De como a perspectiva nos interpela e invoca

A lamentação de Cristo, tema que apenas surge após o sec. XI sem qualquer ligação bíblica, nunca antes nos fora mostrado como Andrea Mantegna o fez, sem ser enquadrado na sua deposição da cruz amparado por várias personagens, ou ao colo de Maria.

Andrea_Mantegna_Lamentação_de_Cristo

Mantegna oferece-nos um corpo não definhado nem débil, mas forte, apesar de já exangue, depositado sobre uma laje, evidenciando as perfurações a que foi submetido nas mãos e nos pés, com os rostos de Maria, S. João Evangelista e, possivelmente, Maria Madalena, sem aflorar seus olhos, [Read more…]

Para a história do racismo na pintura europeia

Albrecht Durer-Alberto Durero 1504

Albrecht Dürer, Adoração dos Reis Magos, a discriminar desde o século XV.

Virar ao contrário

Aqui está a saída para o nosso país – é só virar tudo ao contrário, não?

Jesus é castigado após a visita do Magos

A criança não se comportou devidamente perante os sábios. Mordeu o nariz ao Gaspar, que lhe segurava com dois dedos uma bochecha enquanto fazia: Buubuu, pausadamente, acrescentando, muito depressa para os seu ritmo habitual:

– Lindo menino, é pena não ter escalão familiar para usufruir do abono de família…

E assim Jesus experimentou de sua mãe as primeiras palmadas.

max ernestMax Ernst: A Virgem bendita castigando o menino perante três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o artista

Cecília, a restauradora por amor

Cecília, 80 anos, sentava-se dia após dia num dos bancos da capela de Borja (Saragoça). Depois de muito olhar e pensar no seu Cristo «deformado» e mal tratado pelo tempo mas, sobretudo, pelos homens, decidiu fazer, ela própria, o restauro devido. «Já que ninguém toma a iniciativa…», terá pensado. Mas repare-se que Cecília não quis a coroa de espinhos no seu Cristo.

Graças a esta mulher, que com certeza ignorava até agora o nome desse Elias, não o profeta, mas o pintor do Cristo que revitalizou, os turistas vão querer conhecer a obra de Elías García Martínez (1858-1934). Segundo li, “esta semana, porém, esse Cristo tornou-se a pintura mais famosa do mundo…”.

O jornalista do DN, Ferreira Fernandes, escreveu que a «velhinha salvou o pintor». Mas eu acho que Cecília salvou o seu Senhor, embora, claro, tenha destruído a obra. Mas há males que vêm por bem: deu visibilidade ao autor do fresco!

Não a culpem por restaurar por amor e não pela arte!! Ela quer lá saber disso!!

Reconheceram-na pelo sorriso

Arqueólogos acreditam ter descoberto esqueleto de “Mona Lisa”

Do Pecado

Bosch.

Hieronymus Bosch. H.á um livro de uma jornalista espanhola, a casa dos sete pecados, um romance histórico sobre o pecado, desejo, morte, traição. Bosch aparece por razões evidentes. Segundo o protagonista, Felipe II, “Ninguém melhor que ele sabe plasmar numa imagem a verdadeira essência da redenção dos homens”. Eu diria mais. Ninguém melhor que ele sabe plasmar a verdadeira decadência humana. Não se enganem, os quadros de Bosch têm pouco a ver com o Renascentismo. São quadros da Idade Média combinados com as novas técnicas do Renascimento.

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Exposição de Onik Sahakian

Onik Sahakian Nasceu em 1936, na capital do então Império Persa. Em criança, recebeu uma bolsa de estudo para a frequência do Curso de Pintura de Miniaturas Persas, no afamado Honarestan Zibaé Keshwar (Instituto de Belas Artes de Teerão). Em 1956 partiu para os EUA, ingressando na Chouniard Arts School de Los Angeles, concluindo o seu Master em 1964, tendo estudado as técnicas dos pintores clássicos, sendo influenciado pelas escolas francesa, holandesa e italiana, embora numa fase posterior, viesse a interessar-se pelos impressionistas franceses. Foi consultor da Imperatriz Farah Diba, no âmbito do Centro Cultural Niavaran.

Conheceu Salvador Dali em 1958 e essa amizade perduraria até ao fim da vida do pintor espanhol, inevitavelmente sendo também atraído por uma certa visão do mundo, plasmada no irresistível apelo do Surrealismo Daliniano. Em 1987, Onik estabeleceu-se em Lisboa e aqui realizou a sua primeira exposição em território nacional, onde o seu multifacetado talento proporciona trabalhos de pintura e joalharia – algumas das jóias de Gala eram de sua autoria -, escultura, cenografia e guarda roupa para ballet.

O Aventar convida todos os leitores para a inauguração da sua exposição “Time for Wine and Roses”, a realizar-se no dia 2 de Junho de 2011, pelas 19.00H, na Galeria MAC – Movimento Arte Contemporânea (Av. Álvares Cabral 58-60, Lisboa).

O Google Art Project fazia falta, e havia gente a dar por isso

A Google tem várias qualidades, a agradecer sobretudo tendo em conta que com o seu monopólio quase absoluto o natural seria estar a dormir à sombra da bananeira onde um tal de Bill Gates em tempos ressonou.

Uma delas é a vontade de trazer cultura à net, seja pelos livros, seja agora pela pintura.

O Google Art Project oferece-nos aquilo que muitos museus já tinham feito ainda em CD-ROM: passear dentro de um museu, e sobretudo ver em alta resolução alguns dos seus quadros.

Esta manhã mostrei a novidade aos meus alunos. Bah, preferia era mesmo ir lá. Eu sei, os museus também têm cheiro. Mas na confusão de um grande museu deixamo-nos arrastar para as giocondas e outras celebridades, perdemos a tranquilidade da descoberta, e sobretudo não podemos enquanto visitantes ver a ampliação do traço, o arrasto do pincel, o retocado.

Lá perceberam com um Van Gogh, muito explicado o mês passado, e agora demonstrado no seu micro-esplendor.

Eu sei que a Google se move pelo negócio, e esta é mais uma iniciativa que pensa nos cifrões. Mesmo assim obrigado, e onde é que se mete a moedinha?

Mais um 2010

(adão cruz)

O mais recente trabalho, que eu dedico à dignidade do ser humano.

Mais um 2010

(adão cruz)

Com um abraço a todos

ADÃO CRUZ Um gesto de silêncio

         III VOL.

Caros amigos

 Acaba de ser editado o meu sétimo livro, o quarto de pintura e o terceiro deste conjunto de três, com o mesmo formato mas com subtítulos e cores diferentes.

 O livro teve o apoio da Fundação Ilídio Pinho, da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e da Ordem dos Médicos.

 Gostaria muito de o oferecer a todos os amigos, mas, como devem compreender, isso não é viável, pois são edições que ficam muito caras.

 Se, eventualmente, o quiserem adquirir para vós mesmos ou para oferecer, o que muito prazer me dá, podem pedi-lo a edicoes.engenho@gmail.com

 Como o livro não tem fins lucrativos, foi estabelecido o menor preço possível, de 30 euros.

 Um grande abraço do amigo

 Adão Cruz

Mais um 2010

Mais um 2010

(adao cruz)

Há vozes que só não falando se entendem, e há sonhos que tudo reduzem àquilo que se acredita.

Subimos o alto dos montes, descemos o fundo dos mares onde tudo se abre e se fecha na falsa harmonia dos contrastes que fazem a ponte entre a noite e o dia.

Nascem algemas nos pulsos abertos de sangue, e não sabemos quem seguir, se a alma se a razão, quando, neste cansado vaivém, uma entra e outra sai do coração.

São tantas vezes sepulcrais as ruas da nossa cidade interior!

A farsa que a gente é, só dói mesmo de pé, antes de a gente cair.

Mais um quadro 2010

(adão cruz)

Ainda a Arte Contemporânea

Ainda a Arte Contemporânea

O post da Carla “É a Arte Contemporânea, estúpido” gerou uma série de comentários, sobretudo da parte dos amigos Carlos Ruão e Carlos Loures.

Como é matéria em que dificilmente podemos dizer onde é que está a razão, não são comentários fáceis de recomentar num repetitivo e redundante comentário. Por isso optei por voltar a falar do assunto, em forma de post.

Diz Carlos Ruão, no fim de um dos comentários, agora sim, podemos dizer: “É a Arte Contemporânea, estúpido”. Ora bem. Se há situações em que podemos dizer: ”É a Arte contemporânea, estúpido”, não tenho a menor dúvida de que há outras situações em que podemos, justamente, dizer: “Ó estúpida Arte Contemporânea, sou eu”.

 A frase “Muita da arte contemporânea assenta numa enorme estrutura discursiva, sem a qual ela pura e simplesmente viria abaixo e se tornaria indistinguível de um monte de lixo”, parece-me muito arguta, como é arguta a observação da Carla, dizendo que, não pondo no mesmo saco todas as manifestações da Arte Contemporânea, se sente levada a concordar com esta frase.

 O amigo Carlos Loures concorda que, atendendo aos comentários de Carlos Ruão, só um reduzido número de pessoas estaria em condições de apreciar as obras de arte. Diz ainda Carlos Loures, que se aprende a ver, e ao ver e compreender se aprende a gostar. Luís Moreira diz que aprendeu a gostar da pintura de Picasso depois de ler e ter tido a sorte de um madrileno lha ter explicado. Concordo com ele, menos no explicar, porque penso que a arte se aprende mas dificilmente se explica.

 Diz ainda o amigo Carlos Loures que uma boa operação de marketing vende bons e maus iogurtes, vende bons e maus livros, bons e maus quadros… E por isso, a reacção da Carla à permissividade da arte moderna em matéria de mistificação ou mesmo de pura aldrabice (sobretudo nas artes plásticas) é também a sua.

 E dirigindo-se a Carlos Ruão, adverte-o de que não é preciso estudar a fundo a obra de um pintor para poder emitir uma simples opinião, porque, nesse caso, a arte seria dirigida exclusivamente a um público muito reduzido de críticos de arte (avalizados por academias, por exemplo). [Read more…]

Mais um quadro 2010

                  

“HAY TANTOS QUADROS COMO OJOS CAPACES DE VER” (SAM FRANCIS)

Na Gulbenkian – exposição

Começo por anunciar que o autor da natureza- morta acima é um dos Aventadores de seu nome Nuno Castelo-Branco que, além de nos brindar com belos textos e ensaios de história soberbos,  nos surpreende agora com esta obra magnifica.

Mas vamos à exposição na Fundação Gulbenkian :

1 – O encanto das coisas pintadas – o conceito da natureza – morta enquanto cópia de objectos inanimados.

2 – Momentos preciosos – natureza- morta com uma colecção de objectos preciosos, incluindo pintura dentro da pintura.

3 – Um festim para o olhar – a pintura de grandes dimensões, apelo sensual ao paladar

4 – Doçarias – perpétuas lembranças de prazeres desfrutados e da promessa de outros ainda por experimentar.

5 – Jogos de Luz – as naturezas-mortas que exploram o efeito da luz na superfície de diferentes materiais.

6 – Natureza e Artifício -as pinturas conhecidas como trompe l’oeil representam a capacidade do artista em convencer o observador de que a ficção pintada é real.

7 – Tributos Florais – as pinturas de flores dos mais prestigiados especialistas holandeses, Italianos e Espanhóis do sec. XVll revelam uma grande variedade de tratamento do tema.

8 – Animais de Imolação – os animais mortos são um tema específico da natureza-morta, encarada no passado como a representação de coisas sem vida ou inanimadas. Os chamados troféus de caça.

9 – Questões de vida e de Morte – a capacidade de revelar mensagens morais profundas é particularmente evidente nas imagens de “vanitas” – termo derivado da citação Bíblica “Vaidade das vaidades, tudo é Vaidade! ”

10 – Revivalismo e Ruptura – sec. XVlll, as obras que correspondem aos desafios tradicionais de imitação da natureza, com grande fidelidade ao objecto pintado.

Mas o melhor mesmo é ir aquele paraíso e verem pelos vossos próprios olhos, almoçar levezinho, passear nos jardins, ler e apanhar sol…

Exposição de João Alexandre

O meu amigo João Alexandre vai expôr na Casa das Artes de Sever do Vouga, tendo-me pedido para escrever um texto para o catálogo. Ele aqui está para quem tiver a pachorra de o ler.

Modus operandi

 Como eu já disse num outro texto sobre João Alexandre, falar dele não é fácil, porque não é fácil falar de um pintor que é, ao mesmo tempo, amigo, filósofo e criador.

O João resolveu dar a esta sua exposição o título Modus Operandi, que é uma expressão latina utilizada para significar um modo de agir ou de operar, mantendo sempre, de uma maneira geral, procedimentos idênticos.

Na verdade, objectivo e positivo como é o João, não poderia escolher melhor título. É que toda a sua obra, desde que o conheço, mais do que em qualquer outro pintor, revela um permanente modus operandi do qual ele não mostra vontade de sair, a despeito de uma imaginação dinâmica e de uma inteligência sempre activas.

Isto não impede que a sua pintura seja de uma singular originalidade, elaborada numa espécie de redundância conceptual, materializada na esfera de uma filosofia palpável, que, pelo facto de ser palpável, não deixa de ser profunda.

Materializada dentro dessa filosofia palpável, a sua pintura parece adquirir, filosoficamente, um carácter quase imaterial, onde não se vislumbram gestos nem mãos. Há uma expressão que já utilizei, mas que me parece tão adequada à pintura do João Alexandre, que não resisto a relembrá-la: a sua pintura vai aparecendo como se o artista soprasse a camada de pó que a cobre, não se sabe se há séculos, há milénios ou há um tempo fora do tempo. Uma espécie de alma para lá da translucidez da estrutura corporal da tela. [Read more…]

Quinto quadro 2010

(adão cruz)

Amargas trevas invadem-nos, por vezes, já que o Homem é um ser atravancado de mitos. A arte, caminhando a par da razão e da matéria pura, no espinhoso percurso da prisão à liberdade, dá luz à utopia que ilumina as ruas sepulcrais da nossa cidade interior.

Rambo – não o dos socos o das telas

Fazer opinião sobre uma pessoa sem a conhecer é um perigo, a maior parte das vezes um exercíco injusto, e que não aproveita a ninguem.

O actor americano Sylvester Stallone, cujos filmes eram um arraial de pancadaria e que ele próprio, era um exemplo de mal representar, deu-me uma lição de todo o tamanho. O homem em pequeno foi extremamente pobre, teve uma paralisia facial, que lhe dava aquela expressão “sem expressão” ( o que para um actor…) passava o filme todos sem um riso, sem uma careta, com o ar de ser um tipo atormentado, porque outra coisa não era capaz de fazer e ía mostrando o “cabedal”.

Pois não é que  Sly é um conhecedor e apreciador de arte e um pintor cotado a nível internacional?

Uma das mais importantes galerias de arte da Europa,  a Galeria de Arte Moderna de Zurique, expôs sete quadros seus depois de o seu curador ter visitado o artista em Hollywood. Tinham-se conhecido um ano antes em Zurique quando Stallone, convidado para o Zurich Film Festival, foi apanhado na galeria  a apreciar a arte exposta do pintor Colombiano Fernando Botero.

Muito antes de ser actor Sly, dedicava-se à pintura e assinava com Mike Stallone, mas a pintura estava fora de questão por ter uma vida economicamente tão dificil. Teve que ganhar a vida por outros meios até ser apresentado a grandes nomes do cinema que o ajudaram a dar a volta e a recuperar a paixão e o talento pelas telas.

Ao perguntarem-lhe porque nunca se mostrou como pintor, Sly respondeu : “Acho que sempre houve um estigma em relação aos artistas-cantores, artistas-actores. Compravas um “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club band” se fosse feito por um actor?

O preconceito, as ideias feitas, fazem-nos perder coisas boas da vida!

PS: pela verdade que devo aos leitores, eu não comprava porque não sei o que é.

O segundo quadro de 2010

(adão cruz)

(Dedicado ás meninas e meninos do Aventar)

Neste morrer do Homem e do entendimento, a procura da arte ainda prevalece como tábua de salvação. A arte não se compadece nem com a abreviatura do silêncio nem com a amplidão do grito. Neste vergonhoso mundo, a arte ainda tenta nascer da luta entre sonho e pesadelo. O sonho de ser um pássaro voando na proporção do amor, sem medo nas penas, e o pesadelo de ser um homem feito à medida do vento, arrastando as asas e a consciência.