguidade na pintura do João. Ele sabe que a obra de arte não deve pretender mostrar nada em concreto, e que por mais figurativa que seja a obra de um artista, ela só é arte quando a sua profunda, intrínseca e mágica natureza lhe confere um delicado papel de estímulo que pode arrancar o homem à sua hibernação e levar a pessoa que a contempla a revelar-se a si própria e a conhecer-se melhor.

Decorrente do que disse atrás, creio que João Alexandre, na sua pureza e seriedade artísticas, e de uma forma provavelmente não totalmente consciente, se tenha deixado imbuir de um certo esoterismo, enigmático e impenetrável, com o qual foi esmerilando pacientemente essa pedra informe que ganha vida e sonho nas suas telas misteriosamente abstractas. Talvez advenha daí um certo medo, saudável medo, de trocar o modus operandi que, segundo julgo, ele pensa que ainda o não catapultou ao entendimento do todo, às altas esferas da nossa utopia em que tudo existe mas nada existe isolado.

 Neste longo caminho do amadurecimento, tapetado de cardos e abrolhos, o João é das poucas pessoas que conheço, que, como homem e artista, tudo tem feito para não deixar a vida parar no tempo, nunca se esquivando ao relativo para pôr bem alto os olhos no absoluto.

                                                                                              Adão Cruz

3 comentários em “Exposição de João Alexandre”

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